Os Novos Rostos do Socialismo Europeu: Ed Miliband

 

No Reino Unido, a situação política é coincidente com as da Alemanha, Itália e França. O Primeiro-Ministro Conservador David Cameron conhece uma forte contestação social e sondagens desfavoráveis. E Ed Miliband, recém-eleito líder do Partido Trabalhista, afigura-se como o candidato favorito às Eleições Legislativas de Maio de 2015.

 

David Cameron teve direito a um Estado de Graça muito curto. Em Maio de 2010, o jovem líder do Partido Conservador estreava-se nas funções de primeiro-ministro do Reino Unido, em coligação com o Partido Liberal Democrata de Nick Clegg. E a 10 de Novembro já via dezenas de milhares de estudantes universitários acorrendo às ruas de Londres, em protesto contra os pesados cortes anunciados para o ensino superior público (triplicação das propinas universitárias e diminuição em 80% dos subsídios sociais). As imagens da ocupação da sede do Partido Conservador surpreenderam, particularmente pela sua semelhança com os protestos em Atenas. E foi apenas o início. Outras manifestações estudantis irromperam a 24 e 30 de Novembro e a 9 de Dezembro (esta última, incluindo a célebre vandalização da limusina do Príncipe Carlos).

 

A partir de Janeiro de 2011, foi a vez dos funcionários públicos saírem às ruas. Os motivos dos seus protestos prendiam-se com as duras medidas de austeridade financeira anunciadas pelo executivo Cameron. Defendiam que a redução do défice orçamental devia passar antes pela taxação da actividade financeira do que pela penalização do sector público e classe média. Entre manifestações, greves e paralisações sectoriais, contabilizaram-se três dezenas entre Janeiro e Junho de 2011. Números simplesmente impressionantes, até por representarem protestos contra um governo com menos de um ano de existência. A manifestação mais importante ocorreu a 26 de Março, designada da “Marcha pela Alternativa”, levando entre 250 000 a 500 000 pessoas às ruas de Londres. A maior manifestação que Londres conheceu, desde os protestos contra a Guerra do Iraque.

 

Finalmente, o escândalo das escutas do “News of the World”, que indiciou vários responsáveis do tablóide britânico pelo apadrinhamento de práticas criminosas, incluindo intercepção de comunicações pessoais e práticas de corrupção. Cameron surgiu associado ao accionista principal Rupert Murdoch, que apoiou publicamente a sua eleição, à ex-editora Rebeka Brooks, sua vizinha e amiga pessoal e, claro, ao ex-editor Andy Coulson, que contratou para ser seu director de Comunicações, já após a divulgação do escândalo.

 

Em simultâneo, as sondagens foram reflectindo um aumento crescente da popularidade do Partido Trabalhista. Os últimos números dão ao Partido Trabalhista, intenções de voto na ordem dos 40 / 44% e ao Partido Conservador, 34 / 37 %. São os melhores índices para os Trabalhistas desde 2002, ou seja, previamente à Guerra do Iraque e à subsequente falência política do New Labour.

 

E, se existe um responsável pela ressurgência do Partido Trabalhista ele é, sem dúvida, Ed Milliband, líder do Partido desde 25 de Setembro de 2010.

 

Tal como Martine Aubry em França, Ed Milliband difunde essa aura de guardião do socialismo primordial. Um herdeiro directo de Clement Attlee e da geração pós-Segunda Guerra Mundial, que construiu as bases do Estado Social Inglês. Milliband declarou forte oposição à Guerra do Iraque já em 2004, defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mais taxação às transacções financeiras, limites aos salários mais elevados, aumentos dos salários mais baixos e o fim das propinas universitárias. Os detractores designam-no de “Red Ed.” Marcou presença na “Marcha pela Alternativa” onde realizou uma sentida intervenção. Confrontou aí directamente o primeiro-ministro: “David Cameron, querias criar uma Grande Sociedade – esta é a Grande Sociedade. A Grande Sociedade unida contra o que o teu governo está a fazer ao nosso País.”

 

Na corrida à liderança do Partido Trabalhista, Ed Milliband foi apoiado pelos sindicatos e pela ala Esquerda do Partido. Depois da sua vitória tangencial, apenas 1.3% de diferença em relação ao irmão mais velho, David, mais alinhado com o New Labour, Ed Milliband chamou a si a tarefa de ultrapassar as fracturas internas e “psicodramas” do Trabalhismo. No discurso de vitória, abraçou o irmão, estendeu uma mão à herança de Tony Blair e Gordon Brown e, acima de tudo, transmitiu a necessária mensagem de renovação e esperança:

 

“Hoje, uma nova geração toma conta do Trabalhismo, uma geração que entende o apelo à mudança.” Ed Milliband tem 40 anos e é o líder mais novo do Partido Trabalhista desde a II Guerra Mundial.

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