O “nosso” Partido Socialista

 

A 6 de Junho, após a derrota eleitoral, e a consequente demissão do seu Secretário-Geral, o Partido Socialista iniciou uma nova página na sua História. Essa História que, como nos lembra o Gabriel Carvalho, “se confunde com a História da Democracia em Portugal, já que nenhum outro Partido marcou tanto e em momentos tão decisivos, no pós 25 de Abril”. A realidade com o que o PS se deparou, no início desta nova fase, foi bem diferente da que se acostumara nos últimos anos. Longe do comando dos designíos Nacionais, cabe ao Partido Socialista a construção de um projecto alternativo ao que está a ser posto em prática pelo actual Executivo, que legitime a sua vontade de, num futuro próximo, voltar a formar Governo.

 

Ao pensar neste momento, onde acontecerá a criação de uma plataforma de ideias, que conferirá substracto ao rumo do PS no curto e médio prazo, a Aurora resolveu convidar um grupo de jovens, alguns militantes socialistas, outros simpatizantes, para expressar a sua percepção acerca do Partido. Se é de ideias para o futuro que o País necessita, ninguém melhor do que os jovens para, através da partilha da sua visão, afirmarem a orientação que, no seu entender, deverá ser tomada pelo PS. Assim sendo, o resultado que alcançámos com esta série de textos aproxima-se da forma como o Tiago Barbosa Ribeiro descreve o seu Partido Socialista: “um Partido em que a sua unidade fundamental assenta na pluralidade sobre todas as visões sobre ele: é um partido que faz da diversidade a força da sua unidade”.

 

Ainda que tenhamos obtido uma grande diversidade de opiniões, há um conjunto de assuntos que são tidos de forma praticamente unânime, como algumas das prioridades que devem pautar a acção política do PS: A defesa do sistema nacional de saúde, a valorização da educação pública, a sustentabilidade do sistema de segurança social, a redução das desigualdades, o combate à corrupção, a reforma do sistema judicial, a construção do projecto Europeu, a aproximação da política aos cidadãos, uma Política que se sobreponha à economia e que seja direccionada para as pessoas, e a importância da sua História e do seu passado.

 

Um dos pontos que aproxima a visão da maioria dos jovens socialistas é a de que só é possível ao PS projectar o seu futuro, se não esquecer o seu passado. Passado este que ficou marcado, como diz o Marco Ferreira: “por um PS percursor das grandes reformas que atribuiram a Portugal algumas das suas marcas mais distintivas, de um País que em 35 anos conheceu uma extraordinária evolução rumo à diminuição de distâncias entre classes sociais e à promoção de oportunidades iguais para todos”. Mas como nenhum percurso é inteira e plenamente perfeito, é necessário que o Partido Socialista tenha “a capacidade de assumir responsabilidades” em relação à sua acção no passado, como nos diz a Rita Rola, porque “é desse mesmo passado, que construiremos o presente Socialista”.

 

O sistema nacional de saúde, a educação pública, e a justiça social são outros temas que unem os jovens socialistas, já que no seu entender constituem pilares fundamentais na edificação de uma sociedade moderna. Uma sociedade que, na opinião da Mariana Burguette, deve ter “mais equidade social, ser mais justa e mais equilibrada”. Uma sociedade onde, como nos diz o Tiago Barbosa Ribeiro, “ninguem fica para trás, seja na escola pública, no acesso à saúde, na emancipação jovem, na segurança social, e nas reformas”. Esta sociedade, onde o actual Governo está a “reduzir o Estado a funções residuais, sem assegurar igualdade no acesso a cuidados de saúde, ou ao sistema de ensino”, medidas estas que “devem ser combatidas pelo PS com energia e determinação”, como afirma o João Torres.

