Comunicação de Estado

 

Durante a última campanha eleitoral, na qual participei activamente, despertou na minha mente, uma noção que se encontrava adormecida, talvez por considerá-la desadequada aos tempos modernos, que hoje vivemos. Noção esta que se prende com “a importância da existência de um canal televisivo, capaz de transmitir informação independente das motivações de certas elites, isenta de vontades e interesses pessoais, e imparcial quanto ao seu conteúdo”.

 

Vivemos na era em que a comunicação e a imagem assumem, em política, um papel crucial, sendo buriladas até ao tutano. Os longos discursos que compõem os comícios transformam-se em pequenos resumos, aquando das transmissões televisivas. Os candidatos empenham-se na veiculação de uma mensagem clara e assertiva, que seja perfeitamente entendível num curto espaço de tempo. Do outro lado, os órgãos de comunicação põem a tónica na parte do discurso que entendem ser mais relevante, e dão ênfase aos momentos que lhes parecem retratar melhor a atmosfera vivida. E desta dinâmica resulta aquilo que chega até aos telespectadores, e que estes assimilam, criando concepções mentais sobre os diferentes candidatos, e as respectivas campanhas.

 

E foi precisamente, a percepção que tive desta mecânica, que despertou, e reactivou o meu intelecto, para o poder que um canal televisivo pode ter, na veiculação de uma mensagem. A extrapolação de pequenos incidentes, a opção por determinadas palavras, e até a escolha de diferentes ângulos, complementada por uma minuciosa edição de imagens, são armas ao serviço deste órgãos de comunicação, podendo ser usadas para deturpar e desvirtuar a realidade. Como consequência, pode então acontecer, que aquilo que uma minoria presencia, não seja bem aquilo a que uma maioria tem acesso.

 

Atentemos na hipótese de que todas estas “armas” estão à disposição, única e exclusiva, da iniciativa privada, podendo esta usá-las de forma discricionária. Pensemos, ainda, no caso extremo, mas possível, em que administradores, e directores, possuem ligações mais, ou menos explícitas a determinados partidos políticos. Podemos assim compreender o perigo real, que esta hipotética situação pode constituir! É, no meu entender, fulcral para a “saúde democrática” de uma Nação, e para o papel que a comunicação social detém, na consolidação de uma sociedade informada, culta e pluralista, a existência de um canal televisivo Estatal. E é, primordialmente, por este motivo que me oponho à privatização da RTP.

 

E mesmo que este argumento não bastasse, privatizar a RTP pode ser a causa para o aparecimento de outros problemas sérios. Desde logo, no que toca ao mercado publicitário, à agressividade que a concorrência pode atingir, de tal forma, que pode levar ao colapso de um dos operadores. Não nos esqueçamos que o canal Estatal possui, apenas, direito a 6 minutos de publicidade, por hora. Teria ainda que ser encontrada uma solução para os 2 mil trabalhadores da estação. Ainda assim, e apesar dos custos operacionais anuais da RTP estarem dentro da média europeia, admito que se possa optar pela via do emagrecimento dos mesmos. No entanto, não concebo a ausência de um canal público, no principal meio de comunicação de massas!

 

Fazendo minhas, as palavras de Pedro Camacho, numa crónica inserida na revista “Visão”: “Amanhã, estou seguro, continuaremos a ter liberdade de expressão em Portugal. Não sei é até que ponto continuaremos a ter uma verdadeira e alargada liberdade editorial. E, sem ela, não haverá jornalismo livre de pressões económicas”.

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