O que têm em comum Lucas Papademos e Mario Monti?

 

Nascidos na década de 40, ainda com a Segunda Grande Guerra como pano de fundo, Lucas Demetrios Papademos e Mario Monti enveredaram por uma carreira na área dos estudos Económicos. Apesar de terem iniciado a sua formação nos respectivos Países, ambos registam no seu curriculum, uma passagem por Universidades Norte-Americanas. Enquanto o actual Primeiro-Ministro Grego se doutorou no MIT, o seu congénere Italiano completou os seus estudos na exigente Universidade de Yale, onde estudou com o vencedor do prémio Nobel, James Tobin.

 

Após terem trilhado um percurso com algumas semelhanças, no que toca à sua formação académica, Papademos e Monti notabilizaram-se enquanto professores Universitários, bem como pelo trabalho que desenvolveram em diferentes Instituições Europeias. O actual Primeiro-Ministro Grego leccionou Economia na Universidade de Atenas, tendo interrompido essa actividade para desempenhar a função de Vice-Presidente do Banco Central Europeu, entre 2002 e 2010. Já o actual Primeiro-Ministro Italiano, ocupou diversos cargos, quer na Universidade de Turim, quer na Universidade Luigi Bocconi, em Milão, onde chegou a ser Reitor e Presidente. Além da carreira estabelecida enquanto docente Universitário, Monti foi responsável por diversos projectos relevantes, enquanto Comissário Europeu. Em Dezembro de 2009, integrando um grupo cujo objectivo era a discussão do futuro da Europa, o Economista Italiano defendeu a criação de um Governo económico comum, apoiando, também, a criação de um “New Deal” Europeu, caracterizado por uma maior articulação entre as questões sociais e as económicas. Foi também apoiante de uma iniciativa do Grupo Spinelli, levada a cabo em Setembro de 2010, que procurou revitalizar o projecto federal para a Europa, tendo-se associado a importantes nomes, como o dos franceses Jacques Delors e Daniel Cohn-Bendit.

 

Ainda que as suas carreiras tenham sido construídas longe dos habituais centros de poder político, Papademos e Monti acabaram por chegar ao comando dos destinos das suas Nações, marcando assim uma nova era. Uma era, onde Governos, liderados e constituídos por tecnocratas, assumem o poder, sem que tenham sido eleitos de forma democrática. Em nome do interesse Nacional, e da urgente recuperação económica, um grupo reduzido de pessoas, pouco representativas da vontade das suas enormes Nações, elege o seu Primeiro-Ministro, impondo-o a uma sociedade debilitada de meios que lhe permitam dar resposta à situação. Numa altura em que tanto se fala do primado dos Mercados sobre a Política, a avaliar pelos casos Grego e Italiano, ganha força a crença de que as soluções para os problemas políticos estão na capacidade intelectual dos Economistas. O Mundo parece voltar à época em que a soberania popular conta pouco, ou quase nada. Para muitos, a Democracia, tal como a conhecemos nas últimas décadas, encontra-se ameaçada por um suposto interesse comum, definido por uma elite, e veiculado entre as pessoas, como se de um dogma se tratasse. Para outros, esta é a solução única para a salvação das economias, dos Estados-Nação como nos habituámos a conhecê-los. É a solução que marca a viragem para uma nova fase. Uma fase em que os independentes assumem um papel cada vez mais preponderante nas decisões Políticas.

 

Todavia, será que os Cidadãos se importam com o facto de terem ao leme das suas Nações, dirigentes que não foram sufragados, e democraticamente eleitos? Parece que não. Tanto em Itália como na Grécia, a decisão parece ter sido bem aceite, ou pelo menos aceite com alguma conformidade. Os argumentos da urgência Nacional, e da inevitabilidade, parecem imperar. Uma sondagem do jornal Italiano “La Repubblica” indica mesmo que Mario Monti obtém, neste momento, recordes históricos de popularidade, apesar de só ter sido eleito há 5 dias. Este facto pode ser revelador, no meu entender, de uma tendência. Uma tendência de descrédito progressivo, por parte dos cidadãos Europeus, em relação aos diversos Partidos Políticos que os representam, levando-os a aceitarem nomeações de Independentes, que não foram submetidas a sufrágio, como a melhor solução possível para a actual situação de crise que enfrentam. O desencanto com as soluções tradicionais leva as pessoas a pretenderem algo novo, distinto, que represente uma visão diferente. Bons exemplos deste desgaste, que se encontra patente nos cidadãos, são as eleições Legislativas que tiveram lugar em Portugal, em Junho último, e, ontem, em Espanha. Em ambas as situações, os eleitores demonstraram uma enorme vontade de mudança, sendo este o principal factor a ter em conta na altura de votar. Mais do que uma forte convicção, ou uma enorme esperança na alternativa programática oferecida pelos partidos de centro-direita, os cidadãos optaram pela via que julgaram ser a única capaz de produzir algo diferente. Não se torna fácil acreditar, que os Espanhóis apenas se tenham apercebido das qualidades políticas de Mariano Rajoy, na terceira vez que este se apresentou a eleições.

 

Esta indiferença demonstrada pelos cidadãos, de diferentes Países Europeus, em relação a quem os Governa, tem que ser objecto de uma séria e profunda reflexão, por parte dos diversos partidos Políticos. Caso pretendam ir ao encontro das exigências das populações, os partidos estão obrigados à procura incessante de novas formas de participação por parte dos cidadãos, de novos meios para aproximar as pessoas dos centros de decisão, de novos métodos que envolvam, de uma forma mais efectiva, os eleitores na escolha dos seus representantes. Aqueles que não assumirem esta necessidade como uma prioridade, estão a contribuir irremediavelmente para o gradual distanciamento dos cidadãos face à Política. E com isso estarão a colocar em perigo a Democracia, e as suas instituições.

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