Filmar a Crise

As contradições e angústias da potência norte-americana, agora gigante ferido e cambaleante, são interpretadas à luz de argumentos, cenários e personagens, imprimidos na película e projectados sob a grande tela da sétima arte. O cinema norte-americano é um dos exemplos mais notáveis da reflexão artística sobre uma consciência colectiva nacional. Modos, costumes, medos, paranóias, guerras, aspirações, são temas recorrentes dos argumentistas, produtores e realizadores de Hollywood. Aconteceu durante os períodos da Grande Depressão, Guerra Fria e durante a Guerra do Vietname. E, actualmente, ocorre com a crise financeira e económica de 2007-2011.

Os mais atentos terão notado que, em apenas três anos, foram já produzidos diversos documentários, telefilmes e filmes sobre o drama verídico que, para todos os efeitos, ainda se encontra em “rodagem”. Atentemos nos principais exemplos.

Da janela cinematográfica com vista sobre a psique colectiva Norte-Americana.

 

 

“Capitalism: A Love Story” (2009)

Sinopse: O controverso documentarista Michael Moore calcorreia sobre as iniquidades do modelo capitalista norte-americano. Traça as origens da crise económica de 2007 – 2008 à progressiva desregulação dos mercados e concessões do Governo Federal ao capitalismo especulativo, desde os anos Reagan até aos anos Clinton, observando-os como uma contradição política e moral com os princípios da Declaração da Independência ou as expectativas do emblemático Franklin D. Roosevelt. Sob um enquadramento histórico, político e económico, foca episódios e apontamentos pessoais, enquanto reflexos da crise e da injustiça do capitalismo, particularmente na enxurrada de execuções hipotecárias, desfalecimento da indústria automóvel e agravamento das desigualdades sociais. No final, o realizador promete não desistir e convoca os espectadores para a mobilização colectiva (aparentemente, o movimento “Occupy Wall Street” escutou o seu apelo).

Motivos de Interesse: Reconhecem-se em “Capitalism: A Love Story” as habituais estratégias populistas de Moore, desde o tratamento enviesado da informação, passando por alguma exposição novelesca, até a uma intervenção directa do realizador, largamente supérflua, sobre os objectos em análise. Mas não tem mal. É que, embora disfarçado por cedências simplistas ocasionais, “Capitalism: A Love Story” é um documentário arrojado, inteligente e abrangente. Demonstra exemplos notáveis do fracasso do modelo do capitalismo pós-industrial, deslindando estatísticas impressionantes (o agravamento das disparidades salariais, o crescimento do desemprego) e proporcionando exemplos particularmente notáveis (pré-adolescentes enclausurados em prisões de tipo empresarial; famílias expulsas unilateralmente das suas casas). Igualmente, contrapõe com momentos mais optimistas, demonstrativos de como, através da organização, resistência e coesão, as pequenas comunidades e os trabalhadores podem fazer valer os seus direitos.

Conclusão: Pela profusão de temas, estórias e personagens, “Capitalism: A Love Story” requer vários visionamentos a fim de ser compreendido na sua plenitude. Tratando-se de uma perspectiva parcial, deve ser complementando e enquadrado à luz de outras fontes de informação. No entanto é, por si só, uma voz digna da consciência norte-americana e um espelho fiel das suas actuais angústias.

 

 

Inside Job (2010)

Sinopse: Documentário de Charles R. Ferguson, cuja narrativa se sobrepõe, em grande medida, com a de “Capitalism: A Love Story.” Diferencia-se do filme de Moore pela perspectiva mais sóbria e jornalística. Centrado em entrevistas a personalidades da política e economia Mundial, incluindo Dominique Strauss-Khan, Christine Lagarde, Elliot Spitzer e Nouriel Roubini, “Inside Job” sustenta a tese de que a crise mundial de 2008 foi a consequência das práticas especulativas criminosas dos financeiros Norte-americanos, em conluio com responsáveis políticos e das agências de classificação de risco, todos em busca do lucro fácil e imediato. Em grande medida, acompanha a perspectiva de Moore mas, no apuramento das responsabilidades de Washington e Wall Street, admite mais explicitamente a sua intencionalidade e criminalidade, aproximando-se mesmo de uma tese conspirativa.

