Os culpados do costume

 

Refletir sobre as medidas recentemente adotadas pelo Governo é um exercício simples. Os objetivos são conhecidos (reduzir o défice e mascarar a péssima execução orçamental) e os efeitos fáceis de prever. Basicamente, as famílias ficarão mais asfixiadas do que nunca – pelo aumento significativo das contribuições para a Segurança Social – e, de positivo, apenas algum alívio para um restrito grupo de empresas.

 

Parece-me um caminho manifestamente errado! De qualquer forma, outra coisa não seria de esperar, até pelas profundas divergências ideológicas que me separam desta maioria PSD/CDS. Mas se pensam que este texto servirá pura e simplesmente para “desancar” no Governo, com considerações que – vindas de pessoas ligadas aos partidos políticos – sempre parecem “politiqueiras”, demagógicas e oportunistas, enganam-se! Prefiro debruçar-me sobre os “chefes” que governam o 1.º andar do n.º 60 da Rua “X” ou o rés-do-chão do n.º 80 da Avenida “Y”.

 

A título de exemplo, analisemos a sentença hoje conhecida num processo em que eram arguidos João Vieira Pinto (ex-jogador de futebol e atual membro do staff da Seleção Nacional), Luís Duque, José Veiga e Rui Meireles, acusados de fraude fiscal. Foram todos condenados, já que ficou provado terem-se desonerado da responsabilidade de pagamento de impostos no prémio de assinatura de João Vieira Pinto – no valor de 4,2 milhões de euros – aquando da transferência para o Sporting.

 

Importa perguntar: um prémio de assinatura no valor de 4,2 milhões de euros não é já suficientemente bom? Precisaria JVP de praticar tal ato de egoísmo e ganância para garantir o seu sustento minimamente digno e do respetivo agregado familiar? Todos sabemos a resposta! Verdadeiramente triste é que, amanhã, os mesmos idiotas continuarão a idolatrá-los, enquanto eles fazem vidas de luxo e contribuem para que todos nós paguemos mais e mais impostos a cada dia que passa.

 

Se as pessoas percebessem metade do que deviam perceber, saberiam que os culpados do seu sofrimento estão mais perto do que pensam. Não são apenas alguns maus governantes que elegeram, mas o vizinho do lado, o primo, o tio, o amigo!… Aqueles que até são uma ótima companhia de copos, mas chegada a hora, pensam apenas no seu umbigo. Infelizmente, demasiadas pessoas não entendem!

 

Pensando bem, talvez até entendam… Mas é feio criticar o amigo que conhecemos há anos e até nos paga, com gosto, um fino de vez em quando… Certo? Ou o vizinho que nos toma conta da casa quando vamos de férias? Então quando é família… Ui!… Perguntar a um familiar – sangue do nosso sangue – se acha correto fugir aos impostos? Blasfémia! Ainda passamos por invejosos…

 

A receita da generalidade dos nossos compatriotas é simples: ser seletivo, não culpar quem não convém, fazer o mesmo se houver oportunidade e, quando tudo correr mal, cair em cima dos sucessivos Governos que não sabem o que fazem e são incapazes de colocar no Orçamento aquela pequena verba para comprar uma máquina de fazer dinheiro. Depois, encontram-se uns podres antigos (seja de Sócrates, Passos Coelho ou qualquer outro) e generaliza-se: “Aquele sacana, que já há muito revela maus instintos, é que deu cabo disto tudo!”

 

Não, não foi o meu vizinho que é gerente de uma sociedade e declara o rendimento mínimo há anos. Não, não foi o meu tio que se “esquece” de passar recibos verdes da maioria dos serviços que faz. Não, não é o meu avô que tem uma padaria e só fatura metade do que vende. Não, não é o meu amigo que vai de férias para “Punta Cana” e deixa os impostos por pagar. A culpa é só mesmo desses malvados políticos que vão para lá beneficiar os amigos e pôr-nos a pagar impostos desnecessário. Malditos sádicos!

 

Longe de mim querer desculpar as medidas do Governo, que além de mal escolhidas, são de uma violência sem precedentes, mas tenho lido muitos apelos, nos últimos dias, à revolução. Querem fazer uma revolução? Então, batam já à porta do vosso vizinho, interrompam- lhe a diversão (se for o caso) e digam-lhe das boas!…

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