O Efeito Pedro Nuno Santos

 

 

Sexta-feira, 31 de Agosto, 21h30, dezenas de militantes e dirigentes do Bloco de Esquerda acorrem à Escola Secundária de Santa Maria da Feira, para a sessão de abertura do Fórum Socialismo 2012. Uma plateia composta de muitos jovens, acompanhados por alguns rostos mediáticos, e por uma comunicação social expectante, aguarda as comunicações da noite. Luís Fazenda, presidente do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, e Pedro Nuno Santos, Presidente da Federação Distrital de Aveiro do Partido Socialista. O ambiente é fraterno e caloroso.

 

Pedro Nuno Santos introduz: “Ontem, perguntou-me uma jornalista: Porque é que aceitou comparecer à rentrée do Bloco de Esquerda? Bem, em primeiro lugar, porque me convidaram.” Seguindo-se: “Não é estranho comparecer a uma iniciativa de um partido de esquerda. Estranho é ver Socialistas em iniciativas semelhantes de partidos de direita.”

 

A primeira parte da comunicação de Pedro Nuno Santos será dedicada à clarificação do significado político que tem a sua presença naquele evento, “a título pessoal, e não em representação do Partido Socialista”. Até ao final do debate, jornalistas, militantes e dirigentes do Bloco de Esquerda, ficarão a saber o que os Socialistas, em geral, já sabem há algum tempo. Pedro Nuno Santos é, de facto, o artigo genuíno.

 

É fácil recordar o momento em que despontou para a celebridade política. Em meados de Dezembro de 2011, rádios, televisões, jornais, fizeram um festim à volta das declarações do então vice-presidente do grupo parlamentar do PS, durante um jantar de Natal de militantes de Castelo de Paiva. O seu timbre forte, indignado, ecoou pelo ciclo informativo, e através dos blogues e colunas de opinião, por entre comentadores condescendentes e sobranceiros. “Estou marimbando-me para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal nas condições em que emprestou. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis.” Estivessem os Gato Fedorento ainda no ar, e Ricardo Araújo Pereira teria certamente ajudado à festa.

 

Pedro Nuno Santos apelava então à reestruturação da dívida com a troika, através de uma posição Portuguesa assertiva na negociação com os representantes das estruturas internacionais. Porque, em último caso: “Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses, e essa bomba atómica é simplesmente: não pagamos! Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos! E se nós não pagarmos a dívida e lhes dissermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem.”

 

Tanto pela forma, como pelo conteúdo das declarações, Pedro Nuno Santos foi conduzido ao longo da via-sacra mediática, como um jovem ingénuo, inexperiente e irresponsável. Na Assembleia da República, o deputado do PPD-PSD, Nuno Encarnação, chamou as declarações de “enormidades”, enfatizando o empenho do Governo em cumprir o memorando com a troika, uma vez que se não cumprisse “quem treme são os trabalhadores e os pensionistas.” Pelo CDS-PP, Hélder Amaral classificou as declarações como um “episódio lamentável.” Nos seus comentários dominicais, Marcelo Rebelo de Sousa acusou Pedro Nuno Santos de ter “apunhalado” o Secretário-Geral do Partido Socialista, António José Seguro. Sublinhou que “é tonto um vice-líder parlamentar andar a fazer declarações dessas.”

 

Esta é a história mais conhecida. Mas é uma história que guarda uma outra faceta, porventura, mais relevante. É que as declarações polémicas de Pedro Nuno Santos, no preciso momento em que se tornaram conhecidas perante o País, mereceram um aplauso efusivo dos jovens militantes e dirigentes da Juventude Socialista e Partido Socialista, através das redes sociais, blogues e, posteriormente, pelos encontros concelhios e nacionais. Em sentido lato, os jovens Socialistas reviram-se, acolherem, e manifestaram o seu apoio a Pedro Nuno Santos. Depois de a poeira assentar, emergiu uma evidência. Aquele vozeirão arrebatado, impaciente, mordaz, seria a voz da próxima geração do Partido Socialista.

 

Nascido em São João da Madeira, Pedro Nuno Santos começou, no início da adolescência, a sua actividade na Juventude Socialista. Nas suas palavras, fê-lo pela “revolta que senti por perceber que os meus colegas tinham condições muito diferentes das minhas e de outros amigos. Aquilo que mais confusão me fez desde miúdo foi perceber que as desigualdades eram bastantes”. Igualmente relevante, foi a influência da família. O seu pai, um empresário bem-sucedido, tinha sido militante da Frente Eleitoral Marxista-Leninista, durante o turbulento Processo Revolucionário Em Curso. “… [E]u tive sempre uma biblioteca com livros de ciência política… Alguns livros vinham do tempo da militância dos meus pais no PREC e percebi, mais tarde, que o paraíso que vendiam nas páginas desses livros não correspondiam à realidade. Mas essas raízes acabaram por me influenciar. A visão do meu pai, mesmo como empresário, é de um grande inconformismo perante as desigualdades” (ionline, 29.06.2012).

 

Pedro Nuno Santos relata este mesmo enquadramento biográfico perante a plateia do Bloco de Esquerda. Pelos rostos da velha guarda da UDP, desenham-se sorrisos cúmplices.

