12 de Março, 15 de Outubro, e o que vem depois

 

A alegria e optimismo do 12 de Março viraram frustração e revolta no 15 de Outubro. Ontem, no Porto, a cor negra imperava na manifestação que se deslocou da Praça da Batalha até à Avenida dos Aliados. Alguma tensão, várias declarações públicas de angústia e semblantes carregados caracterizaram a expressão Portuense do movimento global dos Indignados. A Polícia chegou mesmo a intervir para impedir o levantamento de uma bandeira anarquista no mastro em frente à Câmara Municipal (não foi a tempo de impedir a remoção da bandeira nacional).

 

Enquanto a 12 de Março, descia à Baixa Portuense, um grupo heterogéneo, incluindo cidadãos de todas as gerações, profissões, classes sociais e tendências políticas, ontem os movimentos alternativos assumiram mais preponderância. Ao invés do desemprego jovem e precariedade laboral, a democracia directa ou participativa foram a nota dominante. Neste sentido, a geração à rasca Portuguesa transplanta os motes do 15 de Maio Espanhol e parece ter, no curto prazo, condições semelhantes de crescimento.

 

Não hajam dúvidas de que, sob o manto da indignação, a vontade de compromisso e superação colectiva estavam lá. Mas o ensaio da democracia directa, sob a forma de assembleias populares, é insuficiente para canalizar a angústia colectiva no sentido de um projecto político concreto. E entre bandeiras da Confederação Espanhola, boinas Cubanas e panfletos do movimento Zeitgeist, é difícil descortinar a emergência de um programa político coerente ou consensual.

 

Assim, como acontece em Espanha e nos Estados Unidos, o eco daquela contestação social deve fazer-se sentir no nosso sistema político-partidário e em cheio sob o “arco da governabilidade”. O 15 M Espanhol também começou como um protesto de nicho, mas acabou por ter repercussão junto do Partido Socialista Operário Espanhol. Na apresentação da sua candidatura às próximas eleições legislativas pelo PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba pedia por “circunscrições eleitorais mais pequenas, que favoreçam a relação entre o representante e o representado” e “a canalização de fundos da banca e das sociedades financeiras para o combate ao desemprego jovem”, correspondendo com as principais exigências dos Indignados Espanhóis. De forma semelhante, o movimento “Occupy Wall Street” cresceu desde um movimento de contestação civil, pouco divulgado, para hoje ser apoiado por personalidades do relevo de Nacy Pelosi, Al Gore e Bill Clinton e mesmo suportado pela logística do Partido Democrata. Uma sondagem recente da TIME indica que cerca de 54% da população Norte-Americana é favorável ao movimento, que visa a responsabilização judicial e regulação governamental do sistema financeiro de Wall Street.

 

Tendo em conta que a coligação da Direita Portuguesa não o vai fazer, é necessário que as cúpulas do Partido Socialista abracem os Indignados Portugueses. Não no sentido de capitalizarem eleitoralmente no seu descontentamento, recrutarem os seus adeptos, ou demonstrarem “simpatia” simbólica para com a sua angústia, mas de concretizarem os seus objectivos genéricos em propostas políticas. Nomeadamente, propondo modelos de governação que promovam a participação cívica e aproximem os cidadãos dos seus representantes políticos, em nome de uma democracia mais plural e participativa em Portugal. A alternativa passa pelo agravamento da insatisfação social e da falta de identificação com o sistema democrático Português que, por sua vez, conduzem à sua erosão.

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