Basta!

Basta desta austeridade obscena que tem levado Portugal à ruína! Esta obsessão ideológica que substituiu o Orçamento de Estado de 2013, por algo que se situa entre uma declaração de insolvência e uma carta de demissão. Um Governo que desconhece a noção de equidade, que não entende o conceito de justiça social, que ignora os cidadãos da sua Nação, adoptando uma postura extremamente autista, não tem legitimidade para continuar em funções. Chega desta cegueira, que esmaga uma classe média cada vez mais depauperada. Um País que sempre se situou na cauda da Europa, no que aos índices de desigualdade de rendimento diz respeito, não aguenta o penoso trilho desta Via Crucis.

Basta da postura titubeante dos elementos que compõem a Troika. O FMI, congénere do Goldman Sachs – Instituição que se encontra no epicentro desta crise – descobre agora que os pressupostos dos seus modelos estavam errados. Revela-o depois de submeter Nações aos mesmos. Em nome da Comissão Europeia, Durão Barroso atribui a responsabilidade das medidas de austeridade aos Governos dos Países intervencionados. Os progenitores da austeridade abandonam assim o seu rebento, à mercê de uma medieval roda dos enjeitados. Onde fica a responsabilidade parental? É altura de parar com a narrativa distorcida de que determinados Estados viveram acima das suas possibilidades. Esta é, acima de tudo, uma crise do sistema financeiro global, que se alastrou a uma Europa edificada deficitariamente. Cometemos erros? Muitos mais do que deveríamos. Somos os principais culpados do ponto em que nos encontramos? Dificilmente.

Citando um dos deputados que mais aprecio da bancada parlamentar socialista, Pedro Delgado Alves, esta não é a época dos “que no Governo, na oposição, no meu Partido e na Presidência da República têm revelado que não estão à altura do grave momento que atravessamos e que tratam o momento como business as usual”. Basta do nim circunstancial, alicerçado na contenção, de quem procura liderar ao sabor das sondagens. Estes são tempos em que as convicções se assumem como imperativo máximo. Os cidadãos não aguentam mais promessas de um caminho alternativo, consubstanciado nos versos de José Régio: “não sei por onde vou, não sei para onde vou – sei que não vou por aí!”. Chega de falas mansas, palavras fáceis, trocadilhos simples e analogias infantis. Basta de discursos superficiais e epidérmicos, que aliando conceitos paradoxais entre si, confundem mais do que esclarecem. É hora de afirmar que este é o momento da alternativa real e concisa! É hora de assumir uma postura subversiva.

É tempo do Partido Socialista representar o seu eleitorado, afirmando que, primeiramente, o caminho deverá ser feito através da renegociação do memorando. Uma renegociação que não se resuma a prazos e ao montante do empréstimo, mas que englobe a redefinição destas taxas de juro imorais e usurárias. Uma renegociação feita com a postura de quem, realmente, pretende defender os interesses do seu País.

É tempo de relembrar Adriano Correia de Oliveira, terminando com as palavras que a sua voz imortalizou. Num passado recente, poucas foram as vezes em que fizeram tanto sentido:

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

(…)

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

É tempo de cumprir Abril!

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