A Nova Vaga do Socialismo Europeu: Epílogo

 

Junho de 2015. Lisboa, final da tarde de um Domingo soalheiro. No 13º andar do Hotel Altis, reúne-se o estado-maior do Partido Socialista. Aguardam-se os resultados das eleições legislativas Portuguesas, tendo em vista a formação do XX Governo Constitucional. Das alturas de Belém, com vista sobre o Tejo, o ambiente adensa da expectativa e nervosismo. Alguns dirigentes Socialistas teclam furiosamente os portáteis, outros fumam compulsivamente, todos têm dois, três telemóveis à mão, desdobrando-se por contactos, assessores, imprensa, estruturas locais, amigos e familiares. Já conhecem os números das sondagens à boca das urnas.

 

António José Seguro, mangas arregaçadas, olhar incisivo, voz lacónica, concentra as atenções. Os seus esforços dedicam-se ao esclarecimento do resultado eleitoral nacional. Gesticula animadamente, atenta nos números pululando das diferentes circunscrições, troca impressões com o seu núcleo de confiança. Por vezes, pausa silencioso, remove os óculos, limpa-os lentamente.

 

O seu percurso como secretário-geral do Partido Socialista começa no Verão de 2011. Na sequência de uma derrota eleitoral pesada para o PS, da formação de um governo de Direita suportado por uma maioria parlamentar absoluta, na antecâmara da viragem à Direita da vizinha Espanha e, ainda, com sondagens muito, muito desfavoráveis, eram poucos os que lhe adivinhavam um futuro radioso. Os oráculos prescreviam a António José Seguro as funções da passagem do testemunho, e pouco mais.

 

As vozes mais avisadas não contaram, no entanto, com três factores mais um. O agravamento da conflitualidade social em Portugal. A falta de preparação da coligação PSD – PP para a governação do País. A redefinição do paradigma político da União Europeia. E, o mais importante, a capacidade de António José Seguro em mobilizar a esperança do País, definindo um projecto honesto e coerente, que correspondesse às preocupações mais prementes da população Portuguesa.

 

Os primeiros meses da governação de Passos Coelho pareceram tirados a papel químico do início do executivo de David Cameron, no Reino Unido. A série de medidas da austeridade fiscal, desfiada ao longo do Verão e Outono de 2011, engatou a contestação social, com um número recorde de funcionários públicos, desempregados, estudantes, trabalhadores precários, a acorreram às ruas a partir de Setembro de 2011, protestando contra o sufoco da classe média e o aumento da exclusão e desigualdade social. Como em Espanha, o activismo jovem arrancou impressionante, em nome da qualidade da educação pública, das condições de empregabilidade e clamando por modelos de governação mais próximos dos cidadãos.

 

Ao contexto da crise socioeconómica, o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas acrescentou a sua própria indefinição programática, inexperiência executiva e desagregação interna. Logo no início de Setembro, ouviam-se os barões Social-Democratas e Democratas-Cristãos a criticar publicamente o executivo. Tardavam as muito propaladas medidas de corte da despesa, e o agravamento dos impostos só atrofiava o crescimento económico. As bases ideológicas da Direita Portuguesa, tanto as liberais como as conservadoras, estavam indignadas. Não faltaria muito para que surgissem as divergências entre os ministros da coligação, públicas e fulminantes. E as remodelações governamentais.

 

Simultaneamente, o Partido Popular Europeu, a família política do PSD e PP, ia perdendo fôlego, varrido das principais capitais do Velho Continente por uma nova vaga de dirigentes Socialistas e Verdes. Em Maio de 2012, o Presidente Francês Nicolas Sarkozy perdia a renovação do seu mandato. Em Abril de 2013, saía de cena o primeiro-ministro Italiano Silvio Berlusconi. Ambos com índices abissais de impopularidade. Em Outubro de 2013, talvez a mais surpreendente e determinante, derrota eleitoral da Chanceler Alemã Angela Merkel. As nações da França, Itália e Alemanha eram agora governadas por coligações Socialistas – Verdes.

 

Na ressaca da crise do capitalismo especulativo, da crise das dívidas soberanas, do agravamento do desemprego e da exclusão social na Europa, além do inquietante crescimento do isolacionismo, nacionalismos e movimentos xenófobos, todo o agastamento para com uma liderança desorientada levava o eleitorado Europeu a virar-se à Esquerda. E a votar numa promissora nova geração, Aubry, Vendola, Steinbrück, Miliband, que prometia retomar os princípios basilares do Socialismo Democrático, em nome da coesão e solidariedade social, da afirmação da democracia participativa, da regulação pública dos mercados, da primazia dos direitos laborais ao capital, pela sustentabilidade ambiental, acesso à educação e saúde e universalização dos demais direitos fundamentais.

 

Enfim, um novo antigo conceito da União Política e Económica Europeia, assente na cooperação em detrimento da competição, solidariedade entre nações ricas e pobres, classes sociais privilegiadas e desprovidas, para a minimização das disparidades e maximização das reciprocidades.

 

Um conceito reactualizado pelas temáticas emergentes do século XXI, a sustentabilidade ambiental e a economia social, confluindo na definição de novos modelos de organização, social, política, económica e profissional, orientados para comunidades auto-suficientes, tecnologicamente sofisticadas e economicamente florescentes, simultaneamente emancipadoras, inclusivas e solidárias. As bandeiras privilegiadas da família política dos Verdes que, conquistando paulatinamente posições de destaque na Alemanha, Itália e França, influenciavam determinantemente o pensamento e actuação da família Socialista, Social-Democrata e Trabalhista e, consecutivamente, o novo paradigma de governação da União Europeia.

 

António José Seguro aparecia agora como o representante Português desta geração. A Nova Vaga do Socialismo Europeu. Defendendo a taxação da actividade financeira, das grandes fortunas e sinais de riqueza; na subida dos salários mais baixos e defesa dos modelos da cidadania activa. Algumas das vias possíveis para colmatar a desigualdade social, o drama mais aflitivo da sociedade Portuguesa. António José Seguro assumia as mesmas bandeiras dos seus correligionários Socialistas Europeus, que os haviam levado, consecutivamente, aos principais governos da Europa. E a resposta popular foi positiva.

 

Junho de 2015. No alto do Hotel Altis, com vista sobre o Tejo, aguarda-se o desfecho dessa aventura, iniciada no distante Verão de 2011. Comenta-se a recente vitória eleitoral de Ed Miliband, no Reino Unido. Mais um prenúncio favorável. António José Seguro e o seu núcleo político estão prestes a saber se o novo ciclo político da União Europeia, do Socialismo Democrático Europeu e do Partido Socialista, também convenceu o País. Se a Nova Vaga do Socialismo Europeu também chega a Portugal. Seguro recoloca os óculos no rosto, inspira e regressa ao burburinho circundante. Falta pouco.

 

“O passado é um prólogo.” (William Shakespeare)

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