João Torres e a Política da Comunicação Ideal

João Torres JS

 

No dia 4 de novembro de 2012, emergiu um novo protagonista da vida política Portuguesa. Na sessão de encerramento do XVIII Congresso da Juventude Socialista, no Pavilhão do Inatel de Viseu, João Torres falou em nome das aspirações das gerações mais jovens do nosso País: “o emprego, a habitação, as qualificações e a mobilidade.” Também antecipou a necessidade da demissão do Governo Português, se este não “inverter rapidamente o rumo das suas políticas.” Foi a sua primeira intervenção como secretário-geral da Juventude Socialista.

 

João Torres não se apresentou publicamente como um jovem arrivista, ou um profeta visionário. Pelo contrário, o seu discurso pautou pela solidez e temperança. Diametralmente oposto, portanto, ao estereótipo populista dos seus congéneres na Juventude Social-Democrata.

 

A sua preocupação foi apresentar o compromisso com uma proposta clara, coerente, abrangente, para o futuro do País. Uma baseada no diálogo construtivo e na sensibilidade social, de resto, por contraste com “a arrogância, a ausência de rumo, a apologia do conflito” do atual Governo de Portugal. Como descrito na sua Moção Global de Estratégia, “Ninguém Fica Para Trás – Juventude em Proximidade”: “… estar em proximidade, por procurar dialogar, conhecer e refletir as aspirações e anseios da sua geração e da sua comunidade, e ser a proximidade, através da promoção de políticas de coesão e solidariedade social.”

 

Um mês após o Congresso de Viseu, encontro-me com o João, para dois dedos de conversa sobre o seu percurso político, a visão que detém para a Juventude Socialista e, através desta, para o futuro de Portugal. No fim de uma tarde chuvosa, no bar do 17º andar do Hotel Dom Henrique, com uma vista panorâmica privilegiada sobre a cidade do Porto, desfiamos as suas memórias, políticas e pessoais.

 

Nascido em 1986, natural do concelho da Maia, o João tem os seus Pais como referência primordial, a resposta imediata para a questão recorrente. “Porquê a política?” É na consciência cívica da sua família, na sua forte noção de justiça social e de solidariedade para com os próximos, que o João identifica as raízes mais profundas da sua motivação para aderir à vida político-partidária. É um gosto ouvi-lo falar do Pai, antigo dirigente associativo e contestatário ao Estado Novo, preso antes do 25 de Abril e, durante os anos do PREC, militante no Movimento da Esquerda Socialista. Foi ao lado do Pai, que o João participou nos seus primeiros comícios do Partido Socialista, em meados dos anos 1990.

 

A infância do João atravessou os anos da Expo 98, do Nobel de Saramago, da autodeterminação de Timor Lorosae, do otimismo e da vontade de superação coletiva, do orgulho e confiança do País num desígnio maior. Um tempo que nos parece, agora, tão longínquo.

 

Foram também os anos dos Governos Socialistas de António Guterres, da política para e pelo diálogo, solidariedade e tolerância. Guterres, “o primeiro-ministro mais bem preparado da democracia Portuguesa”, é uma influência fundamental do João. As políticas guterristas, em particular, no domínio da ação social e da educação, são um testemunho que hoje deseja retomar. “A Juventude Socialista vai regressar à intervenção na exclusão social.”

 

O João aderiu à Juventude Socialista na sequência da derrota do Partido Socialista de Ferro Rodrigues, nas Eleições Legislativas de 2002 que, por sua vez, se havia sucedido ao fim do guterrismo, com a derrota nas Eleições Autárquicas de 2001. E ao discurso lúgubre do Pântano, um marco fundamental no imaginário político da nossa geração.

 

Para os Portugueses que nasceram nos anos 1980, e cresceram nos anos 1990, sob o signo da integração Europeia, no rumo do desenvolvimento económico e progresso social, foi a partir daí que as coisas começaram a correr mal.

 

O João explica-me que, por um certo sentimento de inconformismo com a situação política nacional, quis dar um contributo à causa pública. Pelo seu próprio pé, integrou a Juventude Socialista da Maia. Mereceu a confiança do seu então coordenador, Marco Martins, que o incentivou a assumir a liderança do Núcleo da Freguesia de Gueifães. Com apenas 17 anos, destacou esta pequena estrutura, no contexto concelhio e distrital, pelo ritmo e qualidade do trabalho político realizado.

 

Entre 2003 e 2006, sucederam-se várias responsabilidades em órgãos locais e nacionais da Juventude Socialista e, também, na Assembleia Municipal da Maia, onde, aos 20 anos, iniciou funções como deputado pelo Partido Socialista. O João considera que foi neste contexto que alicerçou e consolidou as suas capacidades de intervenção e debate públicos.

