Ecos da Hipermodernidade: O centro do poder

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A exacerbação e a elevação exponencial do liberalismo globalizado, da mercantilização dos modos de vida e do individualismo galopante, acompanhadas pela integração do passado nas lógicas modernas, caracterizam o que Lipovetsky entende ser a Hipermodernidade. Uma época em que prevalece “uma sociedade liberal, caracterizada pelo movimento, pela fluidez e pela flexibilidade” (Os Tempos Hipermodernos, Lipovetsky, 2004). Um tempo marcado pelo efémero, em que o excesso é cultura, onde prevalece o desejo pelo que é maior, sendo que tudo se torna intenso e urgente.

 

Ecos da Hipermodernidade são gritos de alerta, que ressoam nas consciências Humanas, conforme a crise socioeconómica se propaga. Opiniões que ajudam a compreender uma pequena parcela, do todo complexo que conduziu o Mundo até ao ponto em que hoje se encontra. Este é o eco da voz de David Rothkopf, sobre a amnésia ética e a bancarrota moral que assolam boa parte do capitalismo democrático actual.

 

O desmedido poder detido pelas maiores organizações empresariais, numa escala global, representou num passado recente e representa actualmente um risco inestimável para o desejável funcionamento das sociedades. Dos 193 Países-membros das Nações Unidas, 161 têm menos recursos do que os que possuem as duas mil maiores empresas Mundiais. O número de Países, em que a petrolífera Norte-Americana Exxon Mobil actua, supera as Nações onde a Suécia tem embaixadas. O montante do orçamento Sueco destinado à diplomacia é inferior ao que a companhia petrolífera despende globalmente em relações públicas. Sendo que o PIB anual da Nação Escandinava é comparável ao que a Exxon Mobil factura, no mesmo espaço de tempo.

 

Descrevendo estes e muitos mais exemplos, David Rothkopf lançou, recentemente, o livro “Power, Inc.”. De acordo com o director da revista Foreign Policy, estes factos não evidenciam algo de nocivo em si mesmo. “O problema surge quando os actores corporativos agem, em conjunto ou individualmente, para subverter a democracia em questões importantes para o Mundo, como o aquecimento global ou a definição de regimes fiscais injustos”. O conceito de deslocação tectónica nas relações internacionais, criado por Rothkopf, releva a emergência de um conjunto de agentes privados que, através da interacção com um sistema de Estados, controla uma porção significativa de recursos, auferindo a capacidade de orientar e moldar resultados Políticos da forma que mais lhes convém. Ganham poder para atrasar a regulação dos mercados financeiros globais e aptidão para reivindicar uma abertura superior de  determinados mercados, mesmo que isso se revele prejudicial para o bem-estar da sociedade.

 

As rédeas da Hipermodernidade têm sido conduzidas pelas mãos, mais ou menos invisíveis e nem sempre impolutas, de um conjunto de iluminados, a quem foi concedida a capacidade sobre-humana de influenciar decisivamente a adopção de Políticas concretas. Compreender que decisões motivadas pelo lucro suplantam frequentemente as que visam optimizar o bem-estar social, exige uma profunda reflexão sobre a autoridade das instituições democráticas. Sem regulação e condicionamento do apetite voraz dos que apenas almejam a realização individual, a promoção da coesão social continuará a ser irremediavelmente secundarizada e a supremacia dos mercados sobre os Estados prevalecerá.

 

As garrafas de Bollinger continuarão a ser o troféu arrecadado, por quem pratica de forma bem sucedida inúmeras fraudes. Instituições financeiras como o Barclays, o HBSC e a Standard Chartered continuarão a manipular resultados que afectam milhões de vidas Humanas. Quantias exorbitantes continuarão a ser lavadas para barões de droga Mexicanos, para vendedores de automóveis usados Russos, ou utilizadas para financiar organizações como o Hamas e o Hezbollah. Porém, o cúmulo da imoralidade permanecerá na sórdida promiscuidade existente entre Partidos, militantes e grandes organizações empresariais, materializada, frequentemente, em financiamento de campanhas eleitorais.

 

O regresso dos centros de poder ao seu habitat natural – instituições democráticas que representam a vontade real dos cidadãos – terá que ser um dos principais desígnios das próximas décadas. Caso contrário, caminharemos para um Mundo cada vez mais desigual, onde reinará a anomia e a instabilidade social. Ou seja, retrocederemos para reinos já antes visitados.

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