Razão no tempo certo

 

No próximo dia 24 de Julho, assinalar-se-á um ano desde a eleição de António José Seguro como Secretário-Geral do PS. Ao longo deste período, o caminho trilhado pela actual direcção do Partido tem-se revelado árduo e sinuoso. Às curvas criadas pela conjuntura socioeconómica, foram-se seguindo os obstáculos provocados por determinadas dinâmicas internas da própria organização partidária, aumentando a exigência e o grau de dificuldade do percurso. Pese embora todas estas contrariedades, a liderança do antigo Ministro-Adjunto de António Guterres tem somado importantes vitórias, nos últimos tempos.

 

No início de Junho, um barómetro realizado pela Universidade Católica indicou que, pela primeira vez desde as últimas eleições Legislativas, a intenção de voto dos Portugueses indicava um empate técnico entre Socialistas e Populares-Democratas. Nas semanas que se seguiram, os sufrágios internos, relativos às Federações Distritais, determinaram a vitória de alguns dos apoiantes mais próximos de António José Seguro. Ou seja, a partir destes dados, pode inferir-se que, teoricamente, a legitimidade desta liderança foi reforçada no seio da estrutura Partidária e que os Portugueses consideram o PS, cada vez mais, uma alternativa ao actual Executivo Governamental. Sendo que a sondagem referida demonstra uma descida abrupta da popularidade do PPD, e a consolidação eleitoral do PS (resultado semelhante ao do barómetro de Setembro de 2011).

 

Porém, o triunfo mais importante que a actual direcção do Partido Socialista alcançou, até este momento, deveu-se à confirmação da maioria dos avisos, críticas, reivindicações e objecções, que foi fazendo, ao longo dos últimos meses, à estratégia do XIX Governo Constitucional. Os efeitos nefastos produzidos, pela vontade deste Governo em ir mais além do que o próprio memorando de entendimento, têm dado razão ao actual Secretário-Geral do PS.

 

Desde logo, no que diz respeito à necessidade de haver uma renegociação do acordo assinado com o FMI, o BCE e a Comissão Europeia. Como se não bastassem as vozes críticas de Manuela Ferreira Leite, Rui Rio e João Costa Pinto, insuspeitos de quererem beneficiar a agenda Política Socialista, agora são Miguel Frasquilho e até Eduardo Catroga a saírem a terreiro, defendendo a flexibilização das metas do programa, visto que a solução alternativa teria que assentar no incremento de políticas de austeridade e na assunção de mais sacrifícios pelos Portugueses. Por seu turno, o antigo Ministro das Finanças, João Salgueiro, manifestou a sua opinião de que uma extensão do tempo traduzir-se-ia num acréscimo de dívida, defendendo que Portugal deve requerer uma “correcção do memorando”, dado que as condições económicas em que este foi elaborado já se alteraram. O próprio modo como o Governo Espanhol negociou o resgate ao sistema bancário, assim como a estratégia usada pela Irlanda, para alterar sucessivamente os termos do acordo estabelecido com a Troika, vieram dar razão a António José Seguro, quando diz que existe margem para procurar a flexibilização do plano definido, sendo necessário mais tempo, de modo a consolidar as contas públicas.

 

Em meados de Outubro, o Presidente da República afirmou, na abertura do 4º Congresso dos Economistas, que “a correcção do desequilíbrio orçamental, sendo condição necessária, poderia não ser suficiente”, alertando para a necessidade de políticas promotoras de crescimento económico. Na altura, estas declarações causaram espanto, visto que, até então, apenas o Secretário-Geral do PS tinha insistido na importância de um plano que visasse o crescimento sustentável da economia Nacional. A partir do momento em que tomou posse como Primeiro-Ministro Italiano, Mario Monti assumiu que o crescimento económico devia ser o objectivo primordial da estratégia da União Europeia. Afirmou-o por diversas vezes, desde o encontro com Angela Merkel em Roma, durante o mês de Fevereiro, até ao momento em que propôs uma “coligação de boas vontades”, no dia da Europa. Porém, estas reivindicações apenas assumiram a forma de propostas determinantes, a partir da eleição de François Hollande enquanto Presidente da República Francesa. Desde então, a união de Barack Obama, Mario Monti, François Hollande e até de Mariano Rajoy, algo que não se apresentava como expectável, conseguiu inverter a tónica dominante das decisões acordadas, o que culminou com o resultado da última Cimeira Europeia. A inversão de trajectória, relativamente à obsessão pela austeridade e à punição dos “Países teoricamente ociosos”, confirmou o carácter crucial do crescimento e do emprego para o futuro da zona Euro. Algo, em que António José Seguro vem insistindo, praticamente, desde o início do seu mandato.

 

A forma como a bancada Parlamentar do PS demonstrou que a retirada dos dois subsídios não era uma inevitabilidade, como a coligação de Direita quis fazer querer, reforçou, de igual modo, a pertinência dos argumentos assumidos como sendo basilares na sua orientação Política. Tal como os desastrosos resultados, provocados pelo aumento do IVA para 23% na restauração, confirmaram as reservas que os Socialistas apresentaram, desde o primeiro momento em que se debateu o projecto de Lei. Não esquecendo, por último, as primeiras propostas do Secretário-Geral do Partido Socialista, ainda no Congresso de Braga, relativas aos impostos sobre a electricidade e o gás.

 

A verdade andará próxima desta ideia: a maioria das advertências e objecções feitas pela Direcção do PS, ao longo deste primeiro ano, têm sido confirmadas pelo péssimo desempenho do Executivo Nacional e pelo evoluir, não só do cenário macroeconómico Mundial, mas também das resoluções aprovadas nos diversos encontros das altas patentes Europeias. Sendo que estes argumentos, por estarem a ser apresentados com relativa antecedência, permitem afirmar que “se tem tido razão, no tempo certo”. Porém, não se pode descurar a forma como se afirma esta razão.

 

Num País, onde os cidadãos se encontram, cada vez mais, descrentes em relação à classe Política, onde a cada dia que passa há, aproximadamente, 538 novos desempregados e 26 empresas que encerram as suas portas, onde há, progressivamente, um número superior de Pessoas a viver em dificuldade, a estabilidade dos Portugueses, para conseguirem compreender e avaliar certas tomadas de posição, escasseia. Sendo natural que, em momentos de tremenda aflição, como os que se vivem, os cidadãos necessitem de respostas palpáveis, incisivas e temerárias, de modo a conseguirem acreditar numa solução e a poderem viver com uma réstia de esperança. Esta atitude é exigida por grande parte do povo Português, por tantos e tantos cidadãos de Esquerda, mas também por muito militantes Socialistas. O Partido Socialista tem que saber fazer ouvir a sua voz, afirmar a sua razão, não podendo descurar os movimentos que lhe são próximos! Se não auscultar, com atenção, movimentos como o “Manifesto para uma Esquerda Livre” e o “Congresso das Alternativas”, certamente afastar-se-á do seu eleitorado base. E isso poderá vir a condenar decisivamente o seu futuro!

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