Uma aurora na Madeira

Chega! Já ninguém atura a pândega do arquipélago madeirense. E não me refiro ao carnaval, que esse já lá vai no calendário, refiro-me à forma, também ela carnavalesca é certo, como tem sido governada a Região Autónoma da Madeira. É a altura de por cobro à situação que, paulatinamente, tem vindo a demonstrar que quando pensávamos que o limite do absurdo tinha sido atingido, logo o Presidente do Governo Regional da Madeira trata de elevar a fasquia. E, para isso, os madeirenses terão, no próximo dia 9 de Outubro, ao seu dispor aquele instrumento que, na expressão de um ex-presidente norte–americano, tem o mesmo poder de uma arma, o voto. Serão chamados às urnas e espera-se que, desta feita, uma aurora chegue à Madeira, algo de novo, que rompa com o passado.

 

Dirão os mais incautos que isso aos madeirenses dirá respeito. Porém, a nós também nos diz respeito na medida em que todos os portugueses são chamados a pagar a factura com o agravamento do défice e com a necessidade de medidas de austeridade para controlar o mesmo.

 

Aos já crónicos exemplos de controlo da imprensa madeirense pelo Governo Regional, à falta de cultura democrática a fazer lembrar o exercício do poder por uma “democracia musculada”, soma-se agora aquilo que já há muito se antevia. O desequilíbrio absoluto das contas públicas da Madeira. Em meados de Agosto a “Troika” tinha levantado o véu. Mas, hoje, a Comissão Europeia (CE) mostrou que o rei vai nu ao anunciar o descontrolo das contas públicas na Madeira. Coisa pouca, apenas duplica a despesa prevista! Dos 223 milhões de euros passamos agora para 500 milhões de euros! É o descalabro total. Corresponde a um agravamento do défice português em cerca de 0,3 por cento do PIB.

 

Segundo as informações da CE o agravamento tem origem na dívida da Estradas da Madeira, uma empresa do Governo Regional em situação de debilidade financeira e no cancelamento de uma parceira público privada (sempre as ppp’s nestas embrulhadas!).

 

É certo que a Madeira, actualmente, se encontra bem equipada, dirão os defensores de Alberto João Jardim. É a cultura do betão no seu melhor a que não são alheias, certamente, algumas suspeições de promiscuidade entre algumas empresas construtoras, alguns elementos da cúpula do PSD regional e o próprio governo regional. Foi em boa parte graças a este tipo de investimento e de derramamento de dinheiro que a Madeira se tornou,a par de Lisboa e Vale do Tejo, uma das regiões do país com o PIB per capita mais elevado. No entanto, na mesma Madeira subsistem situações de pobreza extrema. E é com este tipo de governação que urge romper. Não podem ser esquecidos cidadãos, pessoas no fosso da pobreza. E também a solidariedade regional com o continente e com os Açores não pode ser descurada. Assim como a solidariedade inter-geracional. Quantas gerações irão pagar esta dívida e com isso ver a sua qualidade de vida posta em causa?

 

E onde está o PSD a condenar esta governação madeirense, a imagem de marca do PSD-Madeira? Demasiado entretido a tentar perceber o que há-de fazer a este país, agora que chegou ao poder demonstrando impreparação para governar e falhando com o que se comprometeu junto do eleitorado, submete-se ao silêncio tentando passar despercebido.

 

Não me sai da memória a reportagem sobre a Festa do Pontal de 2011, do PSD-Madeira, onde o chorrilho de insultos e alarvidades culminou com as diatribes jardinistas de dedo do meio da mão em riste, em sinal obsceno portanto. Parece que a Alberto João tudo lhe é tolerado.

 

E a vocês que são amigos do Presidente da República no Facebook pergunto-vos se nas suas comunicações nessa rede social se se lhe leu alguma palavra de repúdio pelo que se passa na Madeira? É que este cultor do silêncio nada disse aos portugueses, também, sobre este tema. Ainda não repudiou este estado de coisas. Porquê? É legítima a questão. Tanto mais quando se trata de um Presidente que demonstrou enormes preocupações com as autonomias, estando todos lembrados do seu comportamento face ao Estatuto dos Açores.

 

Alguns acenam logo com os desejos de independência da Madeira. Não, esse não é o caminho. A Madeira faz parte da República Portuguesa e assim desejámos que continue. Não faria qualquer sentido a sua independência e, por exemplo, qualquer auditor de Defesa Nacional o sabe muito bem.

 

O esforço a que todos os portugueses estão submetidos, a que todo o país está sujeito, não pode ser colocado em causa pela insanidade política de alguém que já há muito deveria estar arredado do poder. É tempo de a Madeira respirar outro ar. É tempo de a Madeira abrir horizontes, de ser solidária com o esforço nacional ao invés de remar em sentido contrário.

 

E se a Madeira é um jardim, então que a rosa aí floresça finalmente.

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