o homem máquina

 

Ti-ti-ti-ti-ti… O despertador interrompeu o seu sono periclitante. Eram 7 horas. Já não se recordava bem dos sonhos daquela noite, o pensamento enublado e os músculos cansados. Abriu os olhos na escuridão e acordou para um novo dia. Lentamente, levantou-se da cama, trôpego, no seu quarto, e dirigiu-se para o computador da sala.

 

– Ligar… – dirigiu a voz embargada para o microfone, em resposta acendeu-se o ponto de luz, o ecrã iluminou-se, sucederam-se algumas janelas de entrada. Finalmente, o ecrã de plasma estabilizou numa janela de fundo azul, onde letras brancas incrustadas reclamavam: “Utilizador? Palavra-chave?”

 

– Miguel Pedro… 4… 5… 3… “H” maiúsculo… “O” maiúsculo… “Z” minúsculo… “L” minúsculo… 2 – voltou a falar para o microfone.

 

Deste seu ritual matinal, Miguel Pedro iniciava mais uma jornada de trabalho. O destino próximo estava traçado. O restante da manhã seria passado em frente ao computador. Miguel acedeu à Internet, abrindo consecutivamente a página da Companhia, a página da NYSE Euronext, o indexante de notícias e blogues, a página da informação meteorológica, e a página da sua rádio pessoal.

 

Na página da bolsa de valores, mergulhou a fundo nos desenvolvimentos do mercado global de capitais, no dia marcado no calendário como de 24 de Outubro de 2029. Ocasionalmente, espreitava as actualizações das notícias, as económicas, as políticas, as triviais, e as informações meteorológicas, ao som da “Lacrimosa”, fúria ultra-dramática do Polaco Zbigniew Preisner.

 

Na secção de chat da Companhia trocavam-se impressões sobre as perspectivas para o dia, antecipavam-se (formavam-se) as tendências.

 

“Eu devo ir para os mares de novo, para o solitário mar e céu, / E tudo o que peço é um alto barco e uma estrela para o dirigir” (John Masefield, 1902).

 

Miguel prendia alguma atenção no chat, alguma atenção nos números que se passeavam em rodapé e ainda alguma nos quadros que apresentavam os volumes de compras e vendas dos títulos que mais lhe interessavam, materiais de base, utilities, sector financeiro. Algures a meio de manhã, engoliu suplementos vitamínicos.

 

Aproveitou o momento para meditar levemente.

 

Aquele iria ser um dia importante. Por volta da hora de almoço, receberia um relatório da Companhia sobre ao seu rendimento anual. Miguel não estava preocupado. Tinha-se comportado ao longo do ano com eficiência. Tinha assessorado um punhado de bons negócios, facilitou aquisições de relativo êxito, imaginou fusões com bom potencial de lucro, prestou bons conselhos, mantinha óptimas relações com um leque importante de investidores.

 

Já ultrapassara a barreira dos 35 anos e se se mantinha na Companhia, sem grandes sobressaltos, tal devia-se à sua sobriedade, à análise competente, à capacidade de previdência e antecipação.

 

Ao longo do ano, poderão ter existido erros, mais de omissão, do que de comissão, contudo, segundo o bom julgamento de Miguel não deveriam ser julgados como flagrantes ou negligentes. Adicionalmente, a Companhia prosperava.

 

À uma hora da tarde recebeu na caixa de correio electrónico o seu relatório de rendimento. Miguel Pedro leu-o transversalmente, impassivelmente. “Caro… A Companhia… entrega-lhe uma declaração… apreciação: satisfatória… com prazer, alargamos o seu vínculo contratual por mais um ano… agradecemos…” Terminada a leitura, enviou a carta para a reciclagem e, deixando o computador ligado, dirigiu-se pacificamente para o tapete rolante.

 

Stone Roses, final dos anos 1980, melancolia britânica desencantada e ritmo funk viciante. Miguel corria contra o movimento do tapete de cabeça vazia. Saiu suado do exercício, 30 minutos depois, e dirigiu-se para o chuveiro na casa de banho. Engoliu mais uns quantos suplementos vitamínicos e arrastou-se novamente para o computador.

 

Olhou para o ecrã e tudo continuava na mesma.

