Os Novos Rostos do Socialismo Europeu: Peer Steinbrück

 

 

Na Alemanha, as manifestações anti-nuclear, sondagens desfavoráveis e as recentes derrotas nas eleições estatais, reflectem a perda de popularidade do executivo conservador de Angela Merkel. Nas próximas eleições Federais, marcadas para Setembro e Outubro de 2013, antecipam-se a derrota da parelha CDU / CSU e a vitória da coligação SPD / Verdes.

 

As derivas políticas de Merkel, tanto sobre a opção nuclear como na reacção à crise das dívidas soberanas na Zona Euro, assinalam o estertor do seu consulado.

 

Primeiro, a decisão de Merkel em estender o prazo de validade das centrais nucleares Alemãs conheceu uma forte contestação popular no Outono de 2010, levando centenas de milhares de manifestantes às ruas de Berlim, Munique e Hamburgo, entre outras cidades. Com o recuo da decisão, subsequente ao desastre de Fukushima, Merkel minou a sua reputação de líder certeira e determinada. Em seu lugar, ficou a imagem de uma política sinuosa e populista. A consequência mais imediata foi a derrota do seu partido em várias eleições regionais de 2011, mais notavelmente no Estado de Baden-Wuerttemberg, governado pela CDU há sessenta anos.

 

Segundo, as hesitações em aprovar o primeiro pacote de ajuda financeira à Grécia e, em termos genéricos, de se assumir como uma defensora inequívoca da União Económica Europeia, custaram-lhe apoio e confiança dentro do seu próprio partido. Apesar da vocação conservadora, trata-se da mesma CDU de Konrad Adenauer e Helmut Kohl, com uma forte tradição europeísta.  Embora desmentida posteriormente, a frase mortífera “Ela está a destruir a minha Europa”, atribuída pelo “Der Spiegel” ao histórico Helmut Kohl, deixou mossa. Alegadamente, Merkel é ainda criticada em surdina pelo seu Ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, tido em Bruxelas como o “último Europeu do Governo Alemão.” Resta a Merkel o suporte dos euro-cépticos da CSU, a irmã Bávara da CDU, e dos liberais da FDP, actualmente reduzidos a uma nulidade eleitoral.

 

Simultaneamente, a esquerda Alemã encontra-se em franco ascendente. Foi animada pela popularidade surpreendente do partido “Verdes” que, combinando a forte consciência ambientalista com as bandeiras da tolerância e coesão social, conquistou uma fatia significativa do eleitorado Alemão. Filiados na tradição social-democrata Europeia, os Verdes têm servido de contraponto ao principal partido do centro-esquerda, o “SPD”, e para a extrema-esquerda do “Die Linke.” No entanto, apesar da sua forte representação eleitoral, intenções de voto na ordem dos 20% / 23%, os Verdes encontram-se demasiadamente divididos em facções internas, enfrentando grandes dificuldades para avançarem um candidato consensual.

 

Será assim do lado do centro-esquerda que surgirá o principal opositor a Angela Merkel. Ainda sem uma solução evidente, o SPD proporciona uma tríade de candidatos a candidato: Frank-Walter Steinmeier (na foto, à direita), Peer Steinbrück (à esquerda) e Sigmar Gabriel (ao centro), todos rodados no primeiro executivo de Merkel, da coligação CDU / SPD de 2005 – 2009. Os três causaram grande impacto com a sua conferência de imprensa conjunta na véspera da cimeira europeia extraordinária de 21 de Julho, onde viriam a ser aprovados o segundo pacote de ajuda financeira à Grécia e a flexibilização do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Os líderes do SPD ofereceram então um “presente envenenado” a Merkel, na forma de uma oferta de solidariedade partidária para quaisquer medidas necessárias à defesa do Euro e da coesão Europeia, mesmo que exigissem sacrifícios ao povo Alemão. O objectivo implícito era contrastar a atitude coesa, franca, pró-activa e europeísta do SPD com o registo vacilante e contraditório de Merkel. Resultou.

 

Os meses que se avizinham serão da clarificação do SPD e da emergência do seu candidato a Chanceler. Na referida conferência de imprensa, o protagonista foi Peer Steinbrück, Ministro das Finanças do primeiro governo de Merkel. Advertiu para a necessidade da reestruturação parcial da dívida grega, que viria a ser aprovada no dia seguinte, e defendeu um grande programa de investimentos públicos para os países periféricos da Zona Euro. Ou seja, (mais) um apoio significativo à implementação do “New Deal Europeu.”

 

Steinbrück é um pensador muito respeitado, especialmente no domínio económico, tendo sido o Ministro das Finanças que lidou com a crise financeira de 2008. É considerado o adversário mais credível para Angela Merkel. Mas existem ainda possibilidades para o líder do grupo parlamentar, Frank-Walter Steinmeier e para o Presidente do Partido, Sigmar Gabriel. Steinmeier tem o currículo político necessário, como antigo conselheiro de Gerhard Schröder e antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros de Merkel. No entanto, tem contra si uma série de acções controversas na diplomacia externa, por exemplo tendo-se recusado a reunir com o Dalai Lama em 2008, e já teve uma derrota abissal contra Merkel nas eleições Federais de 2009. Sigmar Gabriel, com um percurso mais modesto, o seu cargo mais notável foi o de Ministro do Ambiente do primeiro governo Merkel, parece ser o que tem menos hipóteses dos três.

 

As sondagens dão ao SPD intenções de voto na ordem dos 25 / 29%, que em combinação com as intenções nos Verdes, permitem uma margem muito confortável para a vitória da coligação “vermelha – verde” em 2013. Concretizando-se este cenário, podemos prever que, em dois anos, a orientação política da Alemanha regressa a um sentido mais europeísta. Por essa altura, França e Itália também estarão a ser governadas por dirigentes socialistas. E abrem-se as portas para o novo ciclo político da União Europeia. Quiçá, viabilizando a concretização do muito propalado  “New Deal Europeu.”

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