A Aurora da Dinamarca

No passado dia 26 de Agosto, o actual Primeiro-Ministro Dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, liberal de centro-direita, anunciou ao País a antecipação das eleições legislativas para o próximo dia 15 de Setembro. A justificação apresentada para a realização do acto eleitoral, inicialmente apontado para Novembro, prendeu-se com a necessidade de um novo Parlamento votar o recentemente apresentado plano de relançamento da economia Dinamarquesa. Plano este, que nem foi bem aceite pela própria base parlamentar do Governo.

 

Rasmussen apresenta-se a eleições muito desgastado politicamente, não só pela crise económica com que o País Escandinavo se debate, mas também pela forma como, em 2009, alcançou o poder. Após o abandono do cargo de Primeiro-Ministro por parte de Anders Fogh Rasmussen, a 5 de Abril de 2009, para assumir a posição de Secretário-Geral da Nato, Lars Rasmussen não precisou de se submeter à votação dos Dinamarqueses. O apoio de Pia Kjaersgaard, líder do conservador e populista Partido do Povo Dinamarquês, foi suficiente para Lars Rasmussen suceder a Andres Rasmussen, enquanto líder de um Governo Conservador-Liberal. Ainda que, na altura, as sondagens reflectissem a vontade da população Dinamarquesa em ter eleições e, consequentemente, eleger Helle Thorning-Schmidt, como Primeira-ministra do País.

 

Helle Thorning-Schmidt é a líder do Partido Social-Democrata desde 12 de Abril de 2005, após ter vencido as eleições internas contra Frank Jensen. Esta disputa eleitoral aconteceu na sequência da derrota dos Sociais-democratas, nas eleições Parlamentares de 2005. Na altura, Thorning-Schmidt era vista como a candidata da ala moderada, enquanto Frank Jensen era considerado o dirigente político mais à esquerda. Mestre em Ciência Política, pela Universidade de Copenhaga, e em Estudos Europeus, pelo “Colégio da Europa”, Thorning-Schmidt construiu o seu percurso político no Parlamento Europeu, onde ocupou o cargo de deputada, entre 1999 e 2004. A 13 de Novembro de 2007, apresentou-se pela primeira vez a eleições, enquanto candidata do Partido Social-Democrata. Durante a campanha, as suas grandes bandeiras tiveram por base a oposição à redução de impostos, comprometendo-se com o aumento das quantias gastas com o “welfare state”; a promessa de diminuição das restrições impostas aos imigrantes e exilados; e, ainda, no combate ao aquecimento global, através de uma forte aposta nas energias renováveis. No entanto, estas linhas orientadoras não se revelaram suficientemente convincentes para merecerem a confiança dos Dinamarqueses. O Partido Social-Democrata obteve em 2007, 25,5% dos votos, contra os 26,2% do Partido Liberal (Venstre), liderado pelo então Primeiro-ministro Anders Rasmussen, que já concorria a um terceiro mandato consecutivo. Ainda que tenha sido um resultado muito próximo (uma diferença de, sensivelmente, 27.400 votos), Thorning-Schmidt perdeu a oportunidade de se tornar na primeira mulher a assumir os destinos da Dinamarca. Agora, após conduzir o Partido na oposição durante os últimos 4 anos, a líder dos Sociais-Democratas encontra uma nova oportunidade para inscrever o seu nome na História do País, nas próximas eleições de 15 de Setembro.

 

Conhecida pelo seu eficaz sistema social, que, outrora, equilibrava o País entre a flexibilidade para o empregador, e a segurança para o trabalhador, a economia Dinamarquesa confronta-se, hoje, com problemas similares aos que enfrentam outros Países Europeus, e também os Estados Unidos. A crise económica teve um grande impacto sobre uma economia muito dependente do comércio internacional. Já em 2009, os indices de cariz económico eram preocupantes, com a diminuição da actividade do sector privado em 20%, que levou a um número histórico de falências. O caso mais emblemático acabou por ser o término de actividade da Sterling Airways, uma companhia aérea low-cost. As respostas encontradas pelo Governo Conservador-Liberal, para fazer face aos problemas, centraram-se no desmantelamento dos mecanismos que constituem o “welfare-state”, com a consequente fragilização do Estado. Os resultados desde tipo de medidas revelaram-se ineficazes, sendo que, actualmente, o sector Bancário Dinamarquês enfrenta problemas sérios, que culminaram na falência de, praticamente, uma dezena de bancos, desde a crise de 2008. Com a previsão de um défice nas finanças públicas no valor de 16,4 biliões de dolares, em 2012; e de um lento crescimento do consumo privado, acompanhado pelo aumento do número de desempregados, o resultado das eleições deverá ser definido pelas questões económicas.

 

Prevê-se, portanto, que esta volte a ser uma “eleição clássica esquerda versus direita”. De um lado, o Partido Liberal a clamar por responsabilidade no combate ao défice. Do outro, o Partido Social-Democrata a defender políticas de investimento público que fomentem o crescimento económico, salvaguardando o “welfare-state” e diminuindo a taxa de desemprego. A questão da imigração, que dominou o debate político nas últimas eleições, terá, previsivelmente, um papel menor.

 

Num conjunto de sondagens realizadas desde Fevereiro de 2010, as perspectivas são optimistas para Thorning-Schmidt e para a coligação que engloba os Sociais-Democratas, o Partido do Povo Socialista, e o Partido Social-Liberal. Todavia, e não obstante o facto de esta coligação aparecer sempre à frente, verifica-se uma tendência decrescente nas intenções de voto no Partido Social-Democrata. Se a 4 de Fevereiro, as sondagens indicavam uma diferença de 10% entre Sociais-Democratas e Liberais, a última sondagem, de 1 de Setembro, revela apenas uma diferença de 0,2%. A tradição indica que nenhum Governo Dinamarquês se prolonga, no activo, mais do que 10 anos. Será que os Sociais-Democratas conseguirão fazer valer a História a seu favor, pondo termo a uma década de governação Conservadora-Liberal? E, mais importante, será que Thorning-Schmidt se poderá tornar na “nova Aurora da Dinamarca”, iniciando o tão aguardado ciclo de Governos Europeus de centro-esquerda?

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