 

As conversas do costume no chat, os mesmos números, os mesmos gráficos, e quadros, e as eternas ondulações. Reteve-se por alguns momentos a olhar para tudo aquilo. Eram 15 horas. Consultou a página das notícias da bolsa. Anunciavam-se os efeitos  da grande fusão da semana passada entre duas grandes corporações. Eram boas notícias para Miguel e para a sua companhia, acções que valorizavam, riqueza instantânea. Prendeu a sua atenção num título secundário: “Hoje, centenário do Crash de 1929”.

 

Há precisamente cem anos, tivera lugar a célebre quinta-feira negra que arrastara a economia ocidental para a Grande Depressão. Uma dor de cabeça rompeu o seu pensamento. Entrou na página principal da Companhia e os números, as letras, os gráficos, que pululavam no ecrã. Algumas mensagens de colegas e clientes já estavam anunciadas no canto inferior direito do ecrã. “Desligar” disse em voz alta resignada. Levantou-se e foi procurar uma aspirina, mas sentia o coração ferido. Os seus pensamentos eram cinzentos.

 

Tomou o comprimido e dirigiu-se para o telefone.

 

O atendedor de chamadas anunciava 0 mensagens pendentes. Ninguém. Pensou por uns momentos e resolveu consultar o sítio electrónico das Páginas Amarelas, procurando algures pela secção apropriada. Olhou lentamente os anúncios e os números inscritos. “Voz Amiga – alguém está neste lado, alguém do seu lado – chamada de valor acrescentado 1.000 novos escudos / minuto.” Escolheu este.

 

– Espere alguns momentos e será remetido para um dos nossos operadores – ouviu do outro lado da linha as instruções monocórdicas, seguidas de uma cançoneta tipo jingle – Voz amiga… sempre do seu lado… Voz amiga… sempre do seu lado.

 

A melodia bailava irritante nos seus ouvidos. Miguel aguardou.

 

– Boa tarde, fala Marta. Como se chama? – a voz feminina surgia no tom certo, algures entre o compassivo e o sedutor profissional.

 

– Ah… – hesitou – Miguel.

 

– Boa tarde, Miguel. Posso tratar-lhe por tu? – ouviu um “sim” tremido – Sim? Muito bem! Então como é que estamos, Miguel? – o tom aligeirou, aproximou-se da jovialidade.

 

– Estou vazio. O meu corpo transformou-se algures no tempo, num receptáculo para coisa nenhuma.

 

E estou só – as palavras soaram como Miguel, abatidas.

 

Uma pausa breve.

 

– Todos nós nos sentimos assim, por vezes. É… ah… normal – disse Marta.

 

– Talvez… mas isso não o torna menos penoso.

 

– Mas devia. Sabe, todos nós nos afundamos de vez em quando. Está tudo a correr-te bem, Miguel? Ou há alguma coisa?

 

– Há. – outro momento de silêncio.

 

– Sabes Miguel, em tempos a minha mãe ensinou-me uma cançoneta. Ouve só. Quero dizer, não vou cantar, mas escuta as suas palavras – interrompeu a voz e prosseguiu num tom vagamente cerimonial – “A paz encontra-se no centro/ É aí que eu me encontro/ Onde a ordem e o caos se complementam.”

 

Ainda outro momento de silêncio.

 

– Percebes? – perguntou a Miguel.

 

– Acho que sim.

 

– Todos nós vivemos algures entre os dois pólos – o caos e a ordem, o inferno e o céu, o descontrolo e a regra. É a instabilidade que governa a nossa vida, enrodilhados permanentemente no conflito. Mas a nossa estabilidade encontra-se também por aí algures, bombeada pelas forças que espiralam continuamente dentro de nós, embatendo furiosas umas contras as outras… – parou um momento – tens de procurar o centro.

 

– Isso é mentira, é falso – a voz de Miguel exaltou-se – Não há paz no centro, porque se alimenta de um conflito permanente que, porque é interminável, desgasta, e conduz inexoravelmente a lado nenhum. Ele engole-nos, destrói, consome, mastiga, e cospe-nos para fora.

