O Meu Partido Socialista, por João Torres

 

O PS e os desafios do futuro

 

Portugal atravessa um período crítico. Porventura, nas últimas três décadas, foram poucos os momentos em que as incertezas se abateram de forma tão dura sobre todos nós. Vivemos uma crise de paradigma, é certo, mas não se trata da primeira vez que enfrentamos sérias dificuldades. Não podemos consentir que se incuta na mentalidade e na atitude dos portugueses um sentimento de resignação. Os portugueses depositam elevadas expectativas na liderança do Partido Socialista e na mensagem de futuro que transporta: uma mensagem de esperança e responsabilidade.

 

Sabemos que a dinâmica global que subjaz esta crise faz emergir novos desafios, com riscos acrescidos, e que não existem fórmulas mágicas que nos permitam ultrapassar os obstáculos de forma instantânea. Revela-se imprescindível, dado o actual contexto político, mas, sobretudo, tendo em conta as implicações desta crise nas vidas das pessoas, que o PS centre o âmago da sua intervenção na busca incessante de respostas que protejam os mais desfavorecidos. Essa é precisamente uma das marcas distintivas do seu código genético: fazer política com as pessoas, para as pessoas. No passado, recordo-me de ver inúmeras vezes ridicularizado o princípio de que política deve prevalecer sobre a economia. Porém, na actualidade ninguém ousará refutar a pertinência da afirmação deste primado sobre quaisquer outros interesses. Uma parte substantiva das dificuldades que vivemos decorre precisamente de a política ter sido relegada para um segundo plano, em detrimento de opções e forças económicas desreguladas, tangidas pela ganância e sem qualquer missão social. O PS que eu preconizo é, assim, na forma e na acção, um espaço de humanismo, alicerçado no ideário republicano e na afirmação dos valores da ética – uma força de proximidade e de confiança, com propostas concretas que visem reduzir as desigualdades que subsistem no nosso país.

 

Nos meses que se avizinham, esperam-se muitas transformações na nossa sociedade. Pouco mais de cem dias de governação de direita permitiram concluir que muitos dos receios dos socialistas estão a concretizar-se: no fundo, PSD e CDS estão a aproveitar este momento para operar, com evidente oportunismo, um conjunto de reformas que visa cumprir o sonho da direita de reduzir o Estado a funções residuais, sem assegurar igualdade no acesso a cuidados de saúde ou a um sistema de ensino não exclusivamente vocacionado para os que têm menos possibilidades. Sim, a direita está a cumprir o seu sonho e aproveita a turbulência dos mercados para apresentar as suas soluções como as únicas que nos permitem fazer frente à crise. Esta postura e esta atitude, não obstante as dificuldades por que passamos, devem ser combatidas pelo PS com energia e determinação. E, sem prejuízo de outras problemáticas, seguramente não menos relevantes, arriscaria apontar três que merecem uma reflexão cuidada e urgente por parte do nosso partido: Europa, Justiça e Exclusão Social.

 

As soluções para a crise que atravessamos são globais e, nesse sentido, exigem da União Europeia respostas sólidas e transversais. Não mais será possível aprofundar o processo de construção europeia sem prever a harmonização das emissões de dívida e a definição de um órgão político fortemente legitimado para agir em defesa da Europa como um todo. Mas os problemas do Velho Continente não são apenas instrumentais: a Europa começa por falhar enquanto comunidade no momento em que falha a solidariedade entre os povos. Por sua vez, uma democracia está em permanente erosão quando os seus cidadãos sentem, diariamente, que a Justiça não actua de forma célere e eficaz. O sentimento de revolta que esta realidade potencia na sociedade tem-se adensado nos últimos anos, sendo, ademais, um obstáculo ao progresso crescimento económico. O PS deve prosseguir o seu combate contra a corrupção, lutando pelas propostas justas em que se revê, mesmo num contexto político desfavorável para a sua implementação. A Exclusão Social, ou as múltiplas exclusões abrangidas por este conceito, são igualmente uma das problemáticas mais relevantes da actualidade: quando um país está exposto a fragilidades, é para os mais desfavorecidos que as atenções do Estado devem ser dirigidas. Mas a justiça social não pode deixar de ser afirmada como um valor perene, com inequívoca supremacia sobre o ideário caritativo com que a direita tem crivado as suas propostas. Estas propostas, são, aliás, reveladoras da inexistência de uma qualquer estratégia de longo prazo que permita aos cidadãos darem um salto qualitativo nas suas vidas, o que só poderia ser alcançado com políticas activas de emprego, sobretudo destinadas aos mais jovens, e programas de reforço da qualificação, entre outras medidas de cariz progressista.

 

O meu Partido Socialista é, acima de tudo, um espaço de valores intemporais: da fraternidade e da partilha aos ideais e às convicções. É um património de todos os portugueses e tem, nesse sentido, a responsabilidade de, a todo o momento, afirmar-se como uma garantia de futuro.

 

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Da série de artigos “O Meu PS”, escritos por amigos, militantes da Juventude Socialista e/ou do Partido Socialista, que acederam ao nosso convite para reflectirem sobre o presente e futuro do PS.

 

João Torres é Presidente da Federação Distrital da Juventude Socialista do Porto.

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