Motivos de Interesse: “Inside Job” traça mais claramente um fio narrativo do que “Capitalism: A Love Story”. Segue o esquema especulativo que esteve na origem do descalabro financeiro de 2008. A designada “cadeia alimentar da securitização da dívida”, fluxo de vendas de títulos de dívida baseados em empréstimos bancários de alto risco que, através dos anos 2000, cresceu em opacidade e esoterismo, à sombra da inacção ou benevolência governamental. Em grande medida, uma cadeia assente nas práticas especulativas que, inevitavelmente, teria de ruir. De acordo com “Inside Job”, o colapso era antecipado pelos responsáveis políticos, banqueiros e especuladores. E a ruína disparou a recessão e desemprego pelos Estados Unidos, Europa e Ásia, uma vez que a toda a indústria e comércio global se encontravam altamente dependentes do sistema financeiro e condicionados pelos fluxos de créditos bancários. No final, Washington atribui um resgate financeiro bilionário a Wall Street, com os seus gestores de topo a beneficiarem de “pensões douradas”, contratos milionários de consultoria e cargos políticos. É difícil sair do visionamento deste filme sem um espírito de revolta.

Conclusão: A estrutura narrativa de “Inside Job” é mais focada do que a de “Capitalism: A Love Story.” Não se livrando, igualmente, de alguma densidade temática, sucede melhor em identificar um arco narrativo, principalmente na definição dos “vilões” da estória, , uma panóplia de especuladores ou responsáveis políticos do calibre de Larry Summers e Angelo Mozilo (muitos deles, misturando os dois papéis) que, para todos os efeitos, saíram milionários da crise de 2008.

 

 

 

 

“Too Big to Fail” (2011)

Sinopse: Tele-filme do canal HBO realizado por Curtis Hanson (responsável por filmes como “L.A. Confidencial” ou “8 Mile”) sobre as acções do Governo Federal para conter a crise financeira de 2008. Os protagonistas são aqueles que, na época, eram os principais responsáveis da política económica Norte-Americana, o Secretário do Tesouro Henry Paulson, o Presidente da Reserva Federal, Ben Bernacke e o Presidente da Reserva Federal de Nova Iorque, Timothy Geithner. O filme centra-se nos jogos de bastidores para a tentativa de salvamento do banco de investimentos Lehman Brothers e na articulação entre o Governo Federal e o Congresso dos Estados Unidos para a aprovação de um fundo de resgate ao sistema financeiro.

Motivos de Interesse: Comparativamente aos documentários de Michael Moore e Charles R. Ferguson, “Too Big to Fail” dá uma perspectiva bastante mais benevolente sobre os responsáveis políticos Norte-Americanos. Em grande medida, eles aparecem como as vítimas das circunstâncias, resistindo com a criatividade e inteligência possíveis ao descalabro do sistema. Henry Paulson recebe o foco principal, como um homem permanentemente consternado e adoentado, carregando sobre os ombros, os pesos de um desafio incomensurável e um desastre inevitável. O desempenho do consagrado William Hurt é irrepreensível. O final do filme é amargo. Depois da falência do Lehman Brothers e, mesmo com a aprovação do fundo de resgate, não existe o terceiro acto da narrativa, a redenção ou optimismo. Sobram as incertezas e a angústia, espelhadas num olhar doloroso e numa declaração contrita de Hank Paulson.

Conclusão: A proposta de Curtis Hanson é mais humilde que a dos documentaristas, recusando teses definitivas ou mensagens ideológicas. Trata-se enfim de um drama humano, intrincado e cinzento, sem heróis ou vilões, que perscruta nos bastidores políticos do colapso de 2008.

 

 

“The Company Men” (2011)

Sinopse: O primeiro filme de John Wells, produtor e realizador de séries televisivas como “Serviço de Urgências” e “Os Homens do Presidente”, centrado nas vidas de três homens afectados pela crise de 2008. Ben Affleck, Tommy Lee Jones e Chris Cooper interpretam executivos em diferentes níveis da hierarquia de uma corporação em reestruturação interna, com o doloroso encerramento do seu sector industrial e uma vaga de despedimentos. O filme retrata a crise económica a partir das dificuldades de ajustamento destes homens, para regressarem ao mercado laboral, manterem o equilíbrio emocional e familiar, e algum sentido existencial para as suas acções.

