A Estória de Aurora

Aurora é uma mulher autónoma, jovial e de fortes convicções. Nascida na cidade do Porto, herdou o nome da avó, que por sua vez foi assim baptizada em homenagem à famosa obra de Nietzsche sobre a moral e o poder, ou se calhar, por causa de um conde que veio de Ponte de Lima, de quem insinuam ser descendente bastarda.

A avó Aurora era uma mulher de inusitada beleza, frívola, muito mundana, tanto que dizem ser em seu tributo que se apelidou com o nome dela a mais famosa garagem de automóveis de corrida. Ela, impecavelmente vestida, sorria sempre e adorava essas historietas de polichinelo, só se empertigava quando lhe perguntavam se sempre era verdade ser ela a famosa irmã desavinda da Carmen Miranda.

A nossa Aurora, neta da gloriosa Aurora citada e mãe de uma pequenita Aurora nascida já no século XXI é mais simples, embora moderna e cosmopolita, é antes uma mulher trabalhadora e instruída, interessada e activa. Possui, por culpa do seu Pai uma formação republicana e liberal portuense, e por insistência da sua Mãe uma educação católica. Vejam isto por esta ou por outra ordem qualquer. Nota-se que da república queixa-se às vezes, da liberdade nunca se queixa e a Deus dita quotidianamente muito queixume. Nem por isso se tornou mais religiosamente praticante, menos livre ou publicamente má rés, portanto, é uma mulher que se considera Laica cristã, republicana católica, sublinhada, como nunca se cansa de lembrar, com muito socialismo.

Nem casada nem solteira, amigou-se e juntou os trapinhos com outro tripeiro que a encanta com os seus cânticos de acento nortenho bem pronunciado. Enleva-a como uma princesa e derrete-se perante a sua beleza que nem é tanto exterior. Diz ele de Aurora, “é um monumento”. Ela sente-se mais como uma qualquer, ás vezes, bela e feia, segura e insegura, sedutora e intimidante.

Dizem todos que é alegre e extrovertida, embora perca as estribeiras amiúde e onde está a serenidade boreal levanta-se um furacão. Não a enganem! Porque ela gosta de acreditar e voluntaria-se generosamente quando acredita, em coisas e em pessoas.

Aurora detesta o conservadorismo e mais ainda discursos jarretas, tem um grupo de amigos equevo que debita ideias e despeja uma torrente de larachas. Felizmente já correu uma parte do mundo e a outra parte, diz que quer continuar a correr, devagar e um bocadinho de cada vez, como se faz quando se bebe o vinho do Porto.

Vive numa casa semi-velha, semi-recuperada, semi-luxuosa, semi-histórica. Ainda sobrevive a habitar perto do centro do Porto, ou melhor, na Boavista, que isso de centro histórico da cidade é outra coisa. Irrita-se com a porcaria do estacionamento e pragueja pela opção de não ter antes alugado uma casa com garagem. Mas como o primo lhe faz uma renda “sopimpa”, acomoda-se. Qualquer dia vai tentar fazer um ninho mais aconchegado e só seu, se os bancos lhe derem oportunidade, e se o patego com quem vive concretizar os negócios que diz que vai fazer desde o antepenúltimo Natal. Nos últimos tempos melhorou o escritório e passa lá as noites dividindo o tempo entre o blogue que fez com o seu nome e a crescente biblioteca.

Aurora diz dos livros que é uma leitora desconexa, declara por isso que devora uns, atalha outros e despreza uns quantos. Às vezes só lê o jornal e mal, outras vezes demora cada frase e aponta com a lapiseira “carran d’ache” pequenos aeróglifos nos bordos das páginas, que raramente relê.
Se quiserem saber da Aurora estejam tranquilos, a Aurora escreve muito, e como quem fala, como lhe dizia o bisavô para fazer quando afagava a sua edição do Zaratrustra.

Ela sempre volta ao mesmos lugares dizendo as mesmas coisas, só que cada vez que vem di-las melhor e com mais sabedoria e juventude.

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