O Novo Socialismo Galego

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Assentes num eixo que se debruça sobre o Atlântico, o Norte de Portugal e a região da Galiza enfrentam, actualmente, diversos problemas comuns. Neste espaço, onde a cooperação é um desígnio e a valorização do potencial endógeno um desafio, a cultura emerge como um sólido vínculo. O modo como a voz de Zeca Afonso ainda hoje ecoa, de Vigo a Ferrol, é exemplificativo do carácter meramente simbólico que possui a fronteira que separa ambas as regiões.

O Iván Puentes, que encabeça o movimento Novo Socialismo Galego, deu-nos a honra de escrever dois artigos, onde aprofunda as razões de ser deste projecto. Ficamos-lhe gratos por partilhar as suas reflexões connosco e desejamos-lhe a maior das sortes para os desafios que o movimento enfrentará.

“As últimas eleições foram dramáticas para o Partido dos Socialistas da Galiza-PSOE (PSdeG-PSOE). Em, apenas, quatro anos perdemos 45% dos nossos votos e, pela primeira vez em 30 anos, estamos abaixo dos 300.000 votos na Galiza. A trajectória das últimas Governações Espanholas, que assumiram desde 2010 as nefastas políticas de empobrecimento massivo da “Troika” e de uma direita que sequestrou a União Europeia, sem dúvida que influenciou este péssimo resultado. No entanto, outras razões existiram para que se chegasse a este ponto. Razões próprias da Galiza e do PSdeG-PSOE, as quais devemos corrigir no processo eleitoral interno que agora enfrentamos.

O nosso partido chegou às eleições dividido e sem um projecto político que representasse uma alternativa ao que fora apresentado pelo Partido Popular (PP). Dividido porque, desde o último Congresso Nacional Galego no PSdeG-PSOE, foi posta em prática uma política de exclusão. Uma política assente no acto de considerar inimigo todo aquele que pense de forma diferente, eliminando, primeiro dos órgãos de direcção e depois das candidaturas ao Parlamento da Galiza, todos os camaradas que divergissem da linha oficial. Um grande erro que se traduziu numa enorme fraqueza, na altura de nos apresentarmos perante os galegos e de lhes pedirmos o seu apoio para governar.

Dizia também que não tivemos projecto político. Em quatro anos não conseguimos construir uma verdadeira alternativa às políticas neoliberais do PP. Pontualmente, tivemos a capacidade para apresentar algumas propostas. Mas, nunca desenhámos um projecto global de transformação, de novas políticas sociais e, sobretudo,  económicas, que permitisse aos cidadãos confiarem em nós como alternativa, como uma ferramenta útil para melhorar a sua qualidade de vida, ou para transformar esta sociedade que não funciona e onde, a cada dia que passa, é mais complicado viver.

Assim, divididos e sem projecto, apresentámo-nos a eleições. Os galegos progressistas não se abstiveram mais do que é habitual. Simplesmente, não votaram no Partido Socialista e confiaram noutros partidos de esquerda. O resultado já sabemos qual foi: mais quatro anos de governação do PP, mas com uma maioria absoluta superior à que tinha, mesmo tendo obtido menos votos do que sucedera anteriormente. Deste modo, a pergunta a que devemos responder, caso queiramos construir um novo socialismo na Galiza (e em Espanha também), é a seguinte: o que procuram os cidadãos, que não encontram no Partido Socialista?

Se formos capazes de responder correctamente a esta questão, isto é, se conseguirmos aproveitar este processo eleitoral interno para entender o que os galegos nos disseram e desenhar um novo partido, então poderemos recuperar a sua confiança e voltar a governar. Porque, se há algo de bom que nos trouxe esta crise, é a evidência de que as receitas da direita não valem para a maioria. Ou seja, hoje, são mais necessárias do que nunca políticas de esquerda. Mas se não o fizermos assim, creio que ainda não tocámos no fundo. O nosso futuro está nas nossas mãos. Façamo-lo bem!”

Iván Puentes

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