Estilhaços de Portugal

aeroporto sá carneiro

 

Semicerrou os olhos, encadeados na leitura do gigantesco quadro das “Partidas – Departures”. Deslindou o seu Destino, de queixo levantado, por entre as dezenas de alternativas que se lhe desfilavam – confirmou o seu horário, e apontou mentalmente o número do balcão do check in. Ainda não estava destacado o da porta de embarque. Agarrou a pega da trolley, com a mesma força que lhe apertava o coração. Estava ali sozinho, como tantas vezes antes, de cabeça limpa, e instintos apurados. Visceral. Sobressaltava ligeiramente do nervoso miudinho.

 

Caminhou lenta e firmemente em direcção ao balcão, arrastando a trolley atrás de si. Vruuum… Vruuum… Bastante antecipado em relação aos 90 minutos recomendados, deparou-se com uma fila ainda muito curta. Vôo matinal com destino a Freiburg, Alemanha. Ei-lo que parte! Entregou o passaporte e o bilhete electrónico à simpática cashier.

 

– Parte também? – a voz dela soou resignada, amorosa, Portuguesa.

 

Francisco ficou surpreendido pelo tamanho grau da intimidade. Não respondeu, talvez tivesse sido apenas uma partida da sua imaginação. Era até provável, a eventual interlocutora prossseguiu– etiquetou cuidadosamente a trolley, e deslocou-a pela passadeira rolante. Cumprimentou-o, no tom familiar da despedida.

 

Enfim, podia seguir para a porta de embarque. Conseguia escutar o eco dos seus passos solitários, através do imenso bruá do Aeroporto Sá Carneiro. Muitos eram, as famílias emigrantes, os casais turistas, os grupelhos Erasmus. Indo ou vindo, ou provindo, todos rodopiando por ali, na plataforma do desencontro. Assistia a despedidas emocionadas, dos parentes, dos amigos, dos namorados, rostos em lágrimas, da cidade e do País, das memórias e das aspirações que os haviam suportado até ali. Em breve, iam desembocar a um outro sítio qualquer, dispersar pela Europa e pelo Mundo, em busca de novos encontros, memórias e aspirações. Estilhaços. Francisco inspirou. Era todo um povo que rodopiava através daquela plataforma. E era todo um povo desintegrado, obliterado, kaput, finito, no más.

 

– Parte também?

 

Desta vez, foi o segurança à entrada da área das partidas – amistoso, jovial, bonacheirão, tão Português – nem faltava o bigode farfalhudo! Francisco emprestou-lhe o bilhete electrónico. Embora a comoção, a mão estava firme, não tremia. Agradeceu-lhe a palavra de amizade (patriótica) e entrou. Estava tão perto, tão longe. Aproximou-se de outra fila curta, e de mais um tapete rolante – controlo da segurança pessoal – despiu o sobretudo, pousou-o no tabuleiro, libertou-se do cinto, do molhe das chaves, da carteira, do smartphone – e deixou-os seguir através do scanner de raios X. Um pequeno grupo de seguranças conversava tranquilamente do outro lado. Um deles, moreno, sisudo, a estirpe transmontana de Português, autorizou-o a aproximar-se. Francisco anuiu, atravessou a máquina de detecção de metais. Sem bip. Não foi indagado. Estava livre.

 

Do outro lado do tapete rolante, recuperou o sobretudo, carteira, chaves, smartphone, e estava, de novo, por inteiro, pronto a seguir na direcção da porta de embarque. Novo quadro electrónico, ergueu o queixo – Freiburg, número 14. Seguiu as setas que o encaminhavam na direcção do seu Destino, furando por entre as famílias emigrantes, os casais turistas, os grupelhos Erasmus. A trolley atrás de si. Vruuum… Vruuum… Mas já não estavam na plataforma do desencontro. Era, já, a plataforma da partida.

 

Chegou ao aglomerado 14. Podia descomprimir aqui por alguns instantes. Era dos primeiros a chegar, pouco menos de 30 minutos até à hora de fecho di embarque, e tranquilo o suficiente para deixar o tempo correr, render-se aos devaneios. Afundou-se no banco mais próximo. O olhar percorreu os que o rodeavam. Na mesma fila, a poucos bancos do seu, um homem de negócios, estrangeiro, Alemão ou Holandês, folheando desinteressadamente o Herald. Era, claramente um habitué daquelas lidas. Francisco projectou-se. Podia ser ele próprio daqui a uns anos? A ideia não o desagradou completamente, mas não o iria confessar. Nem a si próprio. Um par de vozes ronronou umas filas atrás, rodopiou ligeiramente a cabeça.

 

Um casal jovem, Português universitário, enroscava-se amorosamente. A sua viagem ainda não era a definitiva, tinham mais alguns anos pela frente, para ressacar pelos corredores da academia, e pelas praças das Europas, antes de encararem (embaterem) de frente (contra) o seu Destino. Eram Francisco, ainda o mês passado. Não lhe suscitaram mais do que uma leve curiosidade, retomou à sua posição. E, do outro aglomerado de bancos, em frente a si, uma rapariga alta, morena, olhos pretos enormes, impecável no seu casaco de ganga rubro, e jeans azuis. Os olhares dos dois cruzaram.

 

Francisco sobressaltou. Julgou adivinhar a questão que se seguia.

 

– E parte também? – mas, desta vez, foi ele próprio que a enunciou.

 

A rapariga ficou surpreendida. Arregalou ainda mais os olhos – eram mesmo enormes. Os seus dedos deixaram lentamente de picar o smartphone. Pensou antes de replicar.

 

– Sim – soou até bem-humorada. Francisco ruborizou. A pergunta tinha-lhe ecoado menos atrevida nos seus pensamentos. Não sabia o que lhe devolver. Nem sequer “Hum… hum…” lhe parecia adequado. Os dois reflectiram-se, avaliaram-se – o que partilhavam exactamente?

 

– Neste avião, quer dizer Freiburg? – a rapariga manteve o fio à meada. Francisco respondeu antes mesmo de ela concluir. Sim, partiam-se os dois, o seu pensamento cristalino!

 

– Sim, vou começar a trabalhar lá daqui a umas semanas. Vou… ah… emigrar – disse compassadamente.

 

Ela sorriu, mais descontraída. Tinha, enfim, entendido. De facto, até devia ter adivinhado! Do nervoso miudinho dele, pela voz trémula, e agitação corporal geral. Era a estupefacção da partida. Era ela, há dois anos.

 

– Eu vivo lá, cidade muito bonita, acolhedora, amigável, segura – parou, pensou, retomou – Mas já não se diz “emigrar”. Somos…ah… “expatriados”.

 

“Expatriados” repetiu Francisco mentalmente, duas vezes. Era a primeira vez que ouvia tal palavra. Mas compreendeu-a imediatamente, uma qualquer variação lírica de “refugiado”. Divertiu-o. Soou, de facto, plenamente adequada. Era então este o novo descritivo do refugiado socioeconómico do século XXI? E sucinto e imaginativo qb, como saído directamente de uma letra do Rui Reininho. Oh, os estripados de Portugal, uoohhhoou. Aderiu convicto.

 

– E vivem muitos Portugueses expatriados por lá?

 

– Cada vez mais – saiu-lhe a voz resignada, os dois arquearam os ombros, miméticos. Que podiam dizer mais?

 

Estilhaços. De uma pátria que se partiu.

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