Processo Reacionário em Curso: E a narrativa alternativa

 

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice; foi a época da fé, foi a época da incredulidade; foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas; foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós.”

 

Charles Dickens, “Um Conto de Duas Cidades” (1859)

 

zizek tsipras 

A peça avança, de novo, para um dos atos de rutura. E dos papéis que escolhermos aqui desempenhar, o contributo máximo das nossas vidas, a marca que imprimimos ao nosso espaço e tempo, e o testemunho que deixamos à geração seguinte.

 

Se queremos ser os coautores de uma verdadeira narrativa alternativa, não nos podemos cingir ao receituário paliativo do complexo político-económico do consumo, alerta Bernard Stiegler (2010). Pacotes de estímulo, planos de industrialização, e afins, não farão mais do que reconstituir os moldes do capitalismo pós-industrial vigente e, consequentemente, servir para o prolongamento do seu doloroso estertor.

 

De acordo com o filósofo Francês, o capitalismo do consumo está a definhar, porque subordina a singularidade humana, seu espírito e desejo, aos interesses dos investimentos financeiros de muito curto prazo, e à rentabilidade das grandes empresas industriais. Canalizando o desejo para bens de consumo, cada vez mais descartáveis, generaliza os comportamentos compulsivos, exemplificados, pelo consumismo exacerbado, e pelas próprias práticas especulativas dos agentes financeiros. O resultado é a estupidez sistémica, o desperdício, o desequilíbrio, o desinvestimento, tanto individuais, como coletivos – ambiental, económico, e político. Este modelo económico, social e político, está condenado à auto-destruição.

 

É assim, necessário, redefinir os seus pressupostos. Não através de uma reforma, mas com uma mudança revolucionária.

 

Stiegler (2010) advoga, nesse sentido, uma nova economia da contribuição, semelhante à que já identifica nas formas nascentes da Web 2.0, das redes sociais, do software open source, wikis... Nestes espaços digitais associativos, não se encontram, por um lado, os produtores, e, por outro, os consumidores. Mas sim, e apenas, contribuintes, construindo e partilhando valor e conhecimento, de modo aberto, público, inclusivo. Tais redes multiplicam as externalidades positivas, o compromisso, o investimento, e o cuidado, consigo e com os outros, quer individual, quer coletivo, representando, por isso, um modo de organização social mais sustentável e saudável, do que o vigente.

 

Roberto Mangabeira Unger (2007) apela igualmente à redefinição dos moldes da nossa organização social, económica, política, a partir dos ideais de uma economia de mercado democratizada (cooperativa), e de uma democracia empoderada (participativa).

 

O filósofo Brasileiro, antigo ministro de Lula, apela à articulação entre as economias de pequena escala, dos pequenos proprietários e comunidades locais autonomizadas, com os governos centrais, audaciosos, criativos, e inovadores.

 

Encontramo-nos no domínio das redes sociais, agrícolas, industriais, comerciais, políticas, que visam salvaguardar a sustentabilidade ambiental, valorizar os recursos endógenos, incrementar a participação cívica, e tecer ou reforçar, a cooperação, e a solidariedade social, em particular, através do terceiro setor.

 

Estas redes locais autonomizadas são, por sua vez, coordenadas pela ação estratégica de governos centrais, mandatados para definir objetivos sociais e políticos ambiciosos, nomeadamente, em ordem a um desenvolvimento harmonioso e inclusivo, e para supervisionar a sua execução – intervindo para corrigir assimetrias, e preencher lacunas, em particular, junto das comunidades e populações mais vulneráveis.

 

Tal modelo, de “federalismo inclusivo” poderia, perfeitamente, ser adotado pela Esquerda Europeia, nos debates sobre o futuro da organização política da União.

 

O célebre filósofo Esloveno, Slavoj Žižek (2008, 2009) apresenta uma perspetiva ainda mais radical. O seu olhar acutilante, cínico, percorre o que entende serem os fracassos do movimento progressista internacional pós-2008, desde as manifestações e acampadas nas praças Europeias, à ocupação de Wall Street, até à primavera Árabe, contrapondo-o com a expansão imparável do “capitalismo autoritário”, ou dos “valores Asiáticos”. A reforma, ou o protesto, não são, por si, suficientes. Só o autêntico processo revolucionário, através da rutura com o materialismo e a economia de mercado, pode alavancar a almejada mudança paradigmática.

 

No seu horizonte, a “hipótese comunista”, não como guião estruturante, mas como ideal emancipador, inspirado pelo pensamento do seu compagnon de route, Alain Badiou. Carecendo de um conteúdo formal propriamente dito, tal ideal servirá como plataforma de convergência para as vítimas do capitalismo, o leitmotiv da sua revolução.

