Prefiro Rosas, meu Amor, à Pátria

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Longe vai o tempo em que Fernando Pessoa, sob a forma do heterónimo, Ricardo Reis, versou estas palavras. Todavia, passadas décadas, há quem insista em mantê-las actuais. Este texto não pretende ser mais um contributo para o já acicatado debate, que opõe as diversas alas do Partido Socialista. Numa semana em que se tornou crucial, a desmistificação das ilusórias conquistas do Governo Nacional, o maior partido da oposição optou por contar as rosas, esquecendo-se, por largos instantes, da depauperada situação do País.

 

Numa entrevista à Rádio Renascença, publicada na passada Quarta-feira, Pedro Silva Pereira, antigo Ministro da Presidência, defendeu que o “Partido Socialista deveria fazer mais para se apresentar como uma alternativa credível ao actual Executivo”, sugerindo, igualmente, a antecipação do congresso electivo para breve. Após estas declarações, as reacções não se fizeram tardar, pautando-se pela abundância e pelo imediatismo. De Manuel dos Santos a José Lello (a forma como ainda lhe é concedido auditório, reflecte o estado a que a política partidária chegou), das direcções Distritais pró-Seguristas a Marcos Perestrello, passando por Vieira da Silva e terminando na promissora juventude, representada por João Assunção Ribeiro, Pedro Nuno Santos, João Galamba, ou Duarte Cordeiro, todos optaram por opinar quanto a esta matéria. O tom e as palavras utilizadas acabaram por ser, nalguns casos, extremamente ríspidos, avivando cicatrizes debilmente saradas.

 

O que terão pensado os cidadãos, desiludidos e distantes das decisões políticas, cuja preferência eleitoral não é manifestada há vários anos? Nunca é demais recordar que, nas eleições Legislativas de 2011, a abstenção atingiu os 41,1%. Chegados a casa, frustrados pelo decréscimo do seu rendimento mensal ou desiludidos com mais uma malograda jornada em busca de emprego, procuram alguma solução política e encontram, proliferando pelos meios de comunicação social, um debate, que deveria ser interno, transposto para a praça pública. Mesmo os que ainda se interessam e que aguardam ansiosamente, por uma alternativa ao pensamento neo-liberal, depararam-se com a certeza de uma opção instável no seu âmago.

 

Se havia alguém que poderia ter saído vitorioso deste gládio, essa pessoa era o Secretário-Geral do Partido Socialista. Bastava que, ao invés de ter repetido por diversas vezes a mesma questão, alimentando as diatribes, tivesse dado voz aos Portugueses. Cabia a António José Seguro dizer que o País precisa de verdadeiras soluções, representativas dos seus cidadãos, evitando abordar a matéria e remetendo-a para os espaços de discussão próprios. Pelo contrário, as suas respostas, assim como as dos seus apoiantes, difundiram-se pelos diversos meios de comunicação, instigando o conflito interno no palco público.

 

O vencedor deste episódio acabou por ser o próprio Executivo Português. Depois de uma semana, em que conseguiu convencer os mais desatentos, de que os sacrifícios dos Portugueses começam a ser recompensados, quer pelo alargamento dos prazos de pagamento da dívida, quer pelo regresso aos mercados especulativos, pôde, praticamente em simultâneo, testemunhar as fraquezas da alternativa Socialista. Exemplo paradigmático do sucedido, é a forma discreta como foi veiculado o excelente discurso que Pedro Marques proferiu, no plenário da Assembleia da República. As rosas pouco valem, caso não espelhem a alma da Pátria.

 

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
(…)
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

(Prefiro Rosas, meu Amor, à Pátria; Ricardo Reis)

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