Menezes, ¿Por qué no te callas?

Desde miúdo que nutro paixão pela política! Se sempre julguei que estaria, exclusivamente, relacionada com a possibilidade que nos concede de ajudar um grande número de pessoas, começo a achar que talvez tenha também que ver com o Alberto Caeiro que há dentro de mim, o que se sente “nascido a cada momento para a eterna novidade do Mundo”.

Quando me convenço que já li ou ouvi demasiadas declarações extremas, que ultrapassam todos os limites da decência em política, lá vem mais um “artista” fazer uma cena digna de um País de terceiro mundo.

Há dias, a propósito das responsabilidades do ex-governador do Banco de Portugal pela falta de fiscalização no caso BPN, o Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (e putativo candidato à Câmara Municipal do Porto), Luís Filipe Menezes (doravante LFM), criticou que «um pobre presidente de junta tenha de cumprir quatro anos de prisão efectiva por ter feito um desfalque de 80 mil euros e que Vítor Constâncio não seja responsabilizado pela falta de fiscalização do BPN, que obrigou o Estado português a injectar dinheiro neste banco». Ainda acrescenta «E é triste que um pobre presidente de junta que cometeu um erro na vida – não devia ter cometido, fez um desfalque de 80 mil euros – leve quatro anos de prisão efectiva e aqueles que foram os responsáveis pela fiscalização e por tutelarem as contas públicas tenham lugares em Bruxelas a comer chucrute e salsichas no Banco Central Europeu. Isso é que o povo não entende».

Fui, de imediato, confirmar que não se tratava de uma notícia do “Inimigo Público” ou da “Imprensa Falsa”. Para minha grande tristeza, estas declarações são mesmo verdadeiras!

Cometeu um erro na vida? Não me digam que ele julgava estar a transferir 80 mil liras turcas?

Não obstante a eventual responsabilidade de Vítor Constâncio no caso BPN, sobre a qual não me pronuncio – porque não disponho de dados para o efeito – a comparação que LFM faz é ridícula e atentatório do Estado de Direito Democrático em que “alegadamente” vivemos. Menezes usa a expressão “pobre presidente de junta”, numa atitude claramente condescendente com o autarca que presidia à Junta de Freguesia da Afurada, condenado por peculato após ter feito um desfalque de 80 mil euros dos cofres da autarquia.

Desde quando a hipotética incompetência de uns pode ser desculpabilizante dos crimes de outros? A mensagem que LFM passa é a de que actos como o praticado por aquele autarca de Gaia são de gravidade reduzida e, por conseguinte, desculpáveis e insusceptíveis de ser tratados com severidade. Pois, é meu entender que, em paralelo com a punição dos altos responsáveis que possam ter contribuído para a situação a que Portugal chegou, estes casos – cada vez menos pontuais – devem sentir a mão pesada da justiça, cujas penas pretendem ser também dissuasoras.

Com certeza, não aplicaram os Srs. Drs. Juízes pena superior à prevista na lei… Ou será que, numa fase de descrença do povo na seriedade dos agentes políticos, LFM pretende uma redução da moldura penal para crimes cometidos no exercício de funções públicas? Anda tudo doido? Contra os perversos pensamentos de alguns, pouco podemos fazer, mas será que certos políticos já não se dignam, sequer, a respeitar publicamente os contribuintes?

O povo paga os seus impostos, sofre dos mais pesados sacrifícios de que há memória e LFM acha que “pobre” é o Presidente de uma Junta que desviou 80 mil euros (sabe-se lá para quê)?

As medidas do actual Governo, da maioria PSD/CDS que LFM ajuda a suportar, podem não torná-lo um político mais “pobre”, mas com intervenções descabidas como esta, caminha para a classe dos pobres políticos, inconscientes e desfasado da realidade, que perderam o discernimento para distinguir o bem do mal.

Se me permite a sugestão, que fique por Gaia, “quiçá” no lugar do Presidente da Junta da Afurada, para que possamos contemplar do Porto o exemplo do que não deve pensar e dizer um político que se preocupa, realmente, com a justiça social.

O Dr. Luís Filipe, “às vezes” podia reflectir antes de dizer algumas barbaridades que denunciam a sua deturpada perspectiva do que deve ser a ética na política.

Ah, o que escrevi também serve para os demais que se posicionem em sentido idêntico, independentemente das cores partidárias…

Anúncios