Processo Reacionário em Curso: A Crise, Como e Porquê

vulture funds

 

No dia 8 de fevereiro de 2010, os gestores de alguns dos mais poderosos fundos de cobertura norte-americanos, como o SAC Capital Advisors, o Soros Fund Management, o Green Light Capital, e o Brigade Capital Management, encontraram-se para um seleto “jantar de ideias”, numa moradia de Manhattan, a convite da empresa de corretagem Monness, Crespi, Hardt & Co. O assunto do jantar foi dos cenários “prováveis” para a evolução da economia mundial. Incluindo, o de que a economia Europeia estava perto de entrar em colapso, o Euro de desvalorizar, e os títulos da dívida pública Grega constituíam o seu flanco mais vulnerável.

 

Três dias depois, o Euro sofreu um ataque especulativo nos mercados internacionais, que determinou a sua desvalorização de facto.

 

De acordo com a notícia do Wall Street Journal, que revelou esta sucessão de acontecimentos, vários fundos de cobertura, apoiados por bancos de investimento, como o Goldman Sachs, o J. P. Morgan, o Bank of America-Merrill Lynch, e o Barclays Bank of London, apostaram em massa na queda do Euro, alguns dias depois de algumas destas instituições terem discutido a hipótese abstrata.

 

O “jantar de ideias” foi objeto de investigação do Departamento de Justiça Norte-Americano, por suspeitas de concertação ilegal para manipulação de mercados. Por esta altura, vários gestores financeiros vieram a terreiro, afirmar que nada de errado se havia passado e que a “partilha de ideias” é prática comum em Wall Street. A investigação findou três meses depois, inconclusiva.

 

Em simultâneo, os fundos e bancos de investimento adquiriram milhões de euros em credit default swaps (CDS) vinculados à desvalorização de títulos da dívida soberana de alguns Países da Zona Euro, nomeadamente aqueles conhecidos como periféricos, ou sob o acrónimo pejorativo PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha.

 

Os CDS são contratos equivalentes a seguros contra a insolvência dos títulos de dívida. Mas que podem ser adquiridos por investidores que não possuem estes títulos e, nesse caso, não têm nada a perder com a sua insolvência. As aquisições em massa de CDS contribuem para a perda de confiança geral sobre os títulos a que estão vinculados.

 

Uma imagem recorrente que ilustra este processo compara os CDS a seguros contra incêndios. Imaginemos que qualquer pessoa pode comprar seguros contra incêndios na minha casa. E que, num certo dia, muita gente começa a comprar esses seguros. Desde logo, um dos efeitos será a minha casa desvalorizar – afinal se anda muita gente a apostar que a minha casa vai arder, deve haver alguma razão plausível para assumirem que vai arder. Por exemplo, as instituições de crédito e os arrendatários interessados vão desconfiar. Até eu próprio me questiono se não serei o incendiário?

 

Deste modo, os ataques especulativos iniciados em fevereiro de 2010 contribuíram para a perceção negativa geral sobre a sustentabilidade financeira da Zona Euro e, em particular, da sua periferia. Foram ainda reforçados por ações de propaganda através das agências de notação financeira e da comunicação social.

 

Por consequência, as taxas de juro associadas à emissão da dívida pública destes Países foram subindo gradualmente, até chegarem a níveis insustentáveis. Convém notar que a emissão de títulos de dívida nacional, ou soberana,  não é um luxo dos Países pobres “a viverem acima das suas possibilidades”, mas um meio dos Estados, incluindo os dos Países com superavit, angariarem fundos para a sua despesa, garantirem a estabilidade das contas públicas, e intervirem na economia nacional. Mesmo até ao eclodir da crise das dívidas soberanas, os títulos da Zona Euro eram percebidos como investimentos ultras-seguros e de longo prazo.