 

– Mensagem prioritária de referência 226079700 – a voz alheia, electrónica surgiu na linha telefónica – Aceita? Clique 0 para Aceitar… Clique 1 para Recusar.

 

– É a Companhia. Devem querer saber o que é feito de mim…

 

– E o que é feito de si? – perguntou-lhe Marta, de um fôlego.

 

– Eu devo aceitar esta chamada, adeus, foi um prazer – disse, gentilmente, enquanto carregava na tecla 0 – Estou?

 

“Não espere…” Do outro lado, Marta deu lugar a uma voz masculina profissional.

 

– Boa tarde… senhor… ah… Miguel Pedro, daqui fala da parte da Direcção de Recursos Humanos da Companhia, você desconectou-se da rede há alguns minutos. Aconteceu alguma coisa? Há alguma falha técnica ou um problema de saúde que lhe tenha impossibilitado a execução normal das suas funções e obrigações contratuais? – a frase saiu exemplar.

 

– Sim – respondeu secamente.

 

– Tem um problema de saúde ou existiu alguma falha técnica do sistema? – perguntou em tom neutro, do outro lado da linha. Miguel escutava o som do martelar insistente nas teclas de um computador.

 

– Ambos – respondeu exactamente no mesmo tom.

 

– Ambos? – o martelar cessou, ansioso, pronto, talvez apenas curioso.

 

– Houve uma falha do meu sistema que prejudicou a minha capacidade para executar devidamente as minhas funções.

 

Os motivos? Todos do mundo. Estou morto. Do outro lado da linha imperou o silêncio.

 

– Está “morto” e, no entanto, fala, respira… enfim, vive. Isso significa que existe força. E, se existe força, existe esperança.

 

– Não, a única força que me resta é para lamentar.

 

– Ela existe, você tem é de a aplicar nos sítios devidos. Como na nossa Companhia. Vejo aqui, no seu histórico, que já se encontra há 12 anos connosco. Não é verdade? Você tem cumprido com a sua parte e nós sempre cumprimos com a nossa. Não é verdade? Vá lá – o tom amenizou – deixe-se disso, pense bem, está connosco, confie em nós.

 

Miguel Pedro respondeu com uma sonora gargalhada, uma gargalhada cruel, cínica, roçando o desespero.

 

– Caro Miguel, o conflito que aperta o seu coração, é o conflito que nos envolve a todos, desde o princípio dos tempos, desde os primórdios da humanidade. Que nos anima a existência, e determina a nossa felicidade. Atormentados pelo medo da derrota, engrandecidos pelo amor à vitória, crescemos, vivemos, acreditamos, criamos.

 

– Mas que diz você, que não me conhece? E eu não o conheço. Eu não me conheço. Que importam as mil vitórias que embandeiramos e as mil derrotas que suportamos se, no fim de contas, nem sequer existimos. Se caminhamos em direcção a nós mesmos, se somos instrumentos em função de nós próprios, que criamos nós de facto? Se não somos homens, somos máquinas.

 

Estou aqui, mas poderia não estar, porque outra igual a mim desempenharia as mesmas tarefas que me são destinadas. (E outras que vêm aí, cada vez mais jovens, cada vez mais afinadas.) E o Mundo continuará a girar, estivesse eu aqui ou não, e qual seria necessidade da minha existência? Eu… eu não sou. – a voz de Miguel, que rompera em tempestade verbal, caiu desgraçadamente ante a constatação da sua miserável condição.

 

Não tenho a finalidade, ou o propósito, ou a vontade, de existir para além de mim próprio. E rastejo inconsequentemente, “alimento-me da fome dos outros”, no fim, morro de solidão. Eu não sou.

 

Miguel desligou o telefone, dirigiu-se, de cabeça vazia, para a janela do apartamento.

 

Abriu-a, olhou cá para baixo. Os carros, o fumo, as pessoas, o cimento, tudo cinzento, a desumanidade… Às 15 horas e 53 minutos do dia 24 de Outubro de 2029, Miguel Pedro atirou-se do alto da sua torre de marfim e esbarrou o corpo no fundo da estrada, no fundo de si próprio. O coração parou antes, desmaiado pelo choque. E, como se nunca tivesse existido, Miguel Pedro morreu, como sempre viveu. Sozinho.

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