 

Entre 2007 e 2009, trabalhou junto de Nuno Araújo, Presidente da Federação Distrital da Juventude Socialista do Porto. Foi um tempo de grande dinamização e expansão da estrutura distrital, de resto, marcado pelo período mais fulgurante dos Governos Socialistas de José Sócrates, e pela coincidência de três eleições na segunda metade de 2009.

 

Em 2007, sucedeu a Marco Martins, como Presidente da Concelhia da Juventude Socialista da Maia e, em 2010, ao próprio Nuno Araújo, na responsabilidade de liderar os Jovens Socialistas do Distrito do Porto.

 

Um percurso ascendente notável, para o também estudante universitário que, em 2009, concluiu o Mestrado em Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Era, então, já um líder político estabelecido, nos quadros locais do Partido Socialista, e no contexto nacional da Juventude Socialista. Reconhecido pela inteligência, esforço e humildade, por respeitar, escutar e agregar as várias sensibilidades, experiências e atitudes dos jovens Socialistas, no Porto e no País.

 

O João fala-me, com notório orgulho, da sua experiência como Presidente da Federação Distrital da JS do Porto. O seu desafio maior foi construir um sentido de identidade transversal aos militantes e dirigentes jovens Socialistas dos vários concelhos do Distrito. Desvendar as linhas de convergência social e política, através de um território heterogéneo, difuso, distribuído por entre malhas urbanas, grandes unidades industriais, e paisagens rurais. Em larga medida, mesmo desconhecido pelos seus próprios residentes. Muitos jovens Socialistas do Distrito do Porto visitaram, pela primeira vez, os seus concelhos vizinhos, nos célebres roteiros territoriais, que marcaram os mandatos do João. Aprenderam sobre a riqueza cultural, social e económica do Distrito, conheceram as diversas tonalidades das problemáticas locais, e as sensibilidades características dos seus atores políticos. O que permitiu consubstanciar um espírito informal de camaradagem, de “unidade na diversidade”, um dos maiores triunfos dos mandatos do João.

 

Em 2012, não foi o único proto-candidato à liderança nacional da Juventude Socialista. Mas foi o que apresentou melhores pergaminhos ao nível da liderança local, e da intervenção nacional. Além disso, foi o que correspondeu melhor às aspirações de uma estrutura afligida pelo momento funesto do País, ressentida do descrédito geral no sistema partidário nacional e, até, da própria angústia existencial do Partido Socialista, na ressaca do fim do segundo mandato de José Sócrates, e do seu papel na assinatura do resgate financeiro da troika.

 

Perante a Juventude Socialista, o Partido Socialista, e o País, o João invocou os princípios que nortearam a sua carreira política. “Não deixar ninguém para trás”, através do diálogo com os interlocutores sociais, as outras juventudes partidárias, as associações cívicas, os sindicatos jovens, movimentos ativistas, associações de estudantes, investigação científica, e a cultura, para estabelecer um vínculo recíproco com os mais pobres, os desempregados, os precários, a diáspora, e os excluídos.

 

Na sua Moção Global de Estratégia, desafiou a Juventude Socialista, no período mais dramático da democracia Portuguesa, a estudar, analisar, debater, construir, e propor soluções concretas em prol da inclusão e da emancipação social dos jovens e dos cidadãos mais desfavorecidos.

 

O João enumera-me algumas das principais linhas programáticas que ambiciona para a Juventude Socialista, promover o emprego e o desenvolvimento económico sustentável e ecológico, definir modelos e instrumentos de governação locais, cívicos e participativos, e linhas políticas inovadoras, em prol da coesão social, territorial, económica e geracional. E, subjacente, a vontade em trazer o diálogo moral e o respeito mútuo ao cerne da atividade político-partidária.

 

Tomo o conceito da “comunicação ideal” de Habermas, para definir a identidade política de João Torres. A sua praxis está na racionalidade comunicativa, no balanceamento das perspetivas diversas, e na cooperação construtiva como fins em si mesmos. A política idealizada em torno do diálogo democrático, público, transversal, livre de constrangimentos, controverso, crítico, e emancipador. Foi assim na freguesia de Gueifães, no concelho da Maia, e no Distrito do Porto e será, agora, perante o País.

 

Ser é estar em proximidade.

 

De algum modo, a promessa do João Torres é a da recuperação da atmosfera humanista que caracterizou o guterrismo, e o Partido Socialista, nos anos 1990, sob a forma de uma Juventude Socialista descomplexada, ativista e pós-convencional. Talvez a única atitude possível para salvaguardar a relevância da JS, e das demais estruturas político-partidárias em Portugal, no século XXI.

 

Enfim, a comunicação ideal no coração, no jovem coração, da vida política Portuguesa. É o João.

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