 

Mas os jovens socialistas também acreditam que o Partido Socialista não pode descurar o importante papel que terá de assumir, a breve prazo, na construção de um projecto Europeu renovado, fortalecido, que represente uma real comunhão de vontades, em busca de objectivos comuns. Como escreve o Gabriel Carvalho: “o passado do PS, de contributo ao País e ao projecto Europeu, deverá servir de inspiração para enfrentar os problemas actuais e apresentar propostas que aprofundem a integração Europeia, os seus mecanismos democráticos, e de representação dos cidadãos. Tal como no passado, o futuro passa por aprofundar esse espaço de desenvolvimento, solidariedade e paz, no qual o Partido Socialista deve, em conjunto com a sua família Europeia, assumir-se como timoneiro desse objectivo”. Porque, como nos recorda o Tiago Gonçalves, “os Partidos que pertencem à familia socialista Europeia pouco têm feito para garantir uma posição que transmita os principios de solidariedade e de igualdade em que se orientam politicamente”, e “só com uma resposta a 27, conseguiremos ultrapassar um problema que é de 27, honrando o designio de solidariedade que fundou a União Europeia”.

 

A aproximação dos cidadãos à Política, a uma Política que deve ser feita para as pessoas, e que se deve sobrepor às leis dos mercados, é vista pelos jovens socialistas como um dos desafios a cumprir no curto prazo. Como a Rita Rola afirma: “A política Mundial sofre e tenderá a sofrer ainda mais, com o descrédito, sendo que Portugal não será excepção se se mantiver a mesma postura”, e é por isso que o Hugo Gonçalves acredita que “se aproveitamos este tempo para consolidar as contas públicas, não deixemos de operar uma mudança de mentalidades e dignificar a intervenção cívica e política. Participação cívica que é dever de todos, nos partidos, nas escolas, no trabalho, na sua comunidade, na sua cidade, no seu País, e que não é privilégio de ninguém”. “O papel do PS no contexto económico e político actual só pode ser de defender o prelado das pessoas sobre o mercado”, relembra-nos o Marco Ferreira, opinião corroborada pelo João Torres quando afirma que “uma parte substantiva das dificuldades que vivemos decorre precisamente de a política ter sido relegada para um segundo plano, em detrimento de opções e forças económicas desreguladas, tangidas pela ganância e sem qualquer missão social”.

 

Outros temas também são colocados na agenda da acção política do Partido, pelos jovens socialistas. O Tiago Gonçalves enfatiza a reforma do poder local autárquico, considerando que a mesma não se deve resumir “apenas a uma perspectiva de redução de custos financeiros”, porque “o PS, neste caso concreto, não deve contribuir para um empobrecimento da democracia local representativa”. Simultaneamente, o Tiago Barbosa Ribeiro “defende o contrato social proposto pelo Partido Socialista aos Portugueses”, enquanto o João Torres realça a importância de “políticas activas de emprego, sobretudo destinadas aos mais jovens, bem como programas de reforço da qualificação”. Já o Hugo Gonçalves destaca a importância de existirem “propostas concretas para a Agricultura e o Mar, para o Turismo, e para o aproveitamento diplomático das ligações históricas priveligiadas”.

 

Num patamar mais ideológico, o Gabriel Carvalho expressa o desejo de que o PS se conserve “Repúblicano, Laico, europeísta desde a sua génese, defensor do socialismo democrático, na linha da social-democracia europeia”. A Patrícia Valente escreve sobre “uma transformação que terá de começar, rumo à Esquerda, não só dentro do partido, mas dentro de cada militante”. A Mariana Burguette tem um desejo semelhante! O desejo de “um futuro em que aparece mais Partido Socialista, mais Esquerda. Um futuro em que consigamos construir uma sociedade, que na sua opinião, apresenta a necessidade de ter um pilar ideológico de esquerda para poder evoluir”.

 

E neste conjunto tão diverso de ideias encontramos o essencial das visões sobre o futuro dos jovens socialistas. Futuro que não se antevê fácil, mas que, certamente, com a coragem e determinação dos jovens que, em breve, integrarão o Partido Socialista, será uma época de menores desigualdades, onde imperará a justiça social, onde a União Europeia funcionará a uma só voz, solidária e fraterna, e onde a economia funcionará de uma forma regulada, nunca se sobrepondo ao papel da Política. Porque, e como afirma o João Torres: “O Partido Socialista é, acima de tudo, um espaço de valores intemporais, um património de todos os Portugueses, tendo nesse sentido a responsabilidade, de a todo o momento, afirmar-se como uma garantia de futuro”.

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