Pela Ala Verde do Partido Socialista (II)

 

Na manhã do dia 24 de Setembro de 2011, tive a oportunidade de perguntar ao Professor Vital Moreira, pela possibilidade dos Socialistas Europeus aprofundarem uma articulação com os Verdes Europeus. Especificamente, para as duas famílias partidárias estabelecerem propostas concertadas visando, quiçá, a definição de uma plataforma política comum. Sob o Sol abrasador de Vila Nova de Milfontes, na (excelente) Academia da Juventude Socialista, “A Europa e os desafios do futuro”, o deputado ao Parlamento Europeu, pelo Partido Socialista, dispensou essa ideia como uma veleidade. Porque os Socialistas Europeus não deviam comparticipar numa via “irresponsável” e “extremista”. Esta caracterização deixou-me surpreendido, uma vez que não reconhecia nos Verdes Europeus esse género de qualificativos. O seu diagnóstico estava, é certo, de acordo com um certo estereótipo dos anos 1970/80, mas não tinha em conta a história, experiência, capital político e a maturidade, ideológica e programática que, entretanto, os Verdes Europeus adquiriram.

 

Serve assim o presente texto para esclarecer sobre o enquadramento histórico dos Verdes Europeus. De modo a superar alguns dos preconceitos reinantes, e a clarificar sobre a estruturação política desta família partidária.

 

Os partidos Verdes surgiram na Europa, no final dos anos 1970. Os seus militantes e dirigentes provinham da geração dos Baby Boomers, a primeira a chegar à idade adulta sem uma memória presencial da II Guerra Mundial. Particularmente na Alemanha Ocidental e em França, os Verdes emergiram dos movimentos dos jovens contestatários à Guerra do Vietname e à Energia Nuclear. Chegados aos 30 anos, mantinham a experiência activista, a consciência cívica, e a inclinação para as causas pacifistas, ambientalistas e sociais progressistas. Mas, simultaneamente, acrescentavam o ensejo de participar nas instituições políticas e contribuir para o sistema democrático dos seus Países.

 

Os Verdes Alemães (Die Grünen) chegaram, pela primeira vez, ao Parlamento da Alemanha Ocidental em 1983, com 5.7% dos votos. Em 1987, subiram para 8.3%. Em França, os candidatos Verdes, Brice Lalonde e Antoine Waechter, obtiveram resultados de 3.9% e 3.8%, nas Eleições Presidenciais de 1981 e 1988, respectivamente. Em 1989, Waechter encabeçou uma lista dos Verdes Franceses (Les Verts) às Eleições Europeias que chegou aos 10.8%. Nos anos 1980, uma década fortemente marcada pela consciência ecologista, traumatizada pelos desastres de Chernobyl, as chuvas ácidas, o buraco do Ozono e a fome em África, os Verdes afirmaram-se como baluartes das causas morais e sociopolíticas mais prementes, e um contra-ponto arejado para a tradicional divisória entre Socialistas e Conservadores.

 

No entanto, os Verdes constituíam-se em Partidos Políticos minados por divisões internas e alguma indefinição ideológica. As suas diferentes facções ou sensibilidades chegavam a concorrer em listas separadas ou até em organizar-se em Partidos Políticos adversários. A sua dificuldade em definir uma orientação programática coerente impedia a maior implantação nacional.

 

Por um lado, estavam as facções idealistas, mais alinhadas com a matriz contestatária original, consequentemente, mais próximas dos movimentos sociais, organizações não governamentais ecologistas, e advogando ~pela refundação do modelo socioeconómico Ocidental. Por outro lado, as facções mais pragmáticas, adeptas da mudança gradual, alianças tácticas com os partidos políticos do arco da governabilidade, e privilegiando o acesso às instituições políticas, em detrimento do dogmatismo ideológico.

 

As clivagens internas dos Partidos Verdes Europeus em função destas duas tendências conduziram a uma queda eleitoral no início dos anos 1990. Por exemplo, nas primeiras eleições da Alemanha reunificada, em 1990, os Verdes Alemães foram arredados do Parlamento nacional. E os Verdes Franceses não conseguiram eleger nenhum deputado ao Parlamento Europeu em 1994. Na ressaca destas derrotas, ambos os partidos atravessaram uma fase de reorganização interna, donde saíram consolidadas as respectivas facções pragmáticas.

 

Os Verdes Alemães foram recuperados pelo eloquente Joschka Fischer (na foto, à esquerda), que levaria de novo o Partido ao Parlamento Nacional, em 1994 (7.3%), e ao próprio Governo da Alemanha, em 1998 (6.7%), como parceiro minoritário da coligação com os Socialistas. Os Verdes Alemães garantiram então três ministérios nos Governos de Gerhard Schroeder (1998 – 2005), incluindo Fisher como Vice-Chanceler e Ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

Os Verdes Franceses foram, por seu lado, impulsionados pelo emblemático Daniel Cohn-Bendit (na foto, à direita). Figura política crucial da segunda metade do século XX, o carismático franco-alemão notabilizou-se como um dos líderes dos protestos estudantis de Paris, do Maio de 1968. Expulso de França no mesmo ano, mudou-se para a Alemanha, onde gradualmente se afastou da via revolucionária e se aproximou dos movimentos ambientalistas e políticas mais centristas. Integrou os Verdes Alemães nos anos 1980, sendo eleito vereador por Frankfurt, em 1989, e deputado ao Parlamento Europeu, em 1994.

