All-In

 

1. Se a realidade nada mais fosse que um jogo de Poker, em que os “mercados” se apresentam como diligentes croupiers, qual seria a “mão” que Portugal teria? Deveria fazer bluff, apostar ou deixar cair o jogo a favor de outros jogadores bem mais poderosos, que assim vão dominando a mesa?

 

Tem sido desporto nacional especular sobre qual deve ser a atitude do Governo português perante a União Europeia e o memorando de entendimento da Troika, pelo que lanço, para reflexão, os dois cenários que me parecem ser os únicos plausíveis.

 

Ponto prévio: a saída da mesa é um cenário tão (quase)unanimamente considerado catastrófico que está posto totalmente de parte.

 

Cenário 1: Portugal adopta a postura do bom aluno e cumpre o plano traçado pela Troika na esperança de que cheguem melhores dias.

 

Portugal corresponde a 2 % do PIB da União Europeia.

 

As vantagens económicas, mais do que aspirações culturais, são a motivação principal para um qualquer país querer fazer parte do clube europeu (e temer a saída deste).

 

Este pensamento, não pejorativo, ajuda a justificar pedidos de adesão como o da Turquia e a séria ponderação de Cabo Verde.

 

Pelo que o Governo português fez uma escolha clara:

 

Assumiu que o poder negocial de Portugal é nulo e que só nos resta seguir à risca o acordado com a Troika, na esperança que esse esforço devolva alguma credibilidade ao nosso país e gere uma onda de solidariedade/piedade.

 

Em paralelo, optamos por nos demarcar da malvada Grécia e permitimos que esta seja o nosso tubo de ensaio.

 

Aliás, as declarações deste fim de semana do líder do eurogrupo, Jean-Claude Juncker, sobre a Grécia, foram animadoras para Portugal: “Penso que não nos focámos suficientemente sobre a dimensão do crescimento” quando foi acordado, em Maio de 2010, o primeiro programa de ajustamento financeiro. “Insistimos muito sobre a consolidação orçamental”, sem ser deixada outra alternativa ao Governo então liderado por Georgios Papanderou.(in Publico)

 

Aproveitamos que a Europa necessita de um bom aluno que valide as suas políticas e de um caso de sucesso que demonstre que a Europa se encontra na rota correcta.

 

Em suma, o sucesso desta estratégia permitirá a Portugal renegociar com a Troika melhores condições, isto é, mais tempo e mais dinheiro.

 

Cenário 2: Portugal procura a cooperação com outros países em dificuldades e luta por diferentes políticas e pelo futuro do projecto europeu.

 

Um cenário mais ambicioso mas politicamente de dificuldade mastodôntica, passa por Portugal preservar a sua dignidade, assumir a linha da frente do debate contra a moralidade da crise económica e pugnar por um constante aprofundamento da União Europeia.

 

Com efeito, uma visão maniqueísta, tem colocado os países do norte (rigorosos nas contas públicas, povos trabalhadores e cumpridores) contra os países do sul (indisciplinados, preguiçosos e desonestos).

 

Em troca da renovação do cartão de sócio europeu, estes países exigem reformas estruturais e mesmo culturais, não percebendo que muito do seu sucesso enquanto países exportadores e produtores se deveu ao consumismo e indisciplina do sul da europa!

 

Portugal, Grécia, Espanha, Itália (e Irlanda)nunca se reuniram, tal como fazem, sem pejo, a França e a Alemanha, para discutirem as suas dificuldades, compararem os seus erros e procurarem criar um elã que permita ditarem, também eles, os termos das suas recuperações e dos seus futuros.

 

Sozinhos, Portugal e Grécia são potencialmente descartáveis; todos juntos, estes países são essenciais ao projecto europeu.

 

Neste cenário, Portugal assume um papel de vanguarda na luta por melhores condições na sua recuperação, na defesa da sua dignidade e por um futuro europeu verdadeiramente inclusivo e solidário. Se temos dúvida de que um, aparentemente, pequeno país pode tomar uma posição, vejam o exemplo Islandês.

 

Nenhuma dinâmica de negociação permite perceber como é que tantas das soluções apresentadas chocaram com a intransigência alemã e por lá sucumbiram. A recusa das Eurobonds são o melhor exemplo da inércia europeia.

 

Em conclusão, Portugal assume as suas dificuldades estruturais e financeiras , mas não faz da consolidação orçamental e do regresso aos mercados, o alfa e omega da sua actuação.

 

Há um Portugal que assume no seio Europeu a necessidade de reformas estruturais e de medidas que tragam rigor e saúde às contas públicas. Mas há também um Portugal que defende um compromisso para o crescimento económico, um plano para o desemprego, uma definição do futuro da União Europeia e uma oposição a uma austeridade cega e obsessiva.

 

Afinal, a recompensa de um bom aluno não se traduz no simples reconhecimento do professor, mas na possibilidade de construir um futuro melhor.

 

A dura realidade:

 

As desvantagens do primeiro cenário são claras:

 

– Assegurar o cumprimento das metas da Troika não dá garantias de sucesso. Dependemos tanto de factores externos que todo o esforço pode ser em vão. Se tudo correr mal, sairemos ainda piores do que quando aceitamos a intervenção externa.

 

– Cumprir o programa da Troika poderá significar a sobrevivência financeira de Portugal a curto/médio prazo, mas muito pouco revela sobre uma visão estratégica para o país, e sobretudo, para a União Europeia. Se tudo se mantiver igual ou similar, porque não poderá isto voltar a acontecer no futuro?

 

Por outro lado, está bom de ver que o segundo cenário, por si só, sobra em dignidade e idealismo o que lhe falta em pragmatismo. Só funcionaria na plenitude, numa realidade (alternativa) em que os países, sem constrangimentos políticos, discutem as suas grandes questões.

 

Porém, quando Pedro Passos Coelho afirma que Portugal cumprirá o acordo aconteça o que acontecer e que rejeita alterações nas condições do acordo com a Troika, está meramente a actualizar o discurso em que José Sócrates recusava a necessidade de ajuda externa.

 

Percebo a responsabilidade de Passos Coelho, não sou selectivo nesta percepção, mas é muito pouco para um Governo que, em tempos excepcionais, não pode ser meramente mediano, sem coragem política interna e que externamente limita-se a andar a reboque de “Merkozy”.

 

Mariano Rajoy, em Espanha,  recusou cumprir as metas do défice impostas e sustentou que os países europeus, incluindo Portugal, pagaram a reunificação alemã.

 

É uma afirmação de orgulho de um povo que demonstra uma dignidade, avessa ao diktat germânico, que se julgava irremediavelmente perdida.

 

Para cumprir simplesmente o memorando, não precisávamos de um governo.

 

Uma comissão técnica da U.E. era bem mais eficaz.

2. É um prazer escrever nesta casa! Não posso, portanto, deixar de agradecer novo convite e enviar um forte abraço aos colaboradores do Aurora, que estimo bastante pela sua capacidade e honestidade intelectual.

Advertisements