Estado de Graça

 

O Governo Português, actualmente em funções, goza por estes dias o seu “Estado de Graça”. Mais do que pela ausência de motivos para contestar o que até agora foi feito, este momento deve-se, essencialmente, a três factores.

 

Em primeiro lugar, a aparente timidez com que a oposição tem reagido, perante as sucessivas medidas que têm sido anunciadas. Demasiado preso ao acordo assinado com a Troika, o Partido Socialista ainda não afirmou o que, realmente, o distingue do caminho que tem sido traçado pela coligação de direita. O PCP e o Bloco de Esquerda, porventura estão com o peso na consciência de terem aberto caminho à afirmação deste tipo de políticas, que vão mais além do que foi assinado com as instituições internacionais. Em segundo lugar, não o Governo, mas alguns dos seus membros foram a banhos por estes dias. Entre curtas reflexões facebookianas e mergulhos no tórrido e escaldante Algarve, os nossos Governantes gozaram o seu próprio estado de graça. Finalmente, o tempo é de férias, e muitos Portugueses preferem recuperar energias, alheando-se das “más novas”, de forma a enfrentar o difícil ano que terão pela frente.

 

Mas este “Estado de Graça” assumiu, com a chegada deste Governo, um duplo significado. É que este Executivo, gozando o seu “Estado de Graça” procura tornar o nosso Estado de graça. Desde logo, prestemos atenção à forma como o Banco Angolano, BIC, adquiriu o BPN. Tanto empenho do anterior Governo, para que a hipotética falência deste banco não degenerasse numa crise do sector bancário Português e, afinal de contas, ficamos a saber que o BPN só vale mais dez milhões do que o Fábio Coentrão. Simultaneamente, o Governo decretou o fim dos seus direitos especiais em algumas empresas, as conhecidas golden shares. O preconceito ideológico, assente no radicalismo liberal, levou a que se pusesse termo a um instrumento concebido em plena “revolução conservadora”. Abdicou-se de um poderoso instrumento de regulação, em troca de nada. Brevemente, começarão a ser privatizadas algumas empresas como a TAP, CTT, EDP, Galp e REN. Aguardemos para constatar se o Governo continua com esta política de desmantelamento do Estado ao desbarato.

 

Ainda que o momento não seja propício a grandes gargalhadas, este começa a ser o “Estado da Graça”. Há uns dias, foi agendada uma conferência onde, teoricamente, seria anunciada “a dieta para cortar nas gorduras do Estado”. Em vez de tal ter acontecido, o Ministro das Finanças anunciou a antecipação do aumento do IVA na electricidade e no gás. Depois, do anunciado imposto sobre o subsídio de Natal, o Governo continuou a pedir mais sacrifícios aos Portugueses, sem demonstrar o mesmo esforço por parte do Estado. Se recuarmos no tempo e ouvirmos as declarações de alguns dos actuais Ministros, compreendemos a enorme incoerência contida destas medidas: “Não se podem pedir mais sacrifícios aos Portugueses”, “1/3 na receita, 2/3 na despesa”, “O Governo tem que cortar nas gorduras do Estado”.

 

Até agora, além de directivas que proíbem o uso de gravatas, ou de teóricas e demagógicas, reduções de nomeações, pouco ou nada se viu, em matéria de corte na despesa. Já no lado do aumento da receita, a situação é diametralmente oposta. Pode ser que, porventura, até esteja a ser injusto e os nossos Ministros continuem a estudar arduamente os cortes nas “gorduras do Estado”. Às tantas, até estarão a rever os episódios do “Peso Pesado”, de forma a compreenderem como é possível perder tanta gordura em tão pouco tempo, e eu, aqui, a vilipendiá-los. No entanto, perdoem-me, mas acho cada vez menos graça a este “Estado”!

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