 

Em 1999, regressou triunfal a França, liderando a lista dos Verdes Franceses ao Parlamento Europeu. Foi um sucesso contundente, pleno de simbolismo, adesão mediática e popularidade. Os Verdes Franceses obtiveram, então, um resultado de 9.7% e elegeram nove deputados; feito verdadeiramente notável, se tivermos em conta que apenas cinco antes, não tinham conseguido eleger nenhum eurodeputado.

 

A maturidade política dos Verdes consolidou-se a partir da gradual experiência governativa, que, desde o final dos anos 1990, iam adquirindo nos planos nacionais e regionais. Em França, os Verdes participaram no Governo do Socialista Lionel Jospin, assegurando o Ministério do Ambiente entre 1999 e 2002. Partidos análogos da Noruega, Itália e Finlândia, também participaram em coligações “vermelho – verdes” para os seus governos nacionais. Mas o exemplo mais influente foi o Alemão.

 

Enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fisher tomou algumas medidas controversas, como o apoio à guerra do Kosovo e Afeganistão, que justificou por razões humanitárias. No entanto, a sua forte oposição à Guerra do Iraque (com o mítico confronto a Donald Rumsfeld no discurso “Excuse me, I am not conviced”) e as conquistas dos Ministérios Verdes no domínio da promoção das energias renováveis, tolerância e integração social das minorias, legitimaram a sua estratégia pragmática para a implantação nacional dos Verdes.

 

 

Fisher saiu da liderança do partido na sequência das Eleições Federais de 2005, que resultaram na vitória da actual Chanceler Angela Merkel. Os Verdes Alemães mantiveram então a sua representatividade eleitoral, no entanto as fortes perdas no campo Socialista impossibilitaram a prossecução desta coligação governamental. A saída de Fisher colocou algumas interrogações sobre a viabilidade do partido. No entanto, em poucos anos, os Verdes Alemães reorganizaram-se, recuperaram e até incrementaram a sua popularidade e representatividade eleitoral. Nas eleições regionais de 2010 e 2011, conquistaram os governos da Renânia do Norte-Vestfália, o estado mais populoso da Alemanha, e de Bade-Vurtemberga, o terceiro mais populoso e um bastião histórico dos Conservadores. Nestas regiões e, em outras como Brema e Hamburgo, têm-se destacado por políticas reformistas comprometidas com o desenvolvimento sustentável e a coesão social, visando cidades e regiões gradualmente mais auto-suficientes, ecológicas e inclusivas.

 

O sucesso dos Verdes Alemães tem sido acompanhado por um crescimento eleitoral semelhante dos Verdes Franceses. Estes são, actualmente, liderados pela popular Cécile Duflot,estando já consolidados como a terceira força política em França, com excelentes resultados nas eleições de 2009 ao Parlamento Europeu (16.3%) e nas Eleições Regionais de 2011 (12.5% na primeira volta).

 

A consolidação e articulação entre os Partidos Verdes Alemão e Francês, e o seu sucesso recorrente nas eleições ao Parlamento Europeu, possibilitaram a fundação do Partido Verde Europeu, em Fevereiro de 2004. Foi a primeira proposta para um partido político transversal às nações Europeias, que serviria de molde a projectos semelhantes das outras famílias políticas, incluindo a do Partido dos Europeus Socialistas.

 

Actualmente, o Partido Verde Europeu encontra-se coligado no Parlamento Europeu com a Aliança Europa Livre, colecção de partidos regionalistas ou progressistas, como o Partido Pirata da Suécia. O grupo parlamentar integra 55 eurodeputados e 2 observadores, mais notavelmente, 14 Verdes Franceses e 14 Verdes Alemães.

 

Como é notório, a implantação dos Verdes na Europa ainda se encontra muito vincada no eixo franco-alemão. No entanto, esta fragilidade constitui-se como a sua maior potencialidade. Da sua gradual experiência e crescimento nestes Países, resultará a sua maior credibilização, e consequente expansão para outros Países Europeus. Proporcionado aí, o mesmo que na Alemanha e em França, ou seja, uma alternativa abrangente ao modelo de governação neo-liberal da União Europeia. Uma autêntica revolução paradigmática do modelo da organização social, económica e política, assente no crescimento económico sustentável, democracia participativa, coesão social e solidariedade internacional. Os mesmos predicados dos Socialistas Europeus que foram, de resto, evidenciados pelo Conselho e Convenção Progressista do Partido Socialista Europeu em Bruxelas, em Novembro passado.

 

Como esta sintonização entre Socialistas e Verdes Europeus se poderá (deverá) incrementar no futuro e como a poderíamos antecipar em Portugal e junto do Partido Socialista, serão os temas dos meus próximos textos.

 

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