 

No quadro da nova alternativa, Žižek (2008, 2009) avança a(s) luta(s) contra a monopolização corporativista dos bens comuns da humanidade, o meio ambiente (crise ecológica), o conhecimento (direito de propriedade) e a biologia (manipulação genética) como referenciais estratégicos da Esquerda do século XXI. Neste campo, apela à convergência entre as elites ativistas, culturais e progressistas, e os slum dwellers, os refugiados do capitalismo pós-industrial, os habitantes dos bairros degradados, das casas de lata, das favelas, das tendas, da rua, dos subterrâneos, e que já totalizam mil milhões em todo o mundo!

 

Será a partir da sua autoidentificação numa categoria social comum, a “universalidade corporificada dos excluídos”, que se poderão libertar as forças e relações sociais latentes, presas hoje pela “camisa de forças do capitalismo.”

 

Curiosamente, Žižek descreve aí uma das imagens de marca do movimento internacional, que ele próprio rotula de fracassado. Occupy Wall Street, os indignados Ibéricos, a primavera Árabe, procuraram, de facto, estabelecer uma vinculação política com os segmentos mais desfavorecidos das suas respetivas comunidades.

 

Nos movimentos ativistas, nas organizações não governamentais, nas esferas da academia, e da cultura, a Geração Y estendeu as suas preocupações e motivações características, do desemprego, precariedade laboral e emancipação jovem, para um espectro social mais abrangente, visando, em particular, a solidariedade e o apoio concreto, político e judicial, aos pobres e aos desalojados da crise. Uma tendência, desde logo, celebrizada pelo epíteto “We are the 99%!”

 

Este movimento praticou, ainda, a economia da contribuição descrita por  Stiegler (2010), baseando os moldes da sua organização e atuação ativista, nas plataformas horizontais, quer físicas (assembleias populares, ocupações), quer digitais (Web 2.0, YouTube, blogues). Os resultados foram, em todos os contextos, extraordinários! Na Europa e na América do Norte, definiram o zeitgeist, no Médio Oriente e no Norte de África, derrubaram autocracias.

 

E a sua palavra sociopolítica maior, ainda vem a caminho.

 

Os resultados eleitorais na Grécia, em maio de 2012, com a ascensão da coligação da esquerda Radical, Syriza, e em Itália, em fevereiro de 2013, com a emergência do movimento da democracia direta, Cinco Estrelas, além da proliferação dos Partidos Pirata na Europa do Centro e Norte, sinalizam a forte tendência revolucionária desta geração, pelo menos, na Europa Ocidental, e que ainda se deverá agudizar, durante os próximos anos.

 

Ao mesmo tempo, já sabemos que a atividade política da Geração Y está a transferir-se, gradualmente, dos moldes tradicionais da democracia representativa – militância partidária, participação eleitoral – para os da democracia participativa – ativismo, manifestações, ocupações, e abaixo-assinados.

 

O ponto de ebulição virá, provavelmente, na geração seguinte.

 

Depois da Geração Y, segue-se a geração do segundo milénio, já nascida à sombra dos escombros de um sistema decadente. Elas e eles procurarão, inevitavelmente, essa narrativa sociopolítica alternativa. Se não fosse por outra razão, para apenas poderem sobreviver. Nas suas memórias, estará saliente, o efervescente ativismo internacional pós-2008, à sua mesinha de cabeceira, repousarão leituras de autores como Žižek, Mangabeira, Stiegler, …, aos seus ouvidos, sonante, o apelo a um novo modelo de organização social, económica e política.

 

Esse novo antigo ideal civilizacional, visando as comunidades locais autossuficientes, ecossustentáveis, cooperantes, coesas, e emancipadoras. E aquelas que são, hoje, as nossas causas emergentes, democracia participativa, desenvolvimento económico sustentável, cooperativismo, economia social, e federalismo inclusivo, serão os seus motes revolucionários.

 

Que os possam cumprir, se nós já não formos a tempo.

 

Referências Bibliográficas:

 

Stiegler, B. (2010). For a New Critique of Political Economy. Cambridge: Polity Press.

 

Unger, R. M. (2007). Free Trade Reimagined: The World Division of Labor and the Method of Economics. Princeton: Princeton University Press.

 

Žižek, S. (2008). In Defense of Lost Causes. Londres: Verso.

 

Žižek, S. (2009). First As Tragedy, Then As Farce. Londres: Verso.

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