Hollande, o candidato “de toutes les forces de la France”?

 

“François Hollande é o nosso candidato, eu colocarei todas as minhas energias e toda a minha força para que ele seja o próximo Presidente da República”. Foi desta forma que Martine Aubry, candidata derrotada nas últimas eleições primárias, do Partido Socialista Francês, se referiu ao vencedor do sufrágio, e candidato socialista às Presidenciais de 2012, François Hollande, após a divulgação dos resultados.

 

Depois de uma primeira volta disputada por 6 candidatos, e que ficou marcada pelo enorme sucesso que representou a aposta do Partido Socialista Francês em conceder a possbilidade de voto a qualquer cidadão Gaulês, que se declarasse uma Pessoa de esquerda, os resultados ditaram que a decisão final seria entre Martine Aubry, filha de Jacques Delors, Presidente da Câmara de Lille, e Secretária-Geral do PS desde 2008, e François Hollande, antecessor de Martine Aubry enquanto líder dos Socialistas Franceses, e Conselheiro-geral da Corrèze. Pelo caminho, ficaram candidatos como Ségòlene Royal, última candidata Socialista à Presidência da República; Arnaud Montebourg, que apresentou algumas propostas consideradas “mais radicais”, sendo a mais emblemática a defesa da “desglobalização”, e que acabou por ter um resultado expressivo (17% do total dos votos); Manuel Valls, conotado como o candidato mais à direita destas eleições; e Jean-Michel Baylet, presidente do Partido Radical de Esquerda, e o único não-socialista a ir a votos. Os 218 mil votos, traduzidos num diferencial de 8%, que Hollande obteve a mais que Aubry, fizeram com que o Conselheiro-geral da Corrèze visse reforçado o estatuto de favorito, que já o acompanhava desde as primeiras sondagens .

 

Na última semana de campanha, Martine Aubry procurou aproveitar o facto de se posicionar mais próxima da ala esquerda, e mais distante da ala centrista, do que François Hollande, para rotular o seu adversário como um candidato da “esquerda mole”. A Secretária-Geral do PS defendia que “não se pode vencer uma direita dura com uma esquerda mole”. O seu programa eleitoral incluía medidas como a criação de um banco regional de investimento, a taxação das transacções financeiras, a supressão de nichos fiscais e a criação de 300.000 empregos aos jovens no sector público Francês. No entanto, o facto de ser responsável por medidas impopulares, enquanto Ministra do Trabalho, representou uma desvantagem para a sua candidatura. Muitos são os Franceses que associam Aubry, à lei das 35 horas semanais, promulgada em 2000, durante a governação de Jacques Chirac.

 

Os resultados da segunda volta acabaram por ser os esperados, sendo que François Hollande conseguiu 1.607.268 votos, o equivalente a 56,57% da totalidade da votação, enquanto Martine Aubry obteve 1.233.899 votos, correspondendentes a 43,43% do número total. Ainda que o resultado pareça equilibrado, do ponto de vista percentual, a análise, departamento a departamento, permite-nos ter uma percepção diferente. A Secretária-Geral do PS conseguiu vencer o departamento onde se localiza Lille, cidade onde preside à câmara, três departamentos vizinhos (Seine-Maritime, Somme, e Pas-de-Calais), assim como a capital Paris, onde já tinha obtido uma maioria na primeira volta. Por seu turno, François Hollande venceu em todos os outros departamentos, conseguindo ampliar a sua vantagem no Sul de França, e conquistando, ainda, algumas regiões importantes, onde Martine Aubry vencera no Domingo anterior, como é o caso de Lyon.

