Os Novos Rostos do Socialismo Europeu: Nichi Vendola

 

Desenrola-se o último acto da tragicomédia Berlusconi. Os Italianos parecem finalmente dispostos a ultrapassar uma Síndrome de Estocolmo nacional e a ultrapassar os anos de deboche governativo. Vítima do desemprego e da pobreza, problemas transversais aos Países do Sul do Mediterrâneo, Itália acrescenta ainda os seus dramas particulares, incluindo a desagregação regional, o eterno espectro fascista, a corrupção endémica e o crime organizado. Neste contexto, os processos judiciais levantados contra o primeiro-ministro Silvio Berlusconi só contribuíram para agravar os sentimentos de mal-estar e anomia moral. E os Italianos já demonstraram ter perdido a paciência.

 

Em Junho de 2011, Berlusconi sofreu duas derrotas eleitorais consecutivas. Primeiro, nas eleições autárquicas, onde perdeu em Milão, Bolonha, Nápoles, Trieste e Cagliari. Pouco tempo depois, perdeu em quatro referendos nacionais, nos quais simplesmente apelara à não comparência às urnas. Ele mesmo deu o exemplo “democrático”, aproveitando o dia para descansar na luxuosa casa de férias. Mas felizmente um número suficiente de Italianos não concordou e acorreu para votar contra várias leis introduzidas pelo governo de Berlusconi, incluindo da privatização das águas, construção de centrais nucleares e imunidade judicial para ministros em exercício (57% dos Italianos votaram; com os votos nos vários “Não” a rondarem os 95%).

 

O brinde mais surpreendente ocorreu nas eleições autárquicas de Milão, a cidade natal de Berlusconi e onde, actualmente, enfrenta o famosíssimo processo judicial “Ruby Gate”, associando-o ao abuso de poder e à prostituição infantil. Milão, governada por executivos conservadores desde 1993, era o incontestável bastião de Berlusconi. E o próprio figurava na lista que sofreu uma inesperada derrota às mãos de Giuliano Pisapia.

 

Pisapia (na foto, à direita) é o advogado de causas célebres, como da família do mártir dos anarquistas Italianos, Carlo Giuliani, manifestante anti-globalização alvejado mortalmente pela Polícia Italiana; e de Abdullah Ocalan, líder do movimento separatista Curdo, o PKK. Pisapia é ainda um antigo parlamentar da “Refundação Comunista” e da “Democracia Proletária”.

 

A vitória de Pisappia foi promovida pelo seu aliado político e estrela maior da Esquerda Italiana, Nichi Vendola (na foto, à esquerda), governador da Região da Apúlia e líder da coligação ecologista e pós-comunista “Esquerda Ecologia Liberdade.”

 

Vendola fez igualmente o seu tirocínio na “Refundação Comunista” e mereceu uma surpreendente vitória em 2005 para a governação da Região da Apúlia, Sul de Itália. Numa região fortemente conservadora, impregnada do tradicionalismo Católico e dominada pela Máfia, a vitória de um pós-comunista parecia altamente improvável. Ainda para mais quando é assumidamente homossexual. O facto é que o carisma e a dinâmica de Vendola ultrapassaram os preconceitos e convenceram o eleitorado da Apúlia, levando a imprensa a apelidá-lo do “Obama da Itália”. E a sua governação irrepreensível, que incluiu uma aposta forte nas energias renováveis, promoção do activismo juvenil e a apropriação de recursos à Máfia, levaram-no a vencer a reeleição com uma margem confortável.

 

A sua base de apoio foi construída através da articulação de equipas de activistas juvenis “La Fabbrica de Nichi”, que já ultrapassaram as fronteiras Italianas, com forte divulgação pelas redes sociais, blogs e podcasts, e alguma propaganda lírica à mistura. Além de tudo o mais, Vendola é Poeta, citando frequentemente Giacomo Leopardi, Pier Paolo Pasolini ou o Novo Testamento. Para além de tudo isso, Vendola é Católico praticante e o líder político Europeu com mais fãs no Facebook.

 

Em Julho de 2010, anunciou a sua candidatura às Eleições Primárias de 2013, que vão apurar o candidato do Centro-Esquerda às Eleições Italianas de 2013. Apesar dos sectores moderados verem com desconfiança a sua candidatura, as sondagens indicam que Vendola vence contra os líderes mais importantes do centro-esquerda, Pierluigi Bersani (“Partido Democrático”) e Antonio Di Pietro (“Itália dos Valores”). E também vence contra Silvio Berlusconi.

 

Isto é, se Berlusconi tiver fôlego político para chegar lá e os tribunais Italianos o permitirem. O que se afigura pouco provável.

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