A Minha Geração

 

A minha geração é uma rapariga de cabelos ondulantes, negros, olhos enormes, lábios carnudos, vendo ao espelho, o reflexo perfeito da sua doçura. Que em gestos automáticos, vai substituindo pela sombra cintilante, o brilho autêntico da sua ternura. Nos lábios, impõe o batom vermelho vivo, as unhas, cobertas de verniz, são os sinais de alguma essência, que quer mostrar elegante e pura. E quando sai à noite, já vai exausta, sufocada da maquilhagem, a sua agrura. Chega a casa desapontada, no seu rosto, as “lágrimas perdem-se à chuva”.

 

A minha geração é uma jovem adolescente, que sobe e desce a Avenida, agarrada aos amigos inebriados e atestada de vinho barato, “because friends don’t waste wine when there’s words to sell”. Só lhe interessam os momentos curtos, que sejam tontos e excessivos, que possam misturar-se nos seus sentidos, e confundir-lhe a própria vida. Seguirá, mais tarde, para o Bairro, procurando combinações de absinto, servidas em disparos mal calculados, que a amparem até um outro dia. Cambaleará mais tarde até à sua cama, agrilhoada por mil pecados, espectros de emoções, que lhe atravessam o corpo, rodopiam pelo tecto, deixando atrás rastros de alucinações, psicodramas, e ilusões, numa espiral demasiado tétrica, para quem só tem dezasseis anos.

 

A minha geração sou eu, inconsequente, que disfarça com eloquência, a tristeza da minha condição. Que julgo que sou poeta, enquanto concorro à próxima bolsa de investigação. Num dia, reinvento o mundo, no outro faço-lhe uma vénia, ando à boleia de devaneios, afundado em mil ideias, e a cantar novos amanhãs. E é tamanho o orgulho desmedido, com que ergo o punho, e levanto um cravo, que só posso mesmo fazer uma triste figura, de pobre pateta revolucionário.

 

A minha geração é o meu jovem camarada, que vai seguindo algemado, trilhando os mesmos caminhos, já tantas vezes trilhados. Não lamenta a sua condição, antes morde na sua mordaça, e sufoca a esperança de que melhores tempos podem chegar. Quando der por si, já se perdeu também, foi vítima da treva cerrada, e  não tem como voltar às saudosas fogueiras antigas, que o costumavam iluminar.

 

A minha geração é o trabalhador temporário, povo que ainda lava no rio, e para sempre há-de lavar, chamam-no de precário, subcontratado, analfabeto funcional. Desde a adolescência, que é mão-de-obra imprevista e ocasional, os pés de barro da economia nacional e a primeira baixa da conjuntura global. E depois de tantos anos ingratos, peso leve a oscilar, por entre trabalhos mal pagos e dívidas por saldar, não lhe resta outro meio de alimentar a família, senão sair de Portugal.

 

Princesas destroçadas, hipsters alienadas, bolseiros envaidecidos, estrelas cadentes, escravos indigentes, oh, como eu amo furioso a minha geração.

 

Que são os mil estilhaços de um sonho partido, dispersos pelas praças das cidades, alguns lançando petardos, outros uivando slogans inflamados, a clamar revolução.

 

“You see us as you want to see us… In the simplest terms, in the most convenient definitions. But what we found out is that each one of us is a brain… and an athlete … and a basket case… a princess…and a criminal.”

(John Hughes, “The Breakfast Club”, 1985)

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