A Escolha do Partido Socialista

 

A campanha para as eleições do secretário-geral do Partido Socialista foi um mau prenúncio. Quando a maior clivagem política entre os dois candidatos a líder da Esquerda Portuguesa está entre a realização de eleições primárias exclusivas aos seus militantes ou abertas à sociedade, temos um problema. É o sintoma de um Partido muito concentrado sobre si mesmo.

 

A opção que os Socialistas fizeram entre António José Seguro ou Francisco Assis não passou pelas respectivas opções programáticas, por alguma marca ideológica, nem sequer pelo seu currículo ou atributos políticos específicos. Ficou por uma heurística vaga, do candidato que vira a página ou do que segue o guião. E, pouco refeito de uma derrota eleitoral calamitosa, o Partido Socialista assumiu a opção do novo ciclo.

 

Só que, contra as profundas mudanças sociopolíticas que atravessam o globo, na crise da globalização e ocaso do capitalismo pós-industrial, na reactualização das propostas do Socialismo Democrático Europeu e na antecâmara de uma revolução paradigmática do modelo de governação da União Europeia, o “novo ciclo” terá mesmo de o ser, ou ficará apenas como uma trivialidade.

 

António José Seguro aspira a uma responsabilidade fundamental. Ser o fiel depositário da esperança do País. É da sua liderança que se antecipa a definição de um projecto coerente e alternativo à actual governação. Que denuncie e rejeite as actuais políticas de austeridade e o agravamento da recessão, simultaneamente propondo os alicerces políticos da coesão social e desenvolvimento económico de Portugal.

 

Não é, de facto, uma tarefa fácil. Mas é possível estudar, reflectir, discutir e alinhar algumas traves mestras para a construção de um projecto da Esquerda Democrática para Portugal. Num plano de fundo, propondo novos modelos e instrumentos de organização sociopolítica, orientados para a promoção da cidadania activa e democracia participava nos vários níveis da governação, e incluindo o reforço do poder local e a promoção das comunidades locais auto-suficientes, no enquadramento de um projecto nacional de regionalização.

 

No contexto mais imediato, e a fim de garantir a urgente consolidação orçamental e sustentabilidade do Estado, a alternativa à governação da Direita passa pela defesa da primazia da taxação da actividade financeira sobre a taxação dos rendimentos do trabalho, a equidade fiscal entre todos trabalhadores Portugueses, a taxação sobre as grandes fortunas e sinais de riqueza, e a redução das despesas supérfluas do Estado (afinal, a promessa eleitoral mais emblemática do actual primeiro-ministro, ainda por cumprir).

 

Até ao momento, o Partido Socialista não tem contrariado fundamentalmente o actual Governo Português. Na Assembleia da República, tem-se abstido sobre as grandes orientações governativas – aprovou o orçamento rectificativo, absteve-se sobre as novas alterações à Lei de Enquadramento Orçamental e à Lei-Quadro das Privatizações, e absteve-se sobre as novas regras do contrato de trabalho.

 

Mais recentemente, a direcção nacional do Partido Socialista anunciou ainda a abstenção sobre o Orçamento de Estado de 2012. E no dia seguinte ao anúncio, desdobrou-se por plenários de militantes em todo o País, a fim de explicar e divulgar a sua decisão. Quando o País não a compreendeu. Outro sintoma do pecado original. Um partido virado para dentro, demasiadamente concentrado sobre a sua orgânica, aparelho, alas e facções internas.

 

O esforço de António José Seguro junto das bases e dos dirigentes, é sincero e notável, mas pergunto-me se irá surtir efeito. É que parece difícil galvanizar o Partido Socialista, se não conseguir convencer o País. Por outro lado, se conseguisse galvanizar o País, cativaria, inclusive, o Partido Socialista. Parece-me que é a sua melhor hipótese.

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