Uma primeira reflexão sobre os resultados eleitorais

Chamados a pronunciar-se os portugueses decidiram, votaram e deram um novo colorido ao mapa político de Portugal. Mudaram o figurino da Assembleia da República, impondo uma viragem à direita.

 

Há factos que não podem passar sem serem alvo de atenta análise. Desde logo, por ser já crónico e porque se agravou, a abstenção. É insustentável este divórcio entre eleitores e os eleitos ou candidatos a eleitos. Certo é que existem muitos eleitores fantasma nos cadernos eleitorais, mas tal não justifica tudo. Os partidos políticos têm de efectuar uma profunda reflexão que inverta este ciclo. Urge que os cidadãos voltem a confiar nos partidos e compreendam que estas instituições são essenciais para a democracia. A título de mera curiosidade a soma de votos do PSD e PS, os dois partidos mais votados, é inferior ao número de votos absentistas.

 

Iremos – o Partido Socialista – para a oposição, amarrados por um compromisso assumido internacionalmente, mas a nossa responsabilidade não se esgotará aí. Entendo até que a maior responsabilidade do Partido Socialista terá de ser a de se constituir como oposição forte e vigilante, para que não se deixe entrar pela janela aquilo que se conseguiu impedir que entrasse pela porta. Descodificando, ao Partido Socialista exige-se que se bata, agora como sempre, pela democracia no sentido mais global da palavra, uma democracia que englobe não só a democracia liberal mas também a democracia social, porque a democracia, para nós socialistas, não se cinge a direitos liberdades e garantias dos cidadãos. Há mais direitos fundamentais para serem salvaguardados, porque não se pode ser cidadão se não se for livre e para se ser inteiramente livre teremos de garantir o acesso à educação, à saúde e à protecção social em igualdade de circunstâncias para todos.

 

E se de reflexão se fala, para as nossas hostes socialistas a reflexão começa hoje. Um novo ciclo terá de ser aberto. Um debate livre, franco e plural é o que se deseja, que reinvente o Partido e o torne capaz de construir um caminho que nos permita escrever uma nova narrativa política conducente a governar Portugal. Até porque, desta feita, a direita portuguesa será forçada a governar em circunstâncias difíceis e, dessa forma, vai provar do mesmo veneno que nos tolheu a governação nos últimos tempos.

 

No entanto, e ao contrário do que seria um cenário possível no rescaldo de uma árdua acção governativa, o PSD não ganhou com maioria absoluta e fica longe de a atingir. O Bloco caiu, e de que maneira, a CDU mantém o seu petrificado eleitorado e o CDS cresce. O PS teve um mau resultado e Sócrates leu-o bem, assegurou dignidade no momento da saída.

 

Olhando agora para o município do Porto, o Partido Socialista perdeu mais de 13.000 votos face a 2009. Números preocupantes e que nos forçam a criar um plano que estanque esta ferida aberta que tem sido a perda de eleitorado socialista no Porto.

 

Por fim, aos jovens da minha geração, uma palavra, há que estar atentos aos cantos de sereia que por aí andaram na campanha eleitoral e que subsistirão agora. A nós também nos cabe estar particularmente despertos para a política, o nosso futuro joga-se já hoje porque também fazemos parte do presente.

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