 

Mas, e apenas numa questão de meses, os Estados viram-se sem capacidade para se financiarem e, sucessivamente, Grécia (Abril de 2010), Irlanda (Novembro de 2010), Portugal (Abril de 2011), tiveram de solicitar auxílios extraordinários, nomeadamente junto do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia, vulgo “troika”. Em Junho de 2012, seguiram-se Espanha e Chipre.

 

A casa estava enfim a arder. E todos os que tinham adquirido os “seguros” ficaram instantaneamente mais ricos.

 

Porque toda a evolução negativa da situação financeira dos Países periféricos valorizou imenso os contratos com CDS, tornado-os em produtos financeiros muito lucrativos para os fundos e bancos de investimento, que os compram e vendem subsequentemente a um preço superior (ver Gráfico seguinte, que se refere à cotação dos CDS vinculados aos títulos das dívidas soberanas Europeias, entre Março de 2005 e Março de 2012).

 

Credit default swaps a 5 Anos na UE. "Eurozone - Distressed": Chipre, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal.

Credit default swaps a 5 Anos na UE.
“Eurozone – Distressed”: Chipre, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Portugal.

 

Tomando um caso exemplar, o famosíssimo banco de investimentos Goldman Sachs detinha, no segundo trimestre de 2012, 382 milhões de dólares em CDS, vinculados à desvalorização da dívida Portuguesa. O mesmo banco detinha 175 milhões de dólares em títulos da dívida Portuguesa. O resultado é uma “exposição negativa” à dívida Portuguesa, em -207 milhões de dólares. Ou seja, o Goldman sairia a lucrar com um eventual incumprimento do Estado Português. E, num conflito de interesses notório, o próprio banco trabalha para o Estado Português, com a missão de “aconselhar sobre as estratégias de financiamento que Portugal deve tomar para convencer os investidores a comprarem dívida da República.”

 

Mas os interesses dúbios dos fundos e bancos de investimento na crise das dívidas soberanas não se ficam por aqui. Adicionalmente, na sequência da crise, várias daquelas instituições tiveram a oportunidade de adquirir títulos de dívida pública, a uma fração do seu preço (diz-se, “abaixo do par”, ou seja, abaixo do valor nominal do título). Nestes casos, salvo uma reestruturação amigável ou algum imbróglio judicial, os fundos são reembolsados pelo valor nominal dos títulos, e garantem lucros multimilionários. E, mesmo quando são reestruturados, como aconteceu no caso Grego, são-no acima do preço de compra, garantindo lucros ainda assim extraordinários. Não por acaso, são designados pela Campanha do Jubileu no Reino Unido, e pela imprensa especializada, de “fundos-abutre”.

 

Nota importante, não existe informação pública detalhada sobre quais são exatamente os fundos e os bancos que detêm os títulos de dívida soberana da periferia do Euro, por quanto a compraram, e sob que condições. No caso Português, de acordo com as últimas informações do Instituto de Gestão do Crédito Público, as empresas e famílias estrangeiras detêm cerca de 50% da dívida soberana, sendo a expectativa de que esta percentagem venha a ser reduzida durante o período de implementação do memorando com a troika. Os fundos e bancos de investimento internacionais que tiverem adquirido estes títulos a baixo custo, vão agora atravessar um tempo de bonança, à medida que o seu risco de insolvência diminui, e que os vão vendendo ao Fundo Monetário Internacional, e aos fundos Europeus, i.e. o Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira e o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira.

 

O ponto de inflexão ocorreu em Janeiro de 2012, quando a cotação dos CDS associadas aos títulos das dívidas públicas da periferia da Zona Euro, começaram a desvalorizar (ver Gráfico anterior). Neste sentido, a crise das dívidas soberanas tem um fim à vista.

 

A questão é, a custo de quê?

 

E da resposta a esta questão, podemos ainda esclarecer uma segunda, não convenientemente resolvida neste texto: Porquê nós? Será o tema do próximo texto desta série.

 

“Well that’s the real question, isn’t it? Why? The how and the who is just scenery for the public.”

 

(“JFK” de Oliver Stone, 1991)

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