O movimento “Blue Labour” será a resposta radical do Partido Trabalhista para o futuro? – por Avelino Oliveira

Maurice Glasman. Credit: Richard Gardner/Rex Features

Há uma nova força no Partido Trabalhista com um plano radical para reconquistar os eleitores da classe trabalhadora e dar uma resposta da esquerda para a “Big society” de David Cameron. Esta corrente, denominada de “Blue Labour” quer repensar o que, para muitos, foi a maior conquista do partido trabalhista inglês – a criação do Estado-Providência em 1945.

O movimento defende a classe trabalhadora e apresenta argumentos para que esses eleitores voltem a votar nos trabalhistas através da defesa de políticas sociais fortes como a rejeição da economia neoliberal, uma posição anti-capitalista e contra a livre especulação.

O “Blue Labour”, por outro lado possui um lado conservador, com raízes burguesas, defendendo a fé, a família e tudo o que crie relações significativas em termos comunitários como valores fundamentais. Apoia-se em posições mais protectoras sobre determinadas questões sociais e internacionais, em desfavor de ideias históricas do socialismo democrático europeu. Referimo-nos especialmente à defesa do corporativismo continental britânico, a par de uma posição contra a imigração expressa no controlo que este movimento desejava impor na entrada de estrangeiros nas universidades britânicas.

O intelectual desta corrente é Maurice Glasman, académico que foi levado para a Câmara dos Lordes pelo líder trabalhista Ed Miliband em Março de 2011, o que deu projecção e mediatismo à corrente e ao minoritário grupo.

“Foi uma oferta que não pude recusar”, disse Glasman ao “The Guardian”, em Setembro passado, explicando que nos últimos tempos não tinha dinheiro, que vivia com os quatro filhos no mesmo quarto, elogiando o apoio da mulher. Hoje, com melhores instalações e com a possibilidade de ter gozado umas retemperadoras férias adverte que, no entanto, não nos devemos deixar dominar pelo dinheiro.

Curiosamente e apesar da proximidade, o líder trabalhista, Ed Miliband, deixa claras as suas diferenças com Glasman, referindo que Maurice é uma voz muito importante por trazer novos temas ao debate mas acrescenta que não concorda com muito do que ele diz. Diz ainda que não o vê como um político mas sim como alguém que acha que tem alguma coisa de interessante a dizer sobre o futuro do Partido Trabalhista. O mais importante para Ed Miliband sobre o “Blue Labour” reside na sua vontade de liderar o partido com oportunidades de discussão, de dar espaço interno para alguma reflexão, pois está convicto que os partidos ultimamente estão centrados em criar uma linha e todos os militantes tem que seguir essa linha. Ao não fazer isso acredita que está a dar espaço para o debate.

O plano do “Blue Labour” para a gestão da coisa pública passa por um certo revivalismo assente nas instituições com tradições ligadas ao trabalho, nomeadamente defendendo um reforço das mutualistas, das cooperativas, das associações comerciais, da criação de bancos locais e de um novo sistema de representação dos trabalhadores nos quadros das empresas.

Glasman refere que, em 1945, o Estado-providência foi uma conquista maravilhosa mas quebrou todos os laços de solidariedade mútua e entrego-os ao Estado. Defende com o “Blue Labour” um estilo de política de relações de proximidade onde o Estado não apenas regula e redistribui a riqueza mas também devolve o poder às comunidades locais, fazendo com que elas assumam mais responsabilidade nas suas próprias vidas. No fundo, o “Blue Labour” é uma tentativa de recuperar tradições adormecidas dentro do movimento trabalhista, em particular o das cooperativas e dos sindicatos, superando a ideia do pai providencial que é o Estado nascido em 1945. Glasman refere-o dizendo que é preciso sair desta obsessão da justiça absoluta e da igualdade material e, sem dogmatismos, afirma que se isso significa que operadores do sector privado têm que trabalhar em colaboração com os fornecedores e os destinatários dos serviços num modo mais “relacional”, mais democrático, então devem estar os trabalhistas preparados para dizer que esse é o movimento certo para o futuro.

Como nota final, devo acrescentar que pessoalmente não me revejo integralmente nas ideias do “Blue Labour”, possuo reticências sobre as suas posições anti-emigração, o seu cepticismo europeu e até sobre as bases corporativas em que assentam as propostas lideradas pelo professor de filosofia, Maurice Glasman, a quem os adeptos do “New Labour” (movimento de 1996 criado para apoiar Tony Blair apoiado na Terceira Via de Giddens) chamam de “guru” de Ed Miliband, “o vermelho”, alcunha dada pela imprensa popular.

No entanto, concordo com o trabalhista James Purnell, antigo ministro do Trabalho de Blair, que se tem aproximado de algumas ideias do “Blue Labour” , quando refere que a renovação do Partido Trabalhista vai sair de uma síntese do “Blue Labour” com o “New labour”.

Nos próximos tempos algo tem que mudar no socialismo europeu e entendo, tal como Ed Miliband, que o “Blue Labour” vem lembrar o movimento dos trabalhadores, do 1º Maio, e qual o significado desses valores originais presente na história do socialismo. Reinventá-los é fundamental.

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