Uma Europa à Deriva

A palavra crise tem sido de tal modo repetida que se tornou palavra gasta e que nos agasta. São várias as crises que enfrentamos, desde a económico-financeira à dos valores. Mas também a Europa, a União Europeia, tem sido sinónimo de crise.

O processo de construção europeia iniciou-se sob os escombros deixados pela Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez os povos europeus se guerrearam, como até aí o tinham feito incessantemente durante séculos. É sobre uma Europa devastada que se constrói um sonho, ideal esse que permite à Europa pacificar-se, deixando de existir conflitos bélicos a cada virar de esquina. Aliás, tirando a situação ocorrida nos Balcãs na década de 90, a Europa não mais foi confrontada com os horrores da guerra.

Os arquitectos deste projecto, os pais fundadores desta ideia de Europa, foram homens e mulheres que assistiram aos horrores da Guerra e compreenderam que o caminho teria de ser feito de cooperação, de países de mãos dadas, e não do confronto latente entre os mesmos. Estavam certos. E parece necessário recuperar este caminho do pensamento. Parece ser urgente relembrar alguns líderes europeus que é necessário por de parte os egoísmos nacionais que recrudescem em alguns países e voltar a pensar a Europa como um conjunto de países, um espaço de solidariedade. Talvez este comportamento egoísta mais não seja do que um reflexo colectivo do excesso de individualismo que as nossas sociedades têm vindo a conhecer, no fundo os países imitam esse “hiperindividualismo” do indivíduo tão bem caracterizado pelo filósofo francês Gilles Lipovestky.

As sugestões de venda de ilhas gregas por um pasquim alemão, a consideração de determinado conjunto de países como PIG’S, com todo o desdém que a expressão ventila são exemplos daquilo que não corresponde ao espírito do projecto europeu. Assistimos, também, há não muitos dias à introdução de preocupantes restrições ao Acordo de Schengen pela Dinamarca e a Itália e França deram sinais de quererem afinar pelo mesmo diapasão. E não se ouviu uma manifestação de repúdio das lideranças europeias! Aliás, onde andam as lideranças europeias?

A Europa está amorfa, mostra-se incapaz de se afirmar e de definir o seu caminho. Erra incessantemente e parece funcionar ao retardador, inábil para antever os acidentes de percurso que se têm vindo a suceder. Exemplos disso são a hesitação em recorrer aos “eurobonds”, a forma indolente como lidou com os ataques ao Euro e a alguns dos países que compõem a união monetária.

Os líderes europeus actuais, na sua generalidade são medíocres quando comparados com alguns dos homens de proa que foram saindo de cena em meados da década de 90. E aqui reside parte do problema. Não há políticos da envergadura de Jacques Delors, de Helmut Kohl, de Felipe González, de Mário Soares, entre todos aqueles que se bateram pelo projecto europeu de um modo que hoje não tem réplica.

Aliás, não deixa de ser assinalável o comentário que Helmut Kohl deixou fugir sobre o comportamento de Angela Merkel, imputando-lhe a responsabilidade de “destruir a minha Europa”. E Merkel, recorde-se, era o delfim político deste ex-chanceler alemão. Cumpria que Merkel, ao invés da atitude sobranceira que tem tomado, desse a entender, sobretudo, aos alemães que se os países do Sul precisam da Alemanha, esta também precisa dos países do Sul, pois é nestes mercados que escoa boa parte da sua produção industrial.

Como também é fácil, actualmente, compreender o desânimo de Mário Soares aquando da nomeação de Durão Barroso como Presidente da Comissão Europeia. O simples ocupar de um cargo por um português não traz, necessariamente, prestígio para o país e prova disso são os mandatos de Barroso na Comissão, um imenso mar de nada, a vacuidade.

Mas o problema não é apenas de personagens. O processo de decisão europeia, ao invés de abrangente, cinge-se ao eixo franco-alemão. É inadmissível que a dupla Merkel/Sarkozy se junte antes de um Conselho Europeu, como o que ocorre hoje, para decidirem o que irão “comunicar” aos restantes membros como sendo as deliberações do Conselho.

Além do mais, hoje talvez possamos reconhecer que a União Europeia deu passos rápidos de mais, sobretudo nos sucessivos alargamentos. A política dos pequenos passos deu a vez a processos de integração mais acelerados onde não se sedimentavam determinados patamares para já se estar a pensar no momento seguinte. Citando um bom amigo, só deves avançar para o patamar seguinte quando tiveres dois bons ombros onde te apoiares para esse movimento. Não foi o caso.

Um dado preocupante prende-se com o facto de Portugal, neste momento crítico da Europa, ter um governo que no seu programa não dedica uma única linha à Europa.

Mas uma pergunta se impõe, onde tem andado a esquerda europeia?

Deslumbrada, ainda embriagada pela terceira via de Blair, não tem dado conta de si. Esquece a sua raiz histórica e os seus valores. Tem permitido que os sucessivos governos conservadores e de liberais governem a Europa, tem permitido que o individualismo liberal, de per si hostil às ideias de governo e de comunidade orgânica tome posse da Europa e coloque em estado vegetativo a União.

Posto isto, nós, que somos da “geração Erasmus”, não nos poderemos resignar perante tais fracassos actuais. Já não conseguimos imaginar um continente europeu sem uma União Europeia. Nascemos com ela, crescemos com ela e queremos continuar a acompanhar a maturação deste projecto. Teremos de ser capazes de nos inspirarmos nos pais fundadores da Europa. Teremos de defender esta ideia de cooperação e de integração dos diversos países e ampliar a acção política. Talvez não queiramos, ainda, um republicanismo pós nacional para a Europa, conforme advoga Habermas, mas de certeza que queremos uma Europa credível, mais solidária, coesa, forte e com uma voz audível no plano internacional, que volte a ser olhada como um modelo em outras partes do mundo.

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