Monsieur Normal-Um congregador a caminho do Eliseu?

 

Há uns meses, deixei em suspenso a questão: “Será Hollande, o candidato de toutes les forces de la France?”. Na altura, optei por destacar as diferentes perspectivas, com que este histórico militante do PS era observado, quer pelos seus adversários internos, quer pelos seus apoiantes. Enquanto uns o rotulavam como sendo o candidato da “Esquerda mole”, os outros relevavam a sua exímia capacidade de agregar diferentes sensibilidades. Agora, chegado aos dias que antecedem a primeira volta das eleições Presidenciais, esta pergunta torna-se ainda mais pertinente.

 

Numa primeira leitura, mais superficial, acerca do que poderão ser os resultados deste sufrágio, não me parece injusto afirmar que não será Hollande a vencer a disputa, mas sim, Sarkozy a perdê-la. A enorme insatisfação que grassa entre os Gauleses, levou a que alguns especialistas apontassem a hipótese de ocorrer uma surpresa. Em Janeiro, foram publicadas sondagens onde Marine Le Pen aparecia mais próxima de Nicolas Sarkozy, do que este de François Hollande. Porém, as últimas notícias indicam que o candidato da UMP e actual Presidente tem crescido nas intenções de voto, à custa da representante da extrema-direita. Apontando, igualmente, para uma tendência de descida por parte de François Hollande, acompanhada pela subida de Jean-Luc Mélenchon, candidato da Frente de Esquerda.

 

Apesar do trabalho intenso que realizou, percorrendo o País ao longo dos últimos dois anos, o candidato do PS não tem conseguido dissociar-se da imagem de “Monsieur Normal”. Aproveitando a palidez e a moleza, apontadas a François Hollande, o candidato da Frente de Esquerda tem-se sobressaído através de um discurso carismático e de uma retórica inflamada.

 

Este antigo militante do Partido Socialista tem sido objecto de um improvável destaque, em órgãos de comunicação social como o Financial Times e o Le Fígaro. Sendo que ganha cada vez mais força, a ideia de que Jean-Luc Mélenchon será “uma peça decisiva, no xadrez que François Hollande preparará para a segunda volta”. Especulando-se, inclusivamente, sobre um possível acordo, que incluirá a entrega de pastas Ministeriais a membros da Frente de Esquerda, em caso de vitória.

 

Ainda que as sondagens mais recentes apontem uma vantagem gradualmente superior de Hollande sobre Sarkozy, há três aspectos que, no meu entender, devem ser tomados em consideração. Em primeiro lugar, convém salientar que as projecções eleitorais indicam um resultado do candidato do PS, à primeira volta, situado entre os 27 e os 30,5%. Ou seja, em termos relativos, não será um resultado muito superior ao que foi alcançado, em 2007, pela sua ex-mulher, Ségolene Royal, quando o contexto se apresentava como sendo mais delicado para a Esquerda Gaulesa.

 

Torna-se cada vez mais plausível, a ideia de que este sufrágio originará uma taxa de abstenção recorde. Alguns analistas acreditam que este facto poderá alterar a relação de força, entre os candidatos que conseguirem passar à segunda volta. Havendo a hipótese deste dado ser mais relevante, no que aos eleitores de Direita diz respeito. Por último, a três dias do escrutínio, um em cada quatro eleitores encontra-se indeciso, quanto à sua escolha. À Esquerda, hesita-se entre o voto útil em François Hollande e o voto por convicção em Jean-Luc Mélenchon. À Direita, Nicolas Sarkozy, Marine Le Pen e François Bayrou, do Movimento Democrático, estão na disputa.

 

Na terceira tentativa de vencer uma eleição Presidencial, François Bayrou poderá vir a assumir um papel crucial. Reconhecido como a figura política preferida dos Franceses, este centrista obterá (segundo as sondagens mais recentes) um resultado entre os 9,5 e os 13%. Partindo dos pressupostos de que os eleitores que votarão na Frente Esquerda nunca optarão por Nicolas Sarkozy, numa segunda volta, e que, no mesmo sentido, os cidadãos que escolherem Marine Le Pen nunca apoiarão François Hollande, a chave da eleição poderá estar nos votos que conseguir o candidato do Movimento Democrático.

 

Apresentado este cenário e de forma a responder à interrogação que coloquei há uns meses, acredito que François Hollande terá que ser o candidato do “máximo de forças possível de França”. O espírito congregador, que lhe é reconhecido pelos seus apoiantes, terá que ser propulsor de um alcance que vá desde o eleitorado de Mélenchon ao de Bayrou. Isto é, desde a “Esquerda vermelha” até ao sempre decisivo “centrão”. No hipotético debate da segunda volta, este Homem, com a pretensão de ser um “Presidente Normal”, terá que superar aquele que considera ser um “Hiperpresidente”, desrespeitador da antiga democracia Gaulesa.

 

A partir daí, inciar-se-á um novo sonho, tanto para a Sociedade Francesa, como para a Social-Democracia Europeia. Onde, este admirador confesso de Lula, Obama e Nelson Mandela, deverá ser capaz de operacionalizar propostas eleitorais, como por exemplo: a reforma tributária, o “Contrato Geracional” e a renegociação do novo Tratado Orçamental Europeu. Este não é apenas o “Rêve Français” (sonho Francês), este é também o “Rêve Européen” (sonho Europeu)!

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