Os Novos Rostos do Socialismo Europeu: Martine Aubry

 

A 28 de Junho de 2011, Martine Aubry (na foto, ao centro), declara a sua candidatura às Eleições Primárias Socialistas para as Presidenciais Francesas de 2012. “Quero voltar a dar à França a sua força, a sua serenidade, a sua unidade”, afirmou a líder do Partido Socialista Francês e Presidente da Câmara Municipal de Lille, berço operário do Norte de França. E filha do pai espiritual da União Europeia, Jacques Delors.

 

Por “unidade”, Aubry estava provavelmente a pensar também na congregação dos Socialistas Franceses. Afinal, este é o grande desafio que tem pela frente. Terá de reunir as hostes Socialistas em torno da sua candidatura, antes de se poder afirmar como a alternativa socialista para Nicolas Sarcozy. E, para esse efeito, terá de ultrapassar as habituais fracturas internas do Partido Socialista Francês que, por exemplo, obstaculizaram a vitória de Ségolène Royale em 2007.

 

Em Outubro de 2011, ocorrem as Primárias, onde os vários candidatos socialistas disputam um lugar no boletim de voto às próximas eleições Presidenciais Francesas.

 

De acordo com a tradição, serão Primárias muito disputadas, com discursos emotivos, divergências ideológicas acentuadas, alianças tácticas e manobras de bastidores surpreendentes. Com o candidato que sair vencedor a ser, muito provavelmente, o próximo Presidente da República Francesa em Abril de 2012.

 

Nicolas Sarcozy conhece actualmente índices de popularidade baixíssimos e forte contestação social. As sondagens indicam que qualquer dos principais candidatos do Partido Socialista Francês o derrota em 2012 e com relativa facilidade. Poderá ser Martine Aubry ou François Hollande, ainda com ligeiras possibilidades (poucas) para Ségolène Royale e Dominique Strauss-Kahn.

 

No final, e apesar de Hollande ter partido como favorito, Aubry deverá prevalecer. A sua lista de apoios é já imensa, indo dos históricos do PS, ex-ministros, da facção de Strauss Kahn e da nova fornada de dirigentes socialistas. Sinal de que, se Aubry não é a candidata consensual, é “a mais” consensual.

 

A sua eventual vitória nas eleições à Presidência de França poderá significar a primeira de uma série de investiduras de dirigentes socialistas nos principais governos da Europa pelos anos subsequentes. Seguem-se Itália, Alemanha e Reino Unido. Numa espécie de reacção epidérmica continental à incapacidade dos actuais governantes Europeus para responder à crise socioeconómica. E o facto de ser Martine Aubry, ao invés de qualquer dos outros candidatos socialistas, será só por si um sinal político significativo.

 

Enquadrada na ala Esquerda do Partido Socialista Francês, Aubry tem um currículo inequívoco em áreas fundamentais, mais notavelmente no trabalho e solidariedade social. Foi a Ministra do Trabalho que aprovou a quase mítica lei das 35 horas de trabalho semanal (reduzindo-as das 39 horas). Enquanto Ministra do Emprego e Solidariedade Social, promoveu a universalização do acesso aos cuidados de saúde, principalmente junto dos pobres e desempregados. Enquanto Presidente da Câmara Municipal de Lille, promoveu a iniciativa da Capital Europeia da Cultura, que atraiu 9 milhões de visitantes, e implementou uma série de políticas municipais ecológicas.

 

Mais recentemente, já como líder do Partido Socialista Francês, assumiu uma aliança arriscada com Cécile Duflot (na foto, à direita) e Marie-George Buffet (na foto, à esquerda), as líderes respectivamente dos “Verdes” e do “Partido Comunista Francês”, para as Eleições Regionais Francesas. A coligação das “três damas da Esquerda” venceu em 23 das 26 regiões de França.

 

A vitória de Aubry nas Presidenciais Francesas de 2012 constituiria a confirmação de que um dirigente socialista da “ala Esquerda”  pode vencer o centro. Num tempo de agravamento da recessão económica e da rejeição das políticas liberais ou conservadoras, é “este” socialismo democrático, pós-II Guerra e pré-terceira via, que conhece as condições para se afirmar como a alternativa das classes médias europeias, a braços com a incerteza sobre a sustentabilidade dos seus modelos sociais. Da insatisfação e da crise, surge a oportunidade para a emergência de uma nova vaga de governantes socialistas, mais próximos dos valores matriciais da construção Europeia e dos ideais fundadores do Socialismo Democrático. O que se reflectiria na implementação de políticas de investimento estatal, solidariedade social e redistribuição fiscal à escala europeia.

 

Aubry é a ponta-de-lança dessa vaga.

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