 

Na Juventude Socialista, Pedro Nuno Santos seguiu uma carreira ascendente, chegando a Presidente da Federação de Aveiro e a secretário-geral. Entre 2004 e 2008, os seus mandatos na direcção da Juventude Socialista foram caracterizados pelo que se interpretou como uma “viragem à esquerda” da organização, com uma focalização particular nas designadas causas fracturantes, como a despenalização da interrupção voluntária da gravidez e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um espaço político que se encontrava, até então, ocupado pelo Bloco de Esquerda. Menos conhecidas, mas fundamentais para se compreender o posicionamento ideológico de Pedro Nuno Santos, foram as suas reservas e críticas às políticas das privatizações e às parcerias público-privadas e, em geral, às soluções mistas da Terceira Via.

 

Ao lado de Pedro Nuno Santos, emergiu nos quadros dirigentes da Juventude Socialista, uma fornada de novos valores, incluindo os dois secretários-gerais subsequentes, Duarte Cordeiro e Pedro Delgado Alves. O jornalista Luís Claro viria a identificá-los, com João Galamba e Isabel Moreira, exteriores ao aparelho partidário, como a “geração que quer tirar o socialismo da gaveta” (ionline, 30.06.2012). Ou seja, um grupo informal que converge na ruptura política (e etária) com a geração da Terceira Via, em Portugal simbolizada por António Guterres e seus delfins, António José Seguro inclusive.

 

Através das posições políticas que têm assumido, em particular na oposição aos principais arremessos neo-liberais que atravessam a Assembleia da República, Orçamento de Estado de 2011, Tratado Orçamental da União Europeia, Código de Trabalho, é notório o seu alinhamento à esquerda do Secretariado Nacional do Partido Socialista. E o seu maior sentimento de urgência. A demissão de Pedro Nuno Santos da vice-presidência do grupo parlamentar do PS surgiu como o sinal definitivo do corte epistemológico desta geração.

 

A abordagem da “geração que quer tirar o socialismo da gaveta” passa por enquadrar, reflectir, e explicar a angústia do País, à luz do ideário socialista matricial, humanista, solidário e inclusivo; e desenvolver eixos, soluções e instrumentos de corte com a situação vigente. Reconhecem abertamente como adversários as estruturas de decisão, políticas e económicas, nacionais e internacionais, que conduzem o País, através de um caminho ideológico absolutista, para uma sociedade corporativista, economicista, desigual e conflituosa. Que se materializa através das actuais políticas austeras e recessivas, agregadas em torno do memorando de entendimento com a troika.

 

A adesão de Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro, Pedro Delgado Alves, João Galamba, Isabel Moreira, entre outros deputados do Partido Socialista, ao próximo Congresso Democrático das Alternativas, confirma e, de certo modo, reforça a vocação de ruptura desta nova geração do Partido Socialista.

 

E esta é, até ao momento, a sua maior vitória política. O efeito de Pedro Nuno Santos, e seus compagnon de route, foi de terem trazido para o seio do Partido Socialista o que, nem a disputa eleitoral entre António José Seguro e Francisco Assis; nem (muito menos) as diatribes posteriores entre as supostas alas “segurista” e “socrática”, conseguiram. A “geração que quer tirar o socialismo da gaveta” trouxe ao Partido Socialista a dialéctica interna. Através das ferramentas, os conceitos e as opções, para construir um modelo novo que altera realmente o modo como o Partido Socialista lida com o fracasso evidente das políticas derivadas do memorando de entendimento com a troika.

 

Na sessão de abertura do Fórum Socialismo 2012, Pedro Nuno Santos assenta o seu discurso sobre estes mesmos predicados. Sem equívocos, enfatiza que o seu combate, enquanto social-democrata, é feito no seio do Partido Socialista, não dando margem para hipotéticas cisões a la Partido Renovador Democrático. Em alternativa, dedica grande parte do seu discurso a um apelo à redefinição da Esquerda Portuguesa, à luz de um diagnóstico comum sobre as iniquidades vigentes e prontificada para assumir responsabilidades dentro de plataformas abrangentes de debate e acção. As Eleições Autárquicas de 2013 constituirão uma oportunidade preciosa para o efeito. Não será por acaso que Pedro Nuno Santos recorda o exemplo de sucesso da coligação de esquerda em Lisboa, nas Eleições Autárquicas de 1989.

 

Luís Fazenda conclui a sessão do Fórum Socialismo 2012, sublinhando os diversos pontos de convergência expressos durante a noite. A oposição firme à transferência excessiva das riquezas públicas para a propriedade privada, enquanto causa determinante dos excessivos défices públicos e dívidas soberanas, e da desigualdade e anomia social. E a promoção do modelo social Europeu, em prol de uma sociedade coesa, dinâmica, e esclarecida. Luís Fazenda deixa ainda a mensagem final: “Mas não resisto a dizer que se a luta do Bloco é difícil, a luta do Pedro Nuno Santos também vai ser muito difícil.”

 

Talvez, mas também por isso, vai ser muito estimulante. Aguardemos os próximos capítulos.

Anúncios