Os Novos Rostos do Socialismo Europeu: Carme Chacón

 

Em Espanha, recapitula-se uma narrativa já nossa conhecida. A crise económica e a insatisfação social ditam o fim de um executivo Socialista. O primeiro-ministro, José Luís Rodriguez Zapatero, não aguentou a pressão política, desde parte do seu próprio partido, da oposição, dos sindicatos, empresários, banqueiros, jornais, rua, e demitiu-se. O palco foi deixado para Alfredo Pérez Rubalcaba, candidato do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) às próximas eleições legislativas. As expectativas mais optimistas atribuem-lhe uma derrota digna.

 

O Editorial de 18 de Julho de 2011 do “El País” foi contundente: “Existem motivos mais do que fundamentados para a intranquilidade, patentes tanto nas manifestações dos indignados, como nos resultados eleitorais das recentes eleições.” As eleições regionais Espanholas de Maio de 2011, que resultaram na derrota avassaladora do PSOE, já haviam demonstrado o grau de insatisfação com o executivo de Zapatero, nomeadamente com as suas políticas de austeridade e incapacidade para ultrapassar os índices dramáticos da crise socioeconómica. O primeiro de todos, cinco milhões de desempregados, uma taxa de 21% em relação à população activa. Nas eleições regionais, o PSOE teve menos um milhão e meio de votos do que nas precedentes e perdeu em todos os círculos eleitorais, incluindo nos bastiões da Estremadura e Castela-Mancha. A conclusão do “El País”: “Se Zapatero quer fazer um último serviço ao país deve abandonar o poder quanto antes.”

 

Na semana seguinte, Zapatero anunciava a antecipação das eleições legislativas para Novembro de 2011. Mantinha-se ao leme do PSOE, mas a visibilidade era transferida para o seu vice, Pérez Rubalcaba. Veterano Socialista, dos círculos de confiança de Felipe Gonzaléz, Joaquín Almunia e Zapatero, Rubalcaba ganhou notoriedade como Ministro do Interior de Zapatero, particularmente pelas suas acções em prol da neutralização da ETA (uma das maiores vitórias do executivo).

 

Sem renegar o seu legado, Rubalcaba crivou uma proposta política à esquerda de Zapatero. Em sintonia com a nova vaga de dirigentes Socialistas Europeus (Martine Aubry, Ed Milliband) comprometeu-se a regressar aos princípios do socialismo democrático Europeu. O momento seminal ocorreu a 9 de Julho, aquando da apresentação oficial da sua candidatura aos dirigentes Socialistas, no Palácio Municipal dos Congressos de Madrid. No que foi entendido como um piscar de olho ao movimento 15 de Maio, exigiu a canalização de fundos da banca e das sociedades financeiras para o combate ao desemprego jovem (“Os bancos e as caixas de aforro podem esperar, mas os jovens não.”). Também defendeu um novo imposto para os grandes proprietários. Mas a aproximação mais óbvia concretizou-se na proposta de um modelo de governação baseado em “circunscrições eleitorais mais pequenas, que favoreçam a relação entre o representante e o representado…” No plano Europeu, comprometeu-se em pugnar pela instituição de agências de classificação de risco alternativas às norte-americanas, a abolição das zonas francas, e um imposto internacional sobre a actividade financeira.

 

Simultaneamente, procurou manter o registo ortodoxo, comprometendo-se em prosseguir as políticas de austeridade, redução do défice orçamental, controlo da inflação, liberalização dos mercados e flexibilização do código laboral.

 

É enfim a quadratura do círculo, passar uma mensagem da renovação e esperança, simultaneamente mantendo uma coerência programática com o passado recente. Pelas últimas sondagens (33/36% para o PSOE, 43/44% para o PP) e, até, pela analogia com a recente experiência Portuguesa, não parece possível evitar a derrota. E a eleição do líder do PP, Mariano Rajoy, como próximo primeiro-ministro de Espanha.

 

Entre os 2.000 Socialistas que assistiram à apresentação de Rubalcaba, encontrava-se a ministra da Defesa, Carme Chacón. Estrela ascendente Catalã, Chacón é a ministra mais popular do segundo executivo de Zapatero. A sua imagem memorável, em Abril de 2008, a realizar uma inspecção militar, quando se encontrava grávida de 7 meses, correu Mundo. Jovem e determinada, tornou-se num modelo para a mulher moderna Espanhola e num símbolo das políticas de paridade de género implementadas por Zapatero. Se Rubalcaba se quiser manter ao leme do PSOE depois da derrota de Novembro, encontrará em Chacón, a provável adversária interna.

 

Em 26 de Maio, Chacón havia anunciado a sua indisponibilidade para concorrer à liderança do PSOE. Num tom carregado, declarava: “Considero que hoje devo dar um passo atrás para que o PSOE dê um passo em frente.” Evitava assim um congresso extraordinário e a luta fratricida dos Socialistas. Aparentemente, não resistiu à imposição do nome de Rubalcaba pelos líderes regionais do PSOE. Adiou, mas não comprometeu, a esperança de um dia concorrer à liderança do Partido.

 

Dedicou uma porção significativa do seu discurso de concessão ao seu projecto político: “Queria encabeçar um projecto que recuperasse e actualizasse os sinais de identidade da social-democracia e concretizasse os objectivos da Igualdade e Justiça num contexto de crise.” Referiu o combate ao desemprego jovem, da autonomia da política face aos poderes económicos, da distribuição equitativa dos sacrifícios em tempos de crise, de garantir “a dignidade e o prestígio da política, tal como têm reclamado milhares de cidadãos nas urnas e também nas ruas”, falou em abrir espaços de participação social, preservar os direitos dos grupos desfavorecidos. E de “corrigir os erros que tenhamos cometido e de que me considero tão responsável como os demais.” Palavras que ecoaram na mensagem posterior de Rubalcaba.

 

Ambos os dirigentes Socialistas apelam evidentemente às preocupações mais prementes dos Espanhóis, a braços com a desagregação da economia, a clivagem social, subida do custo de vida, desemprego, e o prenúncio de uma intervenção económica externa. Reflectem igualmente uma influência directa do movimento do 15 de Maio, na defesa de modelos de governação mais próximos dos cidadãos, que contrariem a partidarização da política, promovam a cidadania activa e a democracia participativa. Uma tendência que se tem vindo a afirmar em outros Partidos Socialistas e Verdes Europeus e que, previsivelmente, se irá consolidar no próximo ciclo político. Incluindo, em Portugal.

 

De qualquer modo, não parece que, desta vez, o PSOE consiga convencer o eleitorado Espanhol. A tal quadratura do círculo, apresentar-se como a melhor oportunidade de um futuro auspicioso, quando se conduziu o governo do País nos últimos anos e se implementou uma série de medidas impopulares, é uma tarefa inglória. Que o diga José Sócrates. Ainda para mais, quando o candidato Rubalcaba foi o número dois de Zapatero e tem, na sua conta pessoal, dez anos de actividade governativa. Repetindo o exemplo Português, Espanha deve assim virar à Direita em Novembro próximo.

 

Nos próximos anos, França, Itália e Alemanha, voltam-se no sentido oposto (cf. Artigos anteriores). E virá então uma melhor oportunidade para o PSOE. Talvez com Rubalcaba ao leme mas, mais provavelmente, com a liderança e mensagem renovadas por Carme Chacón.

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