O Porto está Doente

A cidade do Porto encontra-se gravemente doente, padecendo de uma doença que nos força a um prognóstico reservado. O cinzento granítico dos seus edifícios, qual vírus, alastrou e afectou, também, os portuenses.

Quando vim para esta cidade trazia comigo uma determinada ideia daquilo que eram as gentes do Porto. Dinâmicas, alegres, cosmopolitas, com uma energia muito típica, muito portuense. No entanto, fui confrontado pelo contrário. Verifiquei que os portuenses estavam amorfos, resignados desmobilizados da sua cidade. Foi há meia dúzia de anos…e constituiu uma desilusão!

Mas no Porto não são apenas as suas gentes que se encontram doentes. O Porto edificado, esse também está gravemente doente. São edifícios em avançado estado de degradação, a salubridade e segurança dos transeuntes que é colocada em causa. É uma imagem de quem está a definhar que o Porto oferece aos muitos turistas que por cá passam diariamente.

Muito se fala e tem falado de reabilitação urbana, mas poucos resultados palpáveis se lhe conhecem. Ou, melhor, conhece-se mas parecem ir em contraciclo com o que seria desejável. Ao invés da aposta numa estratégia que conseguisse atrair de novo população ao centro desta cidade, recuperaram-se edifícios onde apartamentos pequenos são vendidos acima de €100.000,00!

Há ainda no Porto algo que lhe sendo típico tem estado ausente da discussão da reabilitação. É um factor de doença mas, porque se manifesta de forma “subcutânea”, muitas vezes é olvidado. Falo-vos das “ilhas”, que escondem condições difíceis de vida aos seus habitantes. Quem passa em algumas ruas do Porto não imagina o que aquelas fachadas escondem.

A este quadro clínico não poderá ser alheio o facto de a principal entidade da cidade, a C. M. Porto, se demonstrar pouco galvanizadora da cidade e das energias dos seus habitantes. Persistir em viver de costas voltadas para algumas das suas mais representativas e dinâmicas instituições parece já uma obsessão. O Rivoli Teatro Municipal vulgarizou-se. As galerias de Miguel Bombarda tiveram uma enorme dificuldade em ver reconhecida a sua importância para a cidade. E continuar a ver uma instituição, talvez até a mais representativa da cidade, que leva o nome desta polis assim bem junto ao coração, ser ignorada por uma suposta necessidade de criar compartimentos estanques para evitar fenómenos de corrupção, mais parece um fundamentalismo e uma clara falta de proporcionalidade. Se os fins muitas vezes justificam os meios, aqui os últimos claramente excedem os limites do razoável. Evidentemente, refiro-me ao F. C. Porto.

Por isso, o Porto precisa de uma revolução que guie o seu povo e sugiro, desde já, que a nossa querida Aurora seja a imagem dessa revolução qual Liberdade de Delacroix!

Anúncios