Motivos de Interesse: Trata-se de um filme de ficção, o que o destaca das propostas anteriores. Não tendo de se preocupar em fazer pedagogia política ou económica, John Wells tem licença para construir uma narrativa mais humanizada. O seu tema de interesse é das consequências psicológicas e familiares da crise económica. E sucede na dignificação de toda uma classe socioprofissional devastada pela crise, os executivos intermédios das indústrias tradicionais Norte-Americanas. O excelente elenco entende e aguenta bem o peso desta responsabilidade, particularmente Tommy Lee Jones, no papel da consciência e baluarte moral. É da responsabilidade da sua personagem, um executivo de topo inconformado com a ganância e perfídia dos seus pares, um último acto, extraordinariamente heróico. O filme contrasta assim com as toadas mais cépticas ou cínicas das propostas anteriores, sendo bastante ressonante do idealismo militante do cinema clássico Norte-Americano. Uns verão aqui um esforço sincero e admirável, a outros aparecerá como algo anacrónico ou ingénuo. Será sempre uma questão de perspectiva.

Conclusão: Sem tonalidades épicas, “The Company Men” satisfaz pela sua estória e personagens. Em espaços, comovente, divertido, e até empolgante. É, enfim, entretenimento, semelhante à melhor tradição televisiva Norte-Americana, humanizando uma crise que, mais comummente, tem sido tratada pelas lentes da política ou economia. É servido ainda por um elenco em boa forma.

 

 

Margin Call (2011)

Sinopse: Escrito e realizado pelo estreante J. C. Chandor, “Margin Call” é o mais recente da série de filmes enquadrados na crise financeira de 2008. Sendo uma narrativa de ficção, é largamente inspirado pelo colapso dos bancos de investimento, como o Bear Sterns e Lehman Brothers, condensando a evolução desses eventos num período turbulento de 24 horas. O cenário principal é a sede de uma firma fictícia de Wall Street e as personagens são os seus funcionários e gestores que, sucessivamente, vão descobrindo a eminência da bancarrota da companhia e programando a única saída possível, escoar os seus títulos tóxicos e, assim, conscientemente contribuindo para o colapso do sistema financeiro.

Motivos de interesse: Sob vários pontos de vista, “Margin Call” é a mais interessante das propostas aqui apresentadas. Ainda por estrear em Portugal, já fez a sua passagem por alguns festivais de cinema, onde os críticos têm destacado os seus diálogos sumarentos, personagens cativantes, desempenhos brilhantes, fotografia sepulcral e atmosfera claustrofóbica. Aparentemente, é a versão suspense  da crise financeira de 2008. O seu argumentista e realizador é J. C. Chandor, sem créditos cinematográficos prévios, e cujo próprio pai foi banqueiro de investimento no Merrill Lynch, uma das instituições abaladas pela crise de 2008. O extraordinário elenco que conseguiu reunir é, desde logo, um óptimo prenúncio. Aos nomes consagrados de Kevin Spacey, Jeremy Irons e Demi Moore, junta-se uma segunda linha muito consistente, com Paul Bettany, Simon Baker e Zachary Quinto. Spacey e Irons são destacados pelas suas interpretações brilhantes – tidas como as suas melhores em anos e já estão no rol dos eventuais candidatos aos prémios da Academia do próximo ano. Spacey interpreta a consciência moral da firma, um dirigente intermédio abalado e zangado, mas não ao ponto de realmente travar o rumo dos acontecimentos. Irons é o executivo de topo, sanguíneo, fulminante, inabalável perante a antecipação do desastre, ordena aos seus subordinados que virem o rumo dos acontecimentos em seu favor. “Não é pânico se fores o primeiro a sair pela porta fora.” Foram diálogos deste género e a urgência da temática que atraíram o elenco de primeira água e o inspiraram a desempenhar as que são, aparentemente, interpretações de uma vida. Chandor impressiona muito na sua estreia, destacando-se pela habilidade em segurar um fio narrativo entre-cruzado por várias personagens carismáticas e concretizar uma temática esotérica num filme empolgante, ainda para mais, situado num período de tempo de 24 horas. Poderá vir a ser considerado o filme definitivo deste período.

Conclusão: Previsto para estrear a 29 de Dezembro em Portugal, “Margin Call” tem merecido uma ovação positiva pelos circuitos onde tem estreado. Antecipa-se que se situe entre os filmes melhor considerados desta década, pelas suas interpretações magistrais, diálogos lancinantes, e atmosfera asfixiante.

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