Nostalgia Presidencial

 

Há uns dias, enquanto folheava “A Festa de um Sonho” (livro de Jorge Sampaio, que data de 1991) fui assolado por uma nostalgia inquietante. Não, não foi a saudade de ter um Presidente da República com a capacidade de exercer o seu cargo, como tinha Jorge Sampaio, que se apoderou de mim. Ainda que esse sentimento “me visite” com bastante frequência! Nesta ocasião, senti a saudade de viver num País onde qualquer membro da Assembleia da República pudesse proferir um discurso semelhante ao que Jorge Sampaio realizou, aquando da reeleição de Mário Soares para a Presidência da República.

 

Citando Jorge Sampaio: “Sr. Presidente, Srs. Deputados: É natural que comece por assinalar as eleições presidenciais de Domingo último, desde logo para saudar a notável vitória de Mário Soares, socialista de uma vida inteira. Ele demonstrou, no exercício do seu alto cargo, a isenção institucional do democrata, que é, aliás, a primeira convicção de um socialista. Por isso, quando o sufrágio o consagrou e ele falou à multidão, foi com orgulho que nós, no MASP, o ouvimos dizer: “O MASP extinguiu-se hoje aqui”. Isto é sentido de Estado”. De referir que o MASP tinha sido, naquela eleição, o movimento de apoio à candidatura de Mário Soares (“Movimento de Apoio Soares Presidente”).

 

Qualquer deputado que, nos dias que correm, se dirigisse ao Presidente da República felicitando-o pela sua capacidade de isenção institucional, estaria a ser desonesto. A isenção e a imparcialidade, que devem estar presentes na actuação de um Presidente da República, deixaram de ser princípios orientadores da sua acção, no segundo mandato do Presidente Cavaco Silva. Onde se encontra, actualmente, o Presidente que, na sua tomada de posse, disse que “existiam limites para os sacrifícios que se podiam exigir ao comum dos cidadãos”? Porque não se ouve a sua voz, reafirmando que “os Portugueses não são uma estatística abstracta”? Onde param a “justa distribuição dos sacríficios” e o “combate firme à desigualdade e à pobreza”, para os quais o Presidente da República chamou à atenção no passado dia 9 de Março? A única explicação que consigo encontrar é que, no dia 5 de Junho, os Portugueses tenham votado não só em Pedro Passos Coelho, mas também numa nova forma de “exercer a Magistratura”. Passámos de uma “Magistratura activa, bastante audível, que não se resignava com a situação do País”, para uma “Magistratura passiva, quase muda, onde até as agências de rating passaram a ser (finalmente!) o principal inimigo da Nação”. Aquilo que lamento, é a minha fraca memória, que não me permite recordar, onde, naquele pedaço de papel que me foi fornecido na secção de voto, se encontrava o quadrado para votar na “forma de exercer a Magistratura” que me parecia mais adequada.

 

Confesso ainda, que lamento o facto de o actual Presidente da República Portuguesa se andar a esquecer da 12ª linha do seu discurso de tomada de posse. Passo a transcrever: “De todos serei Presidente”. Infelizmente, a ausência de vontade em ser amigo de “Aníbal Cavaco Silva” no facebook, limita-me o acesso directo às comunicações que são feitas à Nação. Nunca me ensinaram que este era um dever de um cidadão Português. As minhas avós, coitadas, ainda não se aperceberam da obrigatoriedade de terem uma conta no facebook, de forma a acederem, directamente, às mensagens emitidas pelo “Presidente de todos Portugueses” (e pensavam elas que o facebook era um mero sítio onde a “catraida” se conhece, e as senhoras maduras gerem as quintas que nunca puderam ter. Pura ingenuidade!).

 

Que saudades de ter um Presidente da República, que em tempos difíceis como os que vivemos, dava a cara nas comunicações à Nação! Que através da sua expressão facial fazia os Portugueses acreditarem na sua genuína solidariedade para com os que mais sofrem durante os períodos de crise! Que saudades de um Presidente imparcial, que não orientava a sua acção conforme o Partido que está no Governo! Comecei este texto, confessando o meu lado emocional, e garantindo que o sentimento que me abalava não estava relacionado com as saudades que sinto da forma de presidir de Jorge Sampaio. No entanto, e desculpem-me a fraqueza mas, após esta reflexão, o sentimento de nostalgia em relação a esses tempos voltou a “visitar-me”.

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