Ponto de ordem à mesa!

Eurobonds, haircut da dívida, credit defaut swap, alavancagem, créditos subprime…todo este economês faz com que a maioria dos cidadãos desistam de procurar uma resposta ou pelo menos que tentem perceber a situação actual.

Ainda assim, na vertigem da (des)informação, há um tema que todos fixaram: o problema das dívidas soberanas!

A pergunta que deixo para reflexão é:

– Afinal, as dívidas soberanas são causa ou consequência da crise?

A resposta a quente permite-nos perceber em que ponto nos encontramos no debate…Uma resposta ponderada poderá trazer alguma clareza.

As raízes da actual “crise” assentam na crise do subprime norte-americano, que mais não era do que um crédito à habitação de alto risco (destinado a um largo conjunto de pessoas que dificilmente o conseguiriam pagar) e que inevitavelmente correu mal.

Ora, tal só foi possível porque existia um défice de regulação pública e de mecanismos de controlo dos mercados financeiros, que permitiram o que alguns alcunharam de capitalismo de casino ou do regresso do capitalismo selvagem.

Em suma, a sentença de morte do modelo de capitalismo liberal ocidental foi decretada na ressaca do caos de 2008 (o que deixou a Fukuyama, pelo menos, mais uma História para contar aos netos).

O capítulo seguinte também o conhecemos bem.

Os Estados foram chamados a investir avultadas quantias na economia com o objectivo de atenuar os efeitos e o impacto da crise financeira, envidando (e endividando) todos os seus esforços para salvar o sistema financeiro, as instituições bancárias privadas aventureiras, evitando a implosão dos sistemas bancários em geral.

Entretanto queimaram-se as bruxas socialistas num já esperado auto de fé político… surgiu o debate das agências de notação…

E hoje o tema em voga são os países do sul da Europa que, por terem vivido um estilo de vida acima das suas possibilidades, devem agora pagar os seus comportamentos irresponsáveis, geradores de dívidas monstruosas, por intermédio unicamente de políticas liberais.

Ponto de ordem à mesa: que twist retorcido ocorreu neste filme que fez do pirómano, chefe dos bombeiros?

Ponto prévio, ocorreram irresponsabilidades chocantes na gestão do Estado português, que aliada aos seus graves problemas e atrasos estruturais fizeram com que, perante uma crise mundial de tal ordem, Portugal não tivesse capacidade de resposta, impossibilitando-nos de continuar a varrer para debaixo do tapete questões que um anterior bom clima económico e financeiro permitia disfarçar com endividamento e obtenção de dinheiro “fácil”.

Assim, esta crise veio apressar a necessidade de resolução de problemas de fundo, mas esses problemas nunca foram a causa da actual crise. Por outro lado, esta crise agravou os problemas imediatos de financiamento dos países, obrigando-os a uma acção brusca, sem a visão estratégica e a ponderação necessárias e que a urgência tolda, com custos sociais e económicos brutais!

E somente resta perguntar: o que foi feito, a nível mundial, para evitar que nova e idêntica crise nos volte a assolar?

O que foi pensado para regular os mercados, para proteger os países e os contribuintes de novo descontrolo financeiro? Estaríamos dispostos a pagar outro BPN?

O imediatismo e o mediatismo da informação política permitirá que tenhamos o discernimento e a memória para aprender com os nossos erros do passado?

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