 

A França assistiu, desta forma, à vitória do candidato “do respeito, do diálogo, da democracia”, adjectivos utilizados por Hollande para se auto-definir no discurso de vitória. O “candidato normal” que ouviu “a raiva dos que estão cansados”, e que acredita ter um “mandato imperativo para ganhar a esquerda”. Procurando demarcar-se da forma de governar “superpresidencialista”, de Nicolas Sarkozy, Hollande apresentou-se aos eleitores como um “candidato normal” (termo utilizado para se distinguir, também, de hipotéticos concorrentes mais mediáticos como Ségòlene Royal e Dominique Strauss-Kahn), mas que se candidatou, não com o objectivo de negociar ou figurar, mas sim para vencer a disputa. E venceu! Com um projecto político centrado na juventude, o antigo Secretário-Geral do PS definiu o “sonho Francês”, não como um sonho de crescimento económico, mas como um sonho onde fosse permitido a uma geração viver melhor que a sua antecessora. Baseado nesta ideia de “Rêve Français”, Hollande propôs a criação de “contratos geracionais”, onde um empregador, mantendo um colaborador “sénior”, contrataria um jovem com menos de 25 anos, para aprender com o trabalhador mais antigo. Em contrapartida, o empregador estaria dispensado do pagamento de encargos sociais dos dois colaboradores. Com esta proposta, o Conselheiro-Geral da Corrèze pretende criar 200.000 empregos jovens, por ano. Na linha da frente das suas propostas, econtram-se, também, temas como a educação, a economia e as finanças públicas, a energia, e a Europa. No que diz respeito à educação, François Hollande comprometeu-se a recuperar todos os postos de trabalho suprimidos por Nicolas Sarkozy. Em relação à economia e às finanças públicas, o programa vencedor das Primárias Socialistas incluía a eliminação de todos os nichos fiscais, vantagens fiscais criadas pelo actual Presidente da República Francesa para beneficiar certas empresas e famílias, o equilíbrio da dívida pública, de acordo com o estabelecido pelo Tratado de Maastricht, e o regresso do imposto progressivo. As medidas relacionadas com a energia, que constavam da proposta de Hollande, baseavam-se na alteração da matriz energética, através da diminuição, em 25%, da necessidade do uso da energia nuclear. Uma política externa mais influente na União Europeia, a manutenção do Euro como moeda única, um pacto Franco-Alemão, e o auxílio às economias em dificuldade, são algumas das ideias que constituem a visão que o antigo Secretário-Geral do PS tem para o Projecto Europeu.

 

Considerado pelos adversários como um candidato mais próximo da ala direita do Partido Socialista Francês, François Hollande é visto, pelos seus apoiantes, como o candidato da Esquerda pluralista. O único capaz de congregar os eleitores centristas, os desacreditados do Sarkozysmo e, até, políticos provenientes de alas tão diversas, como é o caso do social-democrata Pierre Moscovici, ou do ex-candidato comunista à Presidência, Robert Hue. E são estas as bases que dão a força necessária para que, no discurso de vitória proferido no passado Domingo, François Hollande pudesse afirmar: “Esta vitória confere-me a força e a legitimidade para preparar o grande evento Presidencial. A França não quer mais a política de Nicolas Sarkozy. Nós vamos ganhar, isso está escrito”.

 

A França parece começar a trilhar um caminho de regresso a uma Governação de Esquerda. Esse caminho deverá incluir políticas públicas redistributivas, que contribuam para uma sociedade mais equitativa e mais justa. Onde não existam nichos fiscais, e onde quem pode pagar mais, assuma uma consciência socialmente responsável. Deverá ser um caminho percorrido por jovens, jovens que acreditem e se empenhem na construção de um projecto de futuro para França e por desempregados que voltem a encontrar a felicidade, através da estabilidade laboral. Mas este caminho será sempre incompleto, se não for trilhado, também, pelos cidadãos de toda a Europa. François Hollande tem que ter a capacidade de percepcionar o papel fulcral que desempenhará na reconstrução do Projecto Europeu. Deve ter a clara noção do quão prejudicial foi para a Europa, esta Governação centrada no eixo Franco-Alemão e procurar que haja uma maior integração entre os diversos Países, e uma maior coordenação entre as políticas a adoptar. Só com uma visão estratégica a longo prazo, impregnada de um profundo e sentido sentimento Europeísta, François Hollande poderá fazer, realmente, “ganhar a esquerda”.

 

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