Porque sou socialista?

Num destes dias, quando reflectia sobre a origem das minhas convicções políticas serem de origem socialista e se as deveria por em causa, achei que o melhor era, provavelmente, nem procurar racionalidade na questão, eu sou socialista porque sou!

Talvez por razões culturais, absorvemos muitas vezes conceitos que achamos indesmentíveis, e que historicamente aprendemos a aceitar. Este pensamento, assim meio obtuso, vem numa linha de pensamento dogmática, cheia de verdades indiscutíveis, mas que não alimentam a razão.

Fernando Pessoa, num dos seu textos, disse que “a razão era incompetente para determinar uma verdade”, justificando que “o conhecimento vem dos ou pelos sentidos (…), a razão, ou intelecto, nem percebe, nem cria, tão-somente compara, e, por comparação, rectifica e elabora, os dados que os sentidos ministram.”

Assim sendo, pareceu-me natural, voltar atrás e permitir-me a questionar, não as razões mas sim os meus sentidos, que é como quem diz os meus sentimentos socialistas.

Todo ser humano é um político. Em qualquer fase da nossa vida somos confrontados com tomadas de decisão e nesse momento fazemos julgamentos, por vezes sumários, do contexto que nos envolve, com base em princípios, valores, crenças, experiência e ensinamentos que fomos tendo ao longo da vida. A prática política, para além das reflexões civilizacionais confronta-nos com a arte de regular, moderar e decidir.

Posteriormente o julgamento popular é sobre quem governa bem. Aprofundando esta ideia, direi mais, somos remetidos (nós os políticos) para um processo que se funda na arte de decidir bem. É por isso vital termos um bom código de valores, algum conhecimento, experiência suficiente, capacidade de gerir e intervir utilizando as boas práticas no respeito intrínseco por quem somos.

Porque sou socialista? Talvez seja por uma causa utópica, mas a verdade é que comungo os princípios do Partido Socialista. Sinto-me vocacionado para a defesa dos direitos sociais, motivado pela busca de “uma sociedade mais livre, mais justa, mais solidária, mais pacífica” tradicionalmente humanista, lutando contra todas as formas de injustiça e discriminação.

No entanto, estes valores parecem ser universais, tanto até que muito provavelmente outros partidos partilham esta cartilha baseada numa democracia pluralista que respeite a justiça, a liberdade e a igualdade de oportunidades.

Mas então, se me sinto socialista, porque me sinto Socialista?

É no momento fulcral das questões que temos muitas vezes de afastarmo-nos do conteúdo e voltar as nossas atenções a forma. É aqui que as grandes diferenças acontecem. Uns reconhecem mercado e capacidade de se auto-organizar, outros nem sequer reconhecem o mercado; Uns dão mais valor do que outros à meritocracia; Uns têm mais sentido comunitário; Uns defendem a democracia com outros sem classes sociais; Enfim, uma panóplia de coisas que provoca divergências fundamentais entre partidos.

É no entanto no Partido Socialista que me reconheço e onde reconheço o melhor modelo social, anotando três ideias que são basilares:

  • O princípio fundamental de que é ao Estado a obrigação de garantir o bem-estar comum;
  • A defesa de uma economia de mercado triangular, regulada institucionalmente, onde se funde a iniciativa privada, a iniciativa pública e a iniciativa social;
  • A preocupação progressista no desenvolvimento sustentável e a coesão social, respeitando sempre os direitos humanos;

Parece-me, pois evidente a resposta à minha pergunta e a primeira resposta, sou socialista porque acredito que todos devemos ser iguais no acesso à saúde, à educação e a justiça. Sou socialista porque não aceito a exclusão social. Sou socialista porque acredito que só numa sociedade sem pobres poderemos todos ser verdadeiramente felizes. Sou socialista porque gosto de partilhar. Porque na partilha de comida, conhecimento, carro ou habitação estamos a ser mais humanistas e ajudar a construir um mundo melhor. Sou porque sou.

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