Pela Ala Verde do Partido Socialista (I)

 

 

No dealbar do século XXI, um movimento social e político emergente, conquista paulatinamente um espaço de relevo na União Europeia. Expressa-se mais claramente nos Partidos Verdes Europeus, articulando a vertente ambientalista, com as bandeiras da inclusão social, promoção dos direitos fundamentais, democracia participativa e desenvolvimento económico sustentável. Mas é transversal aos diversos movimentos sociais e organizações não governamentais que pugnam por novas soluções sociais e económicas, visando comunidades mais justas, coesas, abertas, ecológicas e auto-suficientes.

 

É a tese da série de artigos que aqui inicio, que o Partido Socialista deve abraçar este movimento sócio-político, enquadrando uma corrente de opinião ecologista. Enfim, uma “Ala Verde”, comprometida com os princípios do Socialismo Democrático, mas assumindo uma atitude pós-convencional e orientação política progressista, que contribuam para a heterogeneidade e dialéctica interna do Partido Socialista. E ajude o Partido a consolidar-se como o grande representante da Esquerda Democrática Portuguesa. Simultaneamente, antecipando as orientações paradigmáticas do próximo ciclo político da Esquerda Europeia.

 

Ao longo desta série de artigos, desfio as seguintes temáticas:

 

1) Enquadramento dos Verdes Europeus:

Em Fevereiro de 2004, em Roma, o Quarto Congresso da Federação dos Partidos Verdes Europeus funda o Partido Verde Europeu, o primeiro partido político transversal às nações Europeias. Longe vão os tempos, em que os diversos partidos ecologistas europeus se definiam pelas causas ambientalistas e pacifistas. Na actualidade, o Partido Verde Europeu proporciona uma ambiciosa proposta de articulação partidária transnacional e uma estratégia alternativa abrangente para o modelo de governação neo-liberal. As suas propostas políticas reflectem as preocupações mais prementes dos cidadãos Europeus, pugnando por mais justiça social, uma distribuição mais equitativa dos rendimentos, regulação política sobre o sector financeiro, modelos cooperativos de organização social e económica e mais instrumentos de participação política para os cidadãos.

 

2) O Caso Português:

Em Portugal, o espaço político dos Verdes Europeus não tem uma expressão partidária unívoca. O Bloco de Esquerda enferma de alguma inclinação para os modelos neo-comunistas. Por seu lado, os Verdes Portugueses, uma criação de Álvaro Cunhal, nunca ultrapassaram a sua simbiose orgânica e programática com o Partido Comunista Português. Desde 1974, que vários pequenos partidos ecologistas têm aparecido e desaparecido da cena política Portuguesa. Mas são, caracteristicamente, projectos de nicho, demasiadamente personalizados nos seus líderes, ideologicamente indefinidos ou reduzidos às causas ambientalistas. Existe, assim, espaço para um projecto político abrangente, alinhado pelos princípios da social-democracia, vocacionado para as causas sociais progressistas, o aprofundamento da cidadania activa e democracia participativa e para os novos modelos de organização social, profissional e económica, que promovam a coesão social e o desenvolvimento económico sustentável. O Partido Socialista pode proporcionar o enquadramento partidário para este projecto.

 

3) O Futuro do Socialismo Democrático Europeu

O Socialismo Democrático Europeu vive, actualmente, uma revolução paradigmática. Na forma da reactualização ideológica e redefinição programática dos partidos políticos europeus Socialistas, Social-Democratas e Trabalhistas. A Convenção Progressista organizada pelo Partido dos Europeus Socialistas, em Bruxelas, a 25 e 26 de Novembro de 2011, sinalizou a consecução de uma maior coerência ideológica e articulação do centro-esquerda Europeu. Nomeadamente, em torno de quatro grandes temáticas: Democracia Activa, Coesão Social, Mundo Justo e Economia Sustentável. Pura e simplesmente, os mesmos pilares ideológicos e as bandeiras históricas dos Verdes Europeus. Assistimos, assim, a uma aproximação entre as famílias políticas Europeias Socialista e Verde, tanto no plano ideológico como programático, que caminha rumo a uma estratégia concertada para a superação da crise sócio-económica Europeia. Os ensaios das coligações eleitorais entre Socialistas e Verdes, mais notavelmente na França e Alemanha, demonstram a possibilidade para uma acção articulada e para a definição de projectos políticos conjuntos das duas famílias políticas, antecipando a construção de um modelo comum da Social-Democracia Europeia (se é que ele já não está aí).

 

Até ao final desta série de artigos, é meu objectivo tornar evidente a urgência de uma corrente de opinião interna do Partido Socialista, de pensamento e actuação, vocacionada para as causas Verdes. Desta forma, o Partido Socialista criará as condições necessárias para se colocar na dianteira da refundação da Esquerda Democrática Europeia. A que já ecoa, desde as praças, atravessa as academias, e soa nos Parlamentos das principais capitais Europeias. Que tarda mas que, inevitavelmente, também irá soar em Portugal.

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