Em memória de Utoya

Os dias que já passaram sobre os sangrentos e bárbaros ataques que colocaram a Noruega em estado de choque e, com ela, o mundo não foram ainda suficientes para deixar de fazer sentido verter aqui estas linhas. Estas representam um sinal de solidariedade para com os noruegueses, muito em particular para com os elementos do partido trabalhista norueguês, e da AUF, a sua organização de juventude de quem nos sentimos ideologicamente muito próximos.

 

Um dos mais devastadores ataques que na Europa se perpetrou depois da II Grande Guerra Mundial produziu uma cifra negra de dezenas de mortos. A acção é levada a cabo com uma frieza tremenda, crime horrendo preparado e cometido solitariamente. Insólitos estes contornos. Bastou apenas um para desfazer tantas vidas. Sobretudo de jovens, cujo único “erro” que ousaram cometer foi admitir que queriam viver num mundo onde a diferença fosse respeitada, ao ponto de não sentirem qualquer superioridade face aos demais povos do mundo. Acreditar num Humanismo global, na fraternidade universal entre os povos e na sua sã convivência, no multiculturalismo. Por fazerem um desafio da inclusão da diferença e não uma impossibilidade de cariz dogmático. Por nesse convívio de culturas vislumbrarem um enorme ganho e uma partilha e não uma cedência.

 

Ninguém ficou indiferente ao ver imagens devastadoras que nem descreverei. São imagens que nos atormentam a todos. Que não esqueceremos.

 

Somos diariamente intoxicado com as notícias do mundo financeiro. As crises, os juros, a dívida pública, o incumprimento das obrigações internacionais. Creio que com tal poluição informativa nem nos aperceberemos de alguns sofrimentos da condição humana que ocorrem debaixo do nosso nariz. Que mundo este, onde os euros se sobrepõem à dignidade humana nos ratings das nossas preocupações! Contudo, por alguns dias, e mercê da brutalidade com que fomos confrontados, vimo-nos todos transportados para uma realidade onde estes nossos tormentos dos últimos tempos se nos afiguram menores perante uma atrocidade que foi cometida contra a Humanidade. Não foram apenas aqueles noruegueses que foram atacados, todos nós que defendemos o ideal de um mundo solidário e inclusivo no qual a diferença não seja uma fronteira fomos vítimas desse ataque.

 

Talvez outros temas se impusessem tratar agora, provavelmente a agenda mediática o impunha. Mas na Aurora não ficamos indiferentes à barbárie. Não poderíamos deixar de nos manifestar. Primeiro num sentido de pesar e de homenagem pela memória dos que foram impedidos de continuar o seu percurso e, depois, de repúdio por este tipo de actos.

 

Considerar inimputável alguém que escreve cerce de 1500 páginas de um manual de terror e executa minuciosamente o plano engendrado, dando provas de que será tudo menos um ser incapaz de compreender as consequências dos seus actos, não será certamente o caminho para repor a paz social e cumprir as finalidades de prevenção que estão associadas à norma penal.

 

Ficamos verdadeiramente indignados com o que se passou na Noruega. Mas como nos pede o humanista Stéphane Hessel, agora que já nos indignamos, temos de evoluir para a fase do empenhamento. Ao repto “Empenhai-vos” respondemos afirmativamente. E sim, iremos empenhar-nos também em perpetuar a memória de todos aqueles que faleceram às mãos do ódio. Mas de indignados e de empenhados nos ocuparemos noutro dia, noutro texto, hoje é importante que fiquemos com Utoya na memória.

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