Do Pudor na Política

Saímos há muito pouco tempo de eleições legislativas onde os diversos partidos políticos que as disputaram tiveram oportunidade de se confrontarem e de colocarem os seus programas e ideários ao escrutínio dos cidadãos. E, mais arrufo menos arrufo, apesar de algumas manifestações de pouca tolerância face à caravana Socialista em alguns locais, a campanha decorreu sem qualquer confronto de relevo.

 

A saída de José Sócrates, em consequência desse acto eleitoral, deu azo a novas eleições para Secretário-Geral do Partido Socialista. Consequentemente, em pouco tempo, tiveram os Socialistas de se “reprogramarem” para passarem para o modo eleições internas. Até à data apresentaram-se dois candidatos e as preferências dos militantes começaram a manifestar-se. Até aqui tudo normal! A opção por um dos candidatos, que se pretende livre e esclarecida, é um direito de todos os militantes.

 

Contudo, a bonomia da paisagem muda de figura quando assistimos à adopção da postura ilustrada na célebre frase de Churchill que coloca os inimigos políticos dentro do próprio partido e os adversários nos limites exteriores dessa fronteira partidária.

 

E, infelizmente, esse registo parece estar a fazer escola. Uma viagem, que nem carece de ser muito extensiva, pelas redes sociais, por alguns blogues, assim como por algumas sms’s que foram difundidas pelos militantes -estas últimas autênticas “pièce de résistance”- permite constatar uma agressividade e até algum azedume superior nesta disputa interna quando comparada com o registado na própria eleição onde defrontamos os nossos adversários, aqueles que deveríamos entender como nossos verdadeiros “inimigos” políticos. É certo que alguns militantes andam temerários de que o futuro não lhes reserve algum protagonismo de que até à data gozavam, mas haja calma.

 

Este exercício de autoflagelação não é nada benéfico para o Partido. Ouve-se, em algumas vozes, que, no dia 24 de Julho, seremos novamente todos socialistas. Erro temporal! Não olvidemos que até ao dia 23 de Julho somos todos, bem como depois de 23 de Julho seremos também todos, Socialistas.

 

Daí que, apesar das escolhas que cada um de nós efectua, o respeito pelos nossos camaradas não deve ser descurado. Pelo contrário, é perfeitamente plausível demonstrarmos as razões do nosso apoio e o porquê de defendermos uma determinada candidatura, sem que tenhamos que estar a fazer uso do ataque baixo, de índole pessoal. Este tipo de manifestações, assente numa perspectiva um tanto ao quanto maniqueísta, não farão grande sentido no interior do Partido, mais ainda quando os dois candidatos que se apresentam, pelo carácter e dignidade de ambos, não merecem que o debate desça a essa cota. O ódio que por vezes transparece em algumas palavras, esse sim escondido atrás de um arbusto, não é um bom conselheiro nem sentimento ajuizado.

 

Sabemos também que há quem goste de encher o peito para, a plenos pulmões, bradar o carácter de ampla liberdade e de diversidade interna que caracteriza o Partido Socialista. Mas, depois, parecem ter uma dificuldade congénita em lidar com a tolerância que a diversidade de opiniões e a liberdade exigem.

 

Por tudo quanto fica dito entendo que deve existir pudor, decência, dignidade na forma como fazemos política e como manifestamos as nossas opiniões, mais ainda quando se trata de questões internas. Haja decoro, serenidade e bom senso antes de se escrever. Não nos permitamos ser foco de entretenimento dos outros partidos.

 

E não se esqueçam, somos